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(A) :: Um mundo às avessas

Um mundo às avessas

A realidade contemporânea impõe uma reflexão inquietante. Permitimos que o mundo se tornasse uma distopia enraizada. A transcendência foi substituída pelo excesso; a fraternidade, pela exclusão.

Pedro Martins da Silva
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Utopia, apesar de ser referido pelo autor como nome de uma ilha, significa literalmente “nenhures”, um lugar que não existe. O termo remete para uma “realidade irreal”, construída precisamente para denunciar a ilegitimidade do mundo tal como ele se apresenta. Estes nomes de construção neológica cumprem uma função crítica: revelar um mundo às avessas.

Thomas More, autor de Utopia (1516), recorre ao relato imaginado de Rafael Hitlodeu para denunciar os problemas sociais e políticos da Inglaterra Tudor, sob o reinado de Henrique VIII. Critica a desproporção do sistema penal, que punia pequenos furtos com a morte; a precarização dos camponeses causada pelo movimento dos enclosures (“cercados”), que transformou terras comunais em propriedade privada, expulsando milhares para as cidades e criando uma massa de mão de obra barata para a Revolução Industrial; a falta de lisura do clero e o maquiavelismo dos monarcas, obcecados por guerras de conquista e acumulação de riqueza em detrimento do bem comum.

O Livro I apresenta esse ambiente negativo como uma tese: uma crítica severa a uma sociedade marcada pela injustiça social, pela má distribuição da propriedade e por leis que protegem os poderosos. O Livro II funciona como antítese: descreve uma sociedade alternativa, organizada racionalmente, onde a propriedade é comum, o trabalho é regulado e o bem coletivo prevalece sobre o interesse individual. Contudo, essa idealização é deliberadamente tensionada pela sua própria ficcionalidade. More não propõe um modelo político imitável, mas um instrumento crítico. A sua utopia só poderia funcionar mediante a abolição da propriedade privada — condição que ele  sabia ser impraticável.

Diplomata e humanista, More não era um fanático religioso empenhado em instaurar o paraíso na terra. Pelo contrário, separava claramente a cidade dos homens, a ser aperfeiçoada pela razão e pela lei, da cidade de Deus, que pertence à eternidade. A política não era, para ele, um meio de forçar a vinda do Messias, mas um dever ético de organização social. A síntese é deixada ao leitor: um deslocamento do olhar que revela que a ordem vigente não é natural nem inevitável. A Utopia funciona, assim, como um espelho moral que revela as contradições do presente e abre o horizonte possível para uma transformação ética da vida social.

Esta integridade custar-lhe-ia a vida. Recusando submeter a consciência à autoridade absoluta do Estado, More preferiu a morte à lealdade a um rei que, rompendo com a Igreja Católica Romana, após o Papa Clemente VII recusar a anulação do seu casamento com Catarina de Aragão, assumiu o título de Chefe Supremo da Igreja de Inglaterra, separada da Igreja Católica Romana, num processo de rutura motivada mais por poder político e sucessão do que por convicção teológica protestante. Com efeito, Henrique VIII não era, inicialmente, adepto das ideias de Martinho Lutero (Reforma Protestante). Na verdade, o Papa até lhe tinha dado o título de “Defensor da Fé” por ele ter escrito contra o protestantismo. A separação aconteceu por motivos práticos e pessoais, a questão da sucessão, pois Henrique precisava de um herdeiro masculino para garantir a estabilidade da dinastia Tudor, a sua esposa, Catarina de Aragão, não lhe tinha dado um filho homem, e ele queria anular o casamento para casar com Ana Bolena. E o poder Político: o Papa recusou a anulação (em parte por pressão do Imperador Carlos V, sobrinho de Catarina) e Henrique percebeu que, enquanto a Igreja estivesse ligada a Roma, ele nunca teria a última palavra no seu próprio reino.

Condenado por alta traição, More, foi executado em 1535. Tornou-se mártir da liberdade da consciência cristã perante o poder político sendo canonizado em 1935, exatamente 400 anos após o seu martírio e, mais tarde, foi declarado padroeiro dos estadistas pelo Papa João Paulo II.

