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Aproximação aos EUA ou manutenção das alianças? Kim Jong-un mantém "tradição" de jogar com a Rússia e a China

O 9.º Congresso do Partido realiza-se no fim de fevereiro, onde será decidida a linha de política externa. Trump quer negociações, mas Kim, com alianças aprofundadas, não tem motivos para aceitar.

Madalena Moreira
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No final de fevereiro de 2019, Donald Trump e Kim Jong-un reuniram-se em Hanoi, no Vietname, para uma cimeira de dois dias. Antes de o segundo dia de reuniões ter chegado ao fim, o encontro foi dado como terminado, sem ter sido alcançado nenhum acordo. Passados sete anos, Trump voltou à Casa Branca, com intenções de reatar o contacto com o seu homólogo norte-coreano. Contudo, desde o último encontro muito mudou na ordem global.

Foi neste contexto em mudança que, há cinco anos, o regime de Pyongyang, conhecido por ser um dos mais isolados do mundo, definiu uma nova linha de política externa e se aproximou — ainda mais — da China e da Rússia. Com a consolidação destas alianças, a República Popular Democrática da Coreia (RPDC, o nome oficial da Coreia do Norte) conseguiu alcançar o maior crescimento económico em quase uma década e recuperar de uma profunda crise provocada pela pandemia.

O ajustar da política externa da RPDC foi definido no 8.º Congresso do Partido dos Trabalhadores da Coreia, o partido maioritário — e que controla os restantes partidos-satélite — e ao qual pertence Kim Jong-un. Este mês, as centenas de delegados do Congresso voltam a reunir-se pela nona vez na História do país. Com o regresso de Donald Trump e do seu desejo de negociações, as atenções viram-se para Pyongyang, na busca por uma resposta que poderá ser definida no “órgão supremo de liderança” do Partido. Até aqui, a resposta a Washington foi o silêncio: desde novembro que o regime norte-coreano não emite qualquer declaração de alto nível focada na política externa.

Especialistas ouvidos pelo Observador recusam uma expectativa que tem vindo a ser alimentada de que o Congresso pode terminar com uma aproximação de Pyongyang a Washington e argumentam que a cimeira falhada de Hanoi ainda pesa na memória. “A Coreia do Norte aprendeu desde a primeira administração Trump que os EUA estão focados na desnuclearização e não no levantamento das sanções, que é aquilo em que a Coreia do Norte está interessada”, afirma ao Observador Edward Goldring, cientista político na Faculdade de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Melbourne. Passados sete anos, o foco da Casa Branca mantém-se inalterado e ambas as partes querem evitar “uma nova humilhação”, considera Jaewoo Choo, professor na Universidade Kyung Hee, especialista nas relações entre a China, a Coreia do Norte e os Estados Unidos.

Mais provável do que uma aproximação aos Estados Unidos é que o 9.º Congresso venha consolidar a linha que foi implementada há cinco anos, de uma relação trilateral com Moscovo e Pequim. “A Coreia do Norte tem uma longa história de jogar um jogo duplo com a China e a Rússia para [seu] benefício. As ações de Kim Jong-un parecem continuar esta tradição”, pondera o professor Goldring. Porém, isto também significa que, independentemente das conclusões do Congresso, a evolução da relação de Pyongyang com Washington irá depender da evolução das relações dos seus aliados com os Estados Unidos.

O “órgão supremo de liderança” que pode definir inimigos e permite perceber as prioridades de Kim Jong-un

Na base aérea de Mirim, a sudeste de Pyongyang, centenas de soldados alinham-se em formações militares. As imagens foram obtidas através de imagens de satélite comerciais, no início de fevereiro, e identificadas por grupos de analistas especializados no país como ensaios para o 9.º Congresso do Partido dos Trabalhadores da Coreia. A realização do Congresso já era esperada para o início de 2026, dada a regularidade do evento e as imagens de satélite, mas este domingo a agência noticiosa estatal KCNA confirmou que o Congresso irá acontecer no “final de fevereiro”, numa data acordada pelo comité político do Partido durante uma reunião no sábado.

O primeiro congresso, no verão de 1946, serviu para firmar os primeiros estatutos do Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte e eleger o primeiro Comité Central, que tinha como vice-presidente, Kim Il-sung. Poucos anos depois, o Partido mudaria de nome para passar a ser o Partido dos Trabalhadores da Coreia, que se mantém até hoje, e Kim chegaria a secretário-geral do Partido e Presidente da RPDC.

Foi sob a sua liderança que se realizaram os cinco Congressos posteriores. No sexto, em 1980, Kim Il-sung anunciou Kim Jong-il como o seu sucessor. Porém, durante toda a sua liderança, Kim Jong-il nunca convocou o Congresso. Só passados 36 anos, quando Kim Jong-un já herdara a liderança do Partido — e do regime de Pyongyang — é que o Congresso se voltou a reunir. A mais recente revisão dos estatutos, em 2021, definiu o Congresso como o “órgão supremo de liderança” do Partido e decidiu que este se deveria reunir a cada cinco anos.

