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(A) :: SNS fez menos cirurgias e consultas em 2025 e tem mais doentes em listas de espera. "Dados devem preocupar o Governo", dizem gestores

SNS fez menos cirurgias e consultas em 2025 e tem mais doentes em listas de espera. "Dados devem preocupar o Governo", dizem gestores

Vários indicadores do SNS deterioraram-se. Há mais utentes à espera de consulta e cirurgia e produção assistencial estagnou. Gestores hospitalares dizem que dados "devem preocupar o Governo".

Tiago Caeiro
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São dados reveladores do desempenho do Serviço Nacional de Saúde (SNS) em 2025. No ano passado, foram realizadas menos cirurgias nos hospitais, menos consultas nos centros de saúde e menos partos, enquanto o número de utentes em lista de espera para cirurgias e consultas hospitalares aumentou. Tudo isto aconteceu apesar de ter sido reforçada a capacidade do SNS: em 2025, tanto o número de profissionais como os rendimentos do SNS aumentaram em relação a 2024. Os dados constam de um documento interno da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), designado “A Saúde em Números”, e a que o Observador teve acesso.

Ao Observador, o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares mostra-se preocupado com o aumento das listas de espera (que, diz Xavier Barreto, reflete um “desequilíbrio claro entre a procura e a produção do SNS”) e aponta responsabilidades ao Ministério da Saúde — que, desde o ano passado, tem vindo a nomear pessoas “sem experiência” para os hospitais e não resolveu o problema do excesso de casos sociais nos internamentos, um problema que, lembra, afeta a atividade das unidades hospitalares.

Um dos dados mais preocupantes do documento elaborado pela ACSS diz respeito à quebra do número de cirurgias, numa altura em que a procura é cada vez maior. Em 2025, foram realizadas 884.062 intervenções cirúrgicas, menos 0,7% do que em 2024. Apesar de ligeira, esta é a primeira quebra do número de cirurgias registada no período pós-covid. Olhando mais em detalhe, foram feitas, de janeiro a dezembro de 2025, 784.580 cirurgias programadas (menos 0,5%) e 92.482 urgentes (menos 2,2% do que no ano anterior). A única evolução positiva, no campo cirúrgico, registou-se nas operações de ambulatório, que aumentaram 0,4%.

Numa análise mais fina, por Unidade Local de Saúde, percebe-se que, na maioria das ULS, a produção cirúrgica até aumentou em 2025. No entanto, em alguns dos maiores hospitais do país registou-se uma quebra acentuada das cirurgias, o que determinou a diminuição global registada no ano passado. Na ULS do Algarve, o número de cirurgias baixou 10,7%, na ULS de São José 7,8%, na ULS do Oeste 7,3%, na ULS Amadora-Sintra 6,2% e ULS Gaia/Espinho 5,7%.

"Um aumento das listas de espera desta magnitude é preocupante. Temos um desequilíbrio claro entre a procura e o que produzimos"
Xavier Barreto, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares

Lista de espera para cirurgia aumenta 3,3%

Em sentido contrário, em hospitais mais pequenos, sobretudo na região Norte, o número de cirurgias aumentou significativamente, o que mostra bem as disparidades do SNS: mais 25% na ULS de Barcelos/Esposende, mais 20,7% na ULS do Alto Ave, mais 11,9% de cirurgias na ULS da Cova da Beira.

Se num cenário de aumento da produção cirúrgica já é complexo acompanhar o aumento da procura, com uma quebra da atividade — como a registada no ano passado — mais difícil se torna. No final de 2025, a lista de inscritos para cirurgia totalizava 267.832 pessoas, mais 3,3% do que no final de 2024. Pior: 31% destas pessoas aguardavam cirurgia para lá dos Tempos Máximos de Resposta Garantidos (TMRG), um aumento de 3,3% em relação a 2024.

https://observador.pt/especiais/numero-de-doentes-a-aguardar-cirurgia-fora-do-tempo-maximo-sobe-30-em-2025-mostram-dados-do-governo/

Recorde-se que o combate às listas de espera para cirurgia foi uma das grandes prioridades do Ministério da Saúde, liderado por Ana Paula Martins. Depois de uma recuperação em 2024 (fruto da criação de programas especiais de regularização das listas de espera, nomeadamente na área oncológica), a situação agravou-se consideravelmente em 2025, como já mostravam os dados publicados no site que monitoriza o cumprimento do Plano de Emergência para a Saúde.

No caso da lista de inscritos para cirurgia, na grande maioria das ULS e três IPO do país a situação piorou. Foi na ULS de Barcelos/Esposende que se deu a subida mais acentuada, de 47,7%. Em segundo lugar, surge a ULS Amadora-Sintra, uma das maiores do país, onde se registou uma deterioração significativa da lista de espera para cirurgia em 2025: mais 27,7% de pessoas a aguardar operação no final do ano passado, quase oito mil.

Segue-se a ULS do Alto Alentejo, com mais 27,2% de utentes na lista de espera e a ULS de Santa Maria (que suspendeu as cirurgias adicionais no serviço de dermatologia em maio, na sequência do caso Miguel Alpalhão) com mais 26,5% de pessoas na lista de espera (são agora mais de 12.600). Em sentido oposto, a ULS do Nordeste conseguiu diminuir a lista de espera para cirurgia em 33,8% no ano passado, enquanto a ULS do Estuário do Tejo tinha, em dezembro, menos 21,9% pessoas a aguardar cirurgia do que no final de 2024. “Nas cirurgias, 81,3% foram realizadas dentro do TMRG”, nota o documento.

No que diz respeito às consultas hospitalares, registou-se um aumento de 0,6% no ano passado, para as 14,1 milhões. No entanto, esta evolução foi conseguida à custa das consultas de seguimento, que aumentaram 1,6%. Já as primeiras consultas diminuíram 1,8%.

