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Entre a revisitação e a novidade: os novos caminhos da poesia publicada em Portugal

Se 2025 arrancou com a reedição dos “Cantos de Maldoror”, de Isadore Ducasse, 2026 começa com Georg Trakl, Durs Grünbein e Juana Bignozzi, a poesia e a moral, entre dois anos de mudança na História.

Joana Emídio Marques
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Para quê poetas em tempo de indigência? — perguntava-se Hölderlin, no século XVIII. Esta aporia, em torno da qual muitos divagam entre o niilismo e a utopia, talvez seja afinal pouco relevante, pois a (boa) poesia nunca se deixa capturar em visões totalizantes. Ela é, por natureza, meândrica e incapturável, mesmo quando as sociedades humanas e as circunstâncias históricas se tentam enganar a si mesmas, cobrindo-a de palavras, classificações, ideologias e modas mercantis. E se a pergunta de Hölderlin continua a ser repetida três séculos depois, é porque muitos aspiram a ter o poder de demiurgos.

Durante — pelo menos — a última década, a poesia publicada entre nós (tanto a portuguesa como a internacional) tem procurado responder às questões que ganharam relevância social, como as identidades sexuais e de género, a nostalgia que atacou os poetas que chegaram à meia-idade a olhar para a juventude perdida, ou as supostas subjetividades femininas, que continuam a ser apenas aquilo que os editores (na sua maioria homens) deixam que sejam. Exceção feita à edição, pela Relógio D’Água, das obras de Louise Glück, ou às de Anne Carson pelas Não Edições, e ao talento original e único de Andreia C., talvez a única voz poética verdadeiramente original que sobrará desta década cheia de teratologias.

Aqui será necessário lembrar aos leitores que, em Portugal, se publica mais poesia do que aquela que chega aos media, até porque, quando todos os estudos apontam para um forte declínio das competências de leitura e quando a linguagem literária é cada vez mais eco da linguagem da publicidade e do marketing, a poesia é a primeira a ser posta de parte e trocada por livros de citações ou por frases lamentosas ao melhor estilo da autoajuda. Muita da poesia sai em editoras periféricas, em tiragens curtas, e é destinada a alguns felizardos com suficiente capital cultural para a reconhecerem entre a barbárie das livrarias.

2025 para continuar a descobrir

Ora é precisamente dessas fendas obscuras que são editoras como a Maldoror, a VS, a Saguão, as Não Edições, a Língua Morta ou a Cutelo que tem saído alguma da melhor poesia traduzida dos últimos anos e que nos indica que nem todos renunciaram ao seu papel de testemunhas críticas deste tempo, esse papel que Primo Levi ou Ernst Jünger reivindicavam como o grande, e talvez único, sentido da existência. Assim, vale a pena olhar para algumas obras que saíram ao longo de 2025 e que, não sendo iogurtes com prazo de validade, ainda aguardam por ser descobertas.

Lautréamont: a poesia como exorcismo

A beleza tenebrosa e boshiana de Os Cantos de Maldoror, que Isidore Ducasse (1846-1870) assinou como Conde de Lautréaumont e que no seu horror e crueldade voltaram para nós uns olhos proféticos que souberam ver o caráter latente do Mal humano, saíram em janeiro de 2025, pela Maldoror, com ilustrações de Magritte, uma edição sofisticada, que mereceu zero atenção dos média. Ducasse morreu incógnito, talvez no cerco de Paris, em 1870, e dele não há sequer uma imagem, o que não ajuda à promoção. Depois há que assinalar um certo pendor do politicamente correto que confunde condescendência e emotividade com o Bem e a descrição do Mal como um apelo ao mesmo. Deste caldo nasce uma literatura e uma poesia infantil, larvar num tempo que, cada vez mais, exige mais realismo e menos idealismo.

Ducasse, que despontou na mesma geração de Verlaine, Rimbaud, Mallarmé, mas só seria verdadeiramente amado pelos surrealistas, deixa-nos nestes Cantos a visão de um mundo animalizado, sádico, desprovido de sentido moral, levando até ao absurdo a vontade de desmascaramento da sociedade humana. Jorge de Sena, comparou esta obra aos monstros saídos da mente de Hieronimus Bosh.