Esses mesmos estatutos, citados pelo programa do think tank norte-americano Stimson Center dedicado à Coreia do Norte, definem que o órgão é responsável pela sua revisão, bem como pelas linhas políticas do Partido e pela eleição do Comité Central e do secretário-geral. O atual plano quinquenal, aprovado em 2021, foca-se, a nível interno, no arsenal nuclear e na sua integração nas Forças Armadas e numa diversificação do arsenal hipersónico, que se traduziu numa aposta nos sistemas de satélite e submarinos nucleares de Pyongyang. De um modo geral, o plano procura ainda a estabilização da economia nacional.

No entanto, o encontro deste mês será particularmente relevante para avaliar a evolução da política externa, destaca Jaewoo Choo. A título de exemplo, o professor levanta uma questão concreta: irá o Partido integrar nos seus estatutos o “conceito de dois Estados adversários”? Em janeiro de 2024, a meio caminho entre dois Congressos, Kim Jong-un fez uma declaração formal da Coreia do Sul como “um Estado hostil”. Chegado o Congresso, esta declaração pode agora tornar-se numa linha oficial de política externa.

Apesar da importância dada pelo regime — especialmente sob a liderança de Kim Jong-un — ao Congresso, a Coreia do Norte continua, ainda assim, a ser “uma ditadura personalista em que o processo de tomada de decisão gira em torno de um só homem”, considera Edward Goldring. “O Congresso pode dar-nos uma janela sobre o nível de consolidação de poder de Kim Jong-un e a direção futura da política externa, mas não haverá um debate substancial que terá lugar no Congresso”, elabora ao Observador. Mas mesmo neste cenário, o Congresso irá ajudar a levantar o véu sobre as prioridades de Kim para os próximos cinco anos.

A aliança com Pequim acima da vontade de negociar com Washington

“Eu estaria disponível para [uma reunião], a 100%. Dei-me muito bem com ele, com Kim Jong-un.” Esta intenção do Presidente norte-americano, expressada no final do ano passado durante uma viagem pela Ásia, não é nova. Pelo contrário, é herdada da sua primeira administração e já foi foi reafirmada em vários momentos desde que regressou à Casa Branca. Agora, Donald Trump encontrou sintonia no seu homólogo sul-coreano, Lee Jae-myung. Depois de uma crise política e de uma eleição presidencial antecipada, o novo Presidente disponibilizou-se para “fazer tudo o que for possível para apoiar diálogos entre os EUA e a Coreia do Norte” — uma posição muito mais suave do que a agressividade com que o seu antecessor, Yoon Suk-yeol, enfrentou Pyongyang.

A abertura norte-americana para o diálogo coincidiu com uma reabertura dos canais humanitários de apoio à Coreia do Norte através das Nações Unidas. A decisão ainda não foi formalizada, mas teve o aval dos Estados Unidos, necessário para desbloquear o projeto no Comité de Sanções do Conselho de Segurança das Nações Unidas, segundo avançaram fontes norte-americanas e sul-coreanas à imprensa internacional.  Washington tinha cancelado a entrega de ajuda humanitária ao país citando o facto de estar a ser desviada, mas organizações de ajuda humanitária fizeram soar alertas, depois de grupos russos terem começado a realizar o trabalho que até aí estava a cargo da ONU.

Já no final do ano passado, a administração norte-americana tinha-se mostrado particularmente tolerante com o regime de Pyongyang. Pelo menos, foi assim que foi interpretada a Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, onde a Coreia do Norte não surge mencionada uma única vez. Para além dos especialistas, também a imprensa japonesa próxima de Kim destacou a ausência da RPDC no documento que define a política externa de Washington. No entanto, um olhar atento sobre a estratégia norte-americana expõe alguma dissonância.

A China, com 21 menções, é definida como o principal adversário dos Estados Unidos. Ora, a China é também o principal aliado da Coreia do Norte. Esta parceria é particularmente visível na dimensão económica — Pequim é simultaneamente o principal importador e exportador de Pyongyang —, mas, ao longo dos últimos anos, Kim também fez uma aproximação mais clara a Xi Jinping. O exemplo mais evidente, apontam os especialistas, foi a presença do líder norte-coreano nas celebrações do 80.º Dia da Vitória na China, uma rara aparição pública ao lado dos seus principais parceiros.

"A não ser que os Estados Unidos mostrem uma disponibilidade para mudar as suas prioridades, a Coreia Norte não verá motivos para abrir negociações."
Edward Goldring, cientista político na Faculdade de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Melbourne

Tendo em conta esta relação tão estreita entre Pequim e Pyongyang, a relação da Coreia do Norte com os Estados Unidos parece passar inevitavelmente por Pequim. De tal forma que alguns analistas apontam como a próxima visita de Trump à Ásia, especificamente à China — que deverá acontecer na primeira semana de abril — poderá servir também para um encontro com Kim Jong-un. Os especialistas ouvidos pelo Observador discordam que um encontro esteja para breve — atualmente Pyongyang tem