(c) 2023 am|dev

(A) :: Investigadores portugueses ajudam a desvendar mistério com mais de 50 anos: peixe falso-voador comunica por sons e movimentos

Investigadores portugueses ajudam a desvendar mistério com mais de 50 anos: peixe falso-voador comunica por sons e movimentos

A descoberta vai além da assinatura sonora da espécie. O som ajuda a detetar espécies invasoras, mapear biodiversidade e identificar alterações ambientais que de outra forma passariam despercebidas.

Adriana Alves
text

É uma hipótese que demorou cerca de 50 anos a ser provada. Desde a década de 1970 que se suspeitava que o peixe falso-voador, conhecido pelas características barbatanas salpicadas a azul que se assemelham a asas, comunicava através de sons e movimentos. A ideia foi confirmada graças ao trabalho de uma equipa internacional, que contou com a colaboração de investigadores portugueses da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL). Mas as conclusões do estudo vão muito além da descoberta da “assinatura sonora” da espécie Dactylopterus volitans e são “essenciais para perceber como os ecossistemas funcionam”, sublinham os autores do estudo.

Tudo começou quando em 2024, uma equipa croata apanhou peixes falso-voador a emitir sons enquanto decorria um censo visual para registar a biodiversidade no Mar Adriático, mais precisamente em Pasjača. “Começaram a gravá-los e os vídeos chegaram ao primeiro autor do estudo, o Sven [Horvatić], um investigador croata de bioacústica de peixes, e usámos estas gravações para realizar este estudo”, conta Manuel Vieira, investigador português que é o segundo autor e a quem coube a análise dos dados recolhidos.

Apesar de os sons dos peixes surgirem até nos livros de Júlio Verne, há poucos documentados. “Muitas espécies possuem uma ‘assinatura sonora’ própria, que pode revelar padrões de atividade e interações ecológicas”, sublinhou o mesmo investigador num comunicado da Faculdade de Ciências. Acompanhar estes sons pode até ajudar a monitorizar a biodiversidade “de modo a podermos saber o que existe e como está a mudar e como podemos alterar as nossas próprias políticas para que a nossa gestão seja correta em determinadas áreas protegidas”.

https://www.youtube.com/watch?v=JQrWqHqj1cM

Os sons e movimentos do peixe falso-voador, que está presente nos Oceanos Atlântico, Pacífico e Índico a profundidades entre um e 100 metros, foram gravados com recurso a action cams e a evolução e características analisadas com o apoio de Inteligência Artificial. “Este é um dos casos raros em que foi possível ver, facilmente através de um vídeo, a relação entre o som e o comportamento deste animal. Nem sempre é fácil gravá-los na natureza. A maior dificuldade foi tentar descrever corretamente que sons estavam a produzir”, relata o investigador português.

Segundo o comunicado, foi possível detetar que os animais emitem “dois tipos distintos de sons curtos e repetidos, semelhantes a ‘grunhidos’, que diferem na duração, frequência e ritmo”. Os sons, acrescenta-se, eram “frequentemente acompanhados pela abertura das grandes barbatanas peitorais”. “Eles estavam claramente a fazer o som em reação à presença do predador”, acrescenta Manuel Vieira. “Fazem estes sons e estas demonstrações comportamentais com as barbatanas possivelmente para alertar outros peixes, mas se calhar até para se defenderem de alguma forma.”

Os autores acreditam que esta capacidade está presente desde cedo nas crias de peixe falso-voador, já que os sons e movimentos foram captados em indivíduos juvenis com menos de dez centímetros.

Os investigadores notam que esta descoberta reforça a ideia de que, ao contrário da perceção generalizada, o mundo subaquático não é um espaço silencioso. “Esta ideia, profundamente enraizada na cultura popular, está longe da realidade”, enquadra por sua vez a professora Clara Amorim. “Em muitos locais, o ambiente subaquático é vibrante, complexo e ruidoso — uma verdadeira sinfonia natural. Divulgar esta diversidade ajuda a aproximar as pessoas do oceano, a despertar curiosidade e a promover uma relação mais consciente com o ambiente marinho.”

Afinal, várias espécies presentes em Portugal produzem som. É o caso do xarroco, cuja contagem de sons cresceu para sete desde que começou a ser estudado por Manuel Vieira. “Por exemplo, o xarroco produz um som a que nós chamamos sirenes para atrair as fêmeas e fazer com que entrem nos ninhos para colocar os ovos. Tem também um som que associamos muito a situações de stress, que produz quando é apanhado e que os próprios pescadores reconhecem”, continua. Entre peixes, a forma como o som é produzido difere de espécie para espécie. Se o xarroco e o peixe falso-voador recorrem a músculos “junto às bexigas natatórias, o cavalo-marinho produz estalidos com movimentos dos ossos do crânio”, explica o investigador.

Na análise dos sons do peixe falso-voador, foi empregue Inteligência Artificial, ferramenta que também é usada por Manuel Vieira para acompanhar a evolução da corvinata-real, uma espécie invasora, no estuário do Tejo. “Já temos quase dez anos de gravações contínuas e a única maneira de as analisarmos é através da IA”, adianta. “No estuário do Tejo, temos três espécies dominantes de acústicos. O xarroco, a corvina e a corvinata-real.” Estas duas últimas espécies fazem sons muito semelhantes, pelo que o trabalho começou por distinguir cada uma. “No estudo que estamos a fazer, vimos como ao longo destes dez anos a presença dessa espécie invasora aumentou. Em 2019 houve de repente um boom e tornou-se uma espécie dominante em termos acústicos”, relata.

As conclusões foram publicadas na Journal of Zoology, uma influente revista científica nas áreas da biologia e zoologia. Participaram no estudo especialistas do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE), da Rede de Investigação Aquática (ARNET) e do Centro de Ecologia, evolução e Alterações Climáticas/Change – Instituto para as Alterações Globais e Sustentabilidade (ce3c) em parceria com as universidades de Zagreb e Veneza.