A estrutura dialética de Utopia oferece uma chave hermenêutica para a leitura teológica das bem-aventuranças [Mt 5,3-12; Lc 6,20-23]. Tal como a sociedade utópica não se apresenta como um programa político realizável, mas como instrumento formativo da consciência, também as bem-aventuranças não se reduzem a um código moral nem a uma promessa futura isolada. A sua leitura plena é cristológica: elas são simultaneamente autorretrato de Cristo e forma do discipulado.

Proclamadas num contexto de dominação romana, estratificação social e expectativa messiânica, as bem-aventuranças surgem como antítese teológica a um mundo estruturado segundo a lógica do poder e da retribuição. Felizes são os pobres, os mansos, os perseguidos — não por romantização do sofrimento, mas porque neles se manifesta uma nova lógica da ação de Deus na história.

O Reino de Deus não se impõe pela força, mas pela comunhão; não se constrói pela acumulação, mas pelo dom. Jesus não propõe fuga nem revolta armada, mas metanoia: uma conversão interior capaz de gerar uma humanidade nova. O Reino não é um lugar, mas um estado do ser.

A síntese é vivida no presente: mesmo sob dominação, o discípulo pode habitar a liberdade interior da paz e da misericórdia. Mesmo sob o domínio romano (tese) e aspirando à glória prometida (antítese), ele pode viver a síntese da paz e da misericórdia no presente. A utopia vivida no coração, a convicção de que o “Reino” não é um lugar geográfico, mas um estado de espírito onde a ética do amor substitui a lógica do poder, tornando o indivíduo livre de qualquer opressão externa, pois ele já habita uma realidade superior.

Contudo, a realidade contemporânea impõe uma reflexão inquietante. Permitimos que o mundo se tornasse uma distopia enraizada. A transcendência foi substituída pelo excesso; a fraternidade, pela exclusão. Quando a riqueza ultrapassa qualquer medida ética, gera uma patologia da alma: a crença de estar acima da condição humana o que se pode traduzir em distopias de isolamento , lugares como a “ilha dos horrores de Epstein” ou os “safáris humanos” de “snipers voluntários” e pagando para o serem, representando a tentativa de criar um mundo sem o “Outro”. Se o Reino de Deus propõe a comunhão, estas elites buscam a secessão. Querem habitar uma realidade ontologicamente diferente, onde as leis morais e sociais não se aplicam. É a “humanidade transfigurada” invertida em “monstruosidade desfigurada”.

A proposta de Jesus nunca foi evasão, mas invasão da eternidade no tempo. Viver segundo a lógica do fim último é agir hoje como se o amor e a dignidade fossem as únicas moedas válidas. Um “mundo às avessas” só se mantém enquanto acreditarmos que ele é inevitável. Não é. O destino do homem é a fraternidade.

Talvez por isso, sinais comecem a surgir. Reproduz-se, da imprensa, o que é dito acerca da intervenção do artista porto-riquenho Bad Bunny no intervalo da Super Bowl, perante os setenta mil espectadores presentes e para todo o mundo pela televisão: The only thing more powerful than hate is love” (“a única coisa mais poderosa que o ódio é o amor”). No final, o resultado foi o esperado: uma atuação poderosa, uma produção ao nível da popularidade global que o artista conquistou e uma manifestação política contundente.

Não é ingenuidade. É resistência escatológica.

Apoio bibliográfico
Almeida, N. M. (2017). Busca do Sentido da Vida e Reconciliação Cristã. Roma: Universidade Pontificia Salesiana.
Balthasar, H. U. (2012). Inferno ou Paraiso – o que podemos esperar? Lisboa: Universidade Católica Editora.
More, T. (2016 (16ª Edição)). A Utopia. Lisboa: Edição BABEL.
XVI, P. Bento (2011). Jesus de Nazaré (Parte II – Da Entrada em Jerusalém até à Ressurreição). Cascais: PRINCÍPIA.