A reedição deste livro “maldito” marca um momento de viragem para o abismo que convoca a poesia a abandonar a melomania egóica, as identidades em busca de personalidade e os carpidos de quem esconde a falta de talento em versos breves e fragmentos a chorar a própria sombra.

Enrique Lihn: contra a linguagem domesticada

Do ano que terminou há menos de dois meses vale ainda a pena chamar a atenção para a estreia de Enrique Lihn (1929-1988), um dos maiores poetas chilenos do século XX,  com a antologia Língua de Víbora numa edição conjunta Língua Morta/Maldoror. Lihn, que foi também dramaturgo, ensaísta e artista plástico, contemporâneo de Nicanor Parra e Alejandro Jodorowsky, atravessou o encanto e o desencanto da revolução cubana, viveu a ditadura de Pinochet, tem uma poesia marcada por uma forte desconfiança em relação à linguagem, à identidade e ao panfletarismo.

A sua posição política manifesta-se na linguagem e na forma como retrata a crise do homem moderno na sua existência urbana. É uma poética da negatividade, usando uma ironia corrosiva e um auto-questionamento constante, a recusa do lirismo e da emotividade e tematiza a falência da poesia, criando uma narrativa anti-heróica feita de homens derrotados e sem redenção. Desaparecido em 1988, continua a ser uma das vozes mais importantes da consciência crítica da poesia moderna face à ideia da felicidade como motor da existência individual e social.

Aimé Cesaire: o poeta da negretitude

Diário de um Regresso ao País Natal, de Aimé Césaire (1913–2008), poeta, político e fundador do Movimento da Negritude, com a chancela da VS, é mais do que um longo poema sobre o regresso à ilha da Martinica. Considerado um dos textos fundadores da literatura pós-colonial francesa, revela a forte influência do surrealismo, de autores como Rimbaud ou Lautréamont, cujas poéticas da rutura e do excesso influenciaram a imagética de Césaire e lhe servem para confrontar a língua francesa e acentuar a tragédia de os descendentes de escravos não terem outra língua para contar a sua história senão a do colonizador.

É uma poética do choque, mas também telúrica, marcada por enumerações violentas, ruturas sintáticas e uma oralidade encantatória, embora opaca. Em Aimé Césaire, o poema nunca é um espaço de evasão, mas um lugar de combate simbólico e político, um ato de restituição histórica e de insurreição, o que faz dele um autor que, à semelhança de James Baldwin, se afirma mais forte do que as forças que o comprimem.

Anne Carson: a arte de questionar os imortais

Anne Carson (1950–), poeta, tradutora, classicista, crítica literária e ensaísta — nome maior da poesia contemporânea de língua inglesa, que todos os anos reaparece como finalista do Prémio Nobel — tem vindo a ser publicada pela Não Edições. Em 2025, saiu Agualisa, uma obra de 1995 que nasce nos cruzamentos entre géneros literários, línguas, experimentalismos e tradições, convocando os mitos e as suas figuras nodais da cultura Ocidental: Eros e Tânatos, desejo e perda, linguagem e silêncio, tradução e conhecimento. A sua poesia interroga os limites da linguagem, em especial da linguagem poética.

Profundamente influenciada por autores antigos como Ésquilo, Eurípides, Homero ou Píndaro, e por modernos como Kafka, Ezra Pound, Gertrude Stein ou Samuel Beckett, Anne Carson cria uma poesia dialógica, onde o passado é reescrito para responder às questões individuais e coletivas do presente. Cultora do fragmento, não por falta de fôlego, mas por virtuosismo, Carson faz das elipses uma abertura fértil para o arquivo, a memória dos textos, dos autores mortos e a ruína dos corpos. A sua poesia intersecciona teoria, autobiografia e experimentação formal, o que faz dela um lugar não de contemplação, mas de pensamento crítico, tensão e transformação.

Primo Levi: o nosso dever de falar

No ano em que a barbárie em Gaza obrigou o mundo a enfrentar o facto de que a ordem nascida no pós-II Guerra Mundial acabou e que tudo o que parecia sólido se desfaz no ar, as edições do Saguão trouxeram-nos a poesia de Primo Levi (1913-1987), mais precisamente o livro de 1984, A Uma Hora Incerta, poucos anos antes da morte do autor. É uma coletânea de poemas autobiográficos, memorialísticos sobre a importância de uma vida enquanto testemunho único e insubstituível da condição humana.

Este conjunto de poemas evoca a violência extrema, a desumanização, que estão sempre prontas a aparecer sempre que a vigilância, a ética e a memória falham. Este livro convoca o leitor a reconhecer os sinais de retorno da barbárie e a assumir a responsabilidade moral diante da história. Na poesia como na prosa, Levi, é sóbrio e preciso, pratica uma forte economia do verbo e da emoção, ao mesmo tempo que  assume uma dimensão profética contra o conformismo e a neutralidade.

José António Almeida: corpos sagrados e profanos

Parecendo uma exceção a este conjunto de livros de forte e clara dimensão política, o novo livro de José António Almeida, é também político ainda que possa não parecer. Deste poeta que escreve muito e de quem se fala pouco ou nada, não obstante publicar desde os anos 90, podemos dizer que a sua poesia é atravessada por uma crítica às políticas do desejo e à forma como elas incutiram nas sociedades e nos seus artistas formas estagnadas de olhar e dizer.

José António Almeida foi um poeta da editora &etc e, nos últimos anos, tem publicado nas Não Edições os vários tomos de Metamorfoses, uma obra em curso que já conta com cinco livros, o último dos quais é Os Testículos de Homero. Exilado por vontade própria numa vila alentejana, não dá entrevistas e diz: não querer ser engavetado “no cacifo da literatura gay”.

Da poesia de Almeida, os mais apressados podem, de facto, arrumá-la como “homo-erótica”, ou não fossem os nomes também uma forma de aprisionar e encolher a força inominável de tudo o que tem vida. Ele revisita a tradição clássica e bíblica precisamente para a subverter através do tratamento explícito do homo-erotismo e do desejo homossexual que se coloca no eixo da sua experiência poética. Não apenas como um tópico narrativo ou estético, mas como uma posição ética central. O desejo homo-erótico aqui não é identidade sexual, é Numen, fonte do sagrado, do mistério, da força divina. Também a contrapelo de uma certa rima pobre muito cultivada entre nós, esta é uma poesia de alta densidade semântica, privilegiando o recorte estoico, a sugestão e a elipse sobre a emotividade: “As asas das abelhas em seu voo/brilham frágeis e sólidas no tempo/assim outras pirâmides egípcias/ — ou a graça do corpo visto agora:/vertical e brilhante, nessa duna/A flor seca dos ossos do homem velho (…)”

2026, o regresso dos velhos poetas para novos tempos sombrios

Há épocas em que a poesia deixa de ser ornamento e passa a ser necessidade histórica. Não como consolo, mas como lucidez. Em momentos de crise,  guerras, exílios, colapsos ideológicos, catástrofes morais, alguns poetas assumem um papel que vai além da escrita: tornam-se testemunhas ativas do seu tempo, vozes que intervêm no devir histórico ao recusar o silêncio, a neutralidade ou a evasão estética.

Juana Bignozzi, Benjamin Fondane, Durs Grünbein, Ilarie Voronca e Georg Trakl pertencem a tradições, línguas e épocas distintas, mas partilham um traço decisivo: escreveram a partir da fratura, entendendo a poesia como um gesto político no sentido mais profundo, uma forma de habitar criticamente a História.

A política da voz: Juana Bignozzi

Na poesia de Juana Bignozzi (1937-2015), poeta argentina que terá a sua primeira tradução em Portugal pelas Não Edições, a política não surge como slogan nem como proclamação ideológica, mas como posição ética da voz. A sua escrita, marcada pela clareza discursiva e pela recusa do lirismo ornamental, inscreve o sujeito poético numa trama de classe, memória e experiência histórica. A história dos mais pobres.

Em Se alguém tiver de ser depois, de 2010, o seu último livro, a pergunta pelo “depois que virá” não é apenas pessoal: é uma interrogação sobre quem continua a falar quando as utopias se esgotam. A sua poesia intervém ao afirmar que a linguagem ainda pode ser um espaço de responsabilidade, mesmo num mundo desiludido.

Catástrofe e resistência: Benjamin Fondane

Depois de em 2021 nos ter dado a conhecer o magnifico Benjamin Fondane (1898-1944) através da obra Ulisses, a VS traz-nos este ano Titanic como uma recusa da resignação. Em Titanic, o naufrágio do grande navio de luxo não é apenas metáfora da modernidade em colapso, mas denúncia do fracasso da razão Iluminista e das promessas civilizacionais europeias.

Escrevendo às portas da catástrofe histórica do século XX, que acabaria por vitimá-lo em Auschwitz, o judeu moldavo-romeno B. Fondane transforma o poema num lugar de resistência existencial. A sua poesia não propõe soluções: insiste em não apagar o grito, em preservar uma voz humana num mundo que se prepara para o extermínio.

A cidade como campo de batalha simbólico: Ilarie Voronca

Ilarie Voronca (1903-1946) outro judeu romeno, poeta das vanguardas europeias parisienses do inicio do século XX, tem a sua estreia em Portugal também na VS com o livro Ulisses na Cidade, onde a a poesia se faz política na reconfiguração do mito homérico. Em Ulisses na Cidade, o herói clássico é deslocado para o espaço urbano moderno, transformando-se num sujeito errante entre máquinas, multidões e linguagens fragmentadas (dadaísmo, futurismo).

A cidade surge como território ambíguo de promessa e alienação. Voronca participa do debate histórico do seu tempo ao reinventar as formas poéticas, acreditando que mudar a linguagem é também intervir na realidade.

Pensar o presente com os escombros do passado: Durs Grünbein

Na poesia do alemão Durs Grünbein (1962-), a intervenção política assume a forma da reflexão crítica sobre a memória europeia. Zündkerzen, que sairá na Saguão com o título Velas de ignição, o poeta observa o presente à luz de ruínas históricas que vão da antiguidade clássica ao século XX e interroga a condição humana num mundo tecnológico, pós-ideológico e saturado de informação.

A sua poesia, que já conhecíamos desde Aos Queridos Mortos, publicado em 2004 pela extinta Angelus Novus, não grita, mas acende faíscas: pequenos choques de pensamento que recusam a amnésia cultural e insistem na responsabilidade histórica do sujeito contemporâneo.

A poesia diante do abismo: Georg Trakl

A Assírio & Alvim juntamente com o tradutor e germanista João Barrento surpreendem pela sua aposta na obra completa do grande poeta do expressionismo alemão, Georg Trakl (1887-1914), toxicodependente, incestuoso e suicida que nos traduziu o grande silêncio dos alvores da 1.ª Guerra Mundial.

Em Trakl, a dimensão política é inseparável da experiência do colapso. A sua poesia expressionista, cromática e onírica é atravessada pela guerra, pela decadência e pela dissolução do sujeito, não propõe resistência organizada, mas oferece algo talvez mais radical: uma linguagem capaz de dizer o horror sem o estetizar. Em poemas como Grodek, a guerra aparece despida de heroísmo, como pura devastação humana. Trakl intervém ao mostrar o custo espiritual da História, expondo a crueza da guerra que os discursos oficiais tentam ocultar sob a falácia do heroísmo. Crepúsculo de Outono é o título de uma obra que acena com o fundo do abismo e nos lembra que que o poeta, para o ser, tem que descer lá onde o seu dizer seja mais do que um mero falar.

Testemunho do indizível

O que une todos estes poetas não é uma ideologia comum, mas uma convicção partilhada: a poesia não é exterior ao seu tempo. Cada um, à sua maneira, assume que escrever é tomar posição  seja através da memória, da denúncia, da reinvenção formal ou do testemunho do indizível.

Em tempos sombrios, quando a História parece acelerar em direção ao desastre ou à indiferença, estes poetas lembram que a linguagem ainda pode ser um espaço de consciência, resistência e participação. Não oferecem salvação, mas oferecem algo essencial: a recusa de aceitar o mundo tal como ele se apresenta. E isso, em si, já é um gesto político urgente.