Mais de um milhão e 100 mil pessoas aguardam por cirurgia

Tal como no caso das cirurgias, também nas consultas a capacidade de resposta do SNS foi insuficiente para responder à procura. Esse desfasamento resultou num aumento da lista de espera para consulta. No final de 2025, havia 1.101.296 pessoas a aguardar consulta no SNS, mais 13,6% do que em 2024, sendo que cerca de metade das consultas realizadas de janeiro a dezembro foram feitas para lá do tempo clinicamente recomendado, uma realidade que não se alterou em relação a 2024.

Na análise por ULS, percebe-se que as listas de espera para consulta aumentaram na grande maioria dos hospitais, sobretudo na região de Lisboa e Vale do Tejo. Na ULS de Santa Maria, o número de inscritos para consulta aumentou 26,2%, na ULS do Oeste 44,6%, na ULS de Lisboa Ocidental 15,9% e na ULS Loures-Odivelas 37,2%. Contudo, o maior aumento da lista de espera registou-se mesmo na ULS de Entre Douro e Vouga, com 47,3%.

O presidente da APAH, Xavier Barreto, lembra que, devido à intensificação da época gripal em dezembro, muitas ULS ativaram planos de contingência, o que pode ter contribuído para a estagnação da produção assistencial na área das cirurgias e também das consultas. “Tivemos um dezembro muito difícil, que obrigou alguns hospitais a suspender atividade programada”, sublinha.

"Os internamentos sociais bloqueiam os fluxos de doentes, temos 15% a 20% de camas ocupadas com doentes que não deviam lá estar lá"
Xavier Barreto, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares

Ainda assim, o representante dos gestores hospitalares mostra-se preocupado com o aumento das listas de espera, que reflete uma incapacidade do SNS de acompanhar a procura. “Um aumento das listas de espera desta magnitude é preocupante. Temos um desequilíbrio claro entre a procura e o que produzimos”, refere Xavier Barreto, acrescentando que os dados conhecidos através do relatório da ACSS “devem preocupar o Governo”.

No que diz às consultas nos centros de saúde, registou-se uma quebra de 0,8% em 2025, ano em que foram realizadas 33,8 milhões. O número de consultas presenciais caiu mais (4%), tendo esta diminuição sido parcialmente compensada pelas consultas não presenciais e ao domicílio, nota o documento da ACSS.

Ainda no que diz respeito à produção do SNS, o número de partos diminuiu 0,9%, para os 63.697 — uma realidade que, ainda assim, não impediu um novo aumento do número de cesarianas (de 1,1%).

SNS tem mais médicos e enfermeiros. Gastos subiram mais que receitas

A quebra da produção assistencial do SNS no ano passado, em vários indicadores, ocorreu ao mesmo tempo que o SNS era de novo reforçado quer em número de profissionais quer em meios financeiros. No final de dezembro, eram 147.536 os profissionais a tempo completo, mais 2,6% do que em 2024. Há mais médicos (uma subida de 1,3% para os 30.317) e também enfermeiros (mais 2,5%, sendo agora 52.303), tanto nos hospitais como nos centros de saúde, refere a ACSS.

https://observador.pt/2026/01/05/numero-de-utentes-sem-medico-de-familia-volta-a-aumentar-em-dezembro-2025-terminou-com-156-milhoes-sem-medico-mais-do-que-ha-um-ano/

O presidente da APAH considera que o aumento do número de profissionais, sobretudo de médicos, “foi muito baixo”, e “insuficiente para impulsionar a produção dos hospitais”. Xavier Barreto acusa o Governo de não ter resolvido, a tempo, o problema dos internamentos sociais do SNS, que aumentaram em 2025 — uma realidade que prejudica a atividade assistencial.

“Os internamentos sociais bloqueiam os fluxos de doentes, temos 15% a 20% de camas ocupadas com doentes que não deviam lá estar lá”, critica. Para além disso, o responsável considera que existe um problema de gestão em algumas ULS, criado pelo Governo, que tem substituído diversos Conselhos de Administração. “O Governo continua a nomear pessoas sem experiência e currículo. Isso pode traduzir-se em piores resultados. Se não tivermos as melhores pessoas nos CA, isso aumenta a probabilidade de termos mais resultados”, sublinha Xavier Barreto, realçando que “algumas nomeações mereciam outro tipo de critério”.

https://observador.pt/2025/12/30/governo-afasta-administracao-da-uls-de-sao-jose-e-escolhe-militante-do-psd-para-o-lugar-ha-outras-substituicoes-na-calha/

Para além disso, os rendimentos operacionais do SNS também aumentaram — 5,3% — para os 13.064 milhões de euros. No entanto, apesar do aumento das receitas, os gastos subiram de forma ainda mais expressiva: totalizaram 15.750,2 milhões de euros (mais 13%), com destaque para a subida de 10,5% nos gastos com pessoal (que somaram 7.030 milhões) e de 6,7% com medicamentos (somando 2.008,5 milhões). Desta forma, a dívida total foi de 1.471,3 milhões de euros (mais 10,8% do que em 2o24).

Também o número de utentes sem médico aumentou em 2,7% (para 1.563.710), sendo que, ainda assim, o número de pessoas com médico atribuído evoluiu favoravelmente. No final de dezembro, 9.159.219 utentes do SNS tinham médico, mais 2,2% do que em 2024. Já os inscritos aumentaram também 2,2% para os 10.734.672.

AACSS ressalva que a PPP do Hospital de Cascais Dr. José de Almeida não conseguiu disponibilizar, no mês de dezembro de 2025, a informação relativa aos Cuidados de Saúde Hospitalares, pelo que esses dados não foram contabilizados na análise comparativa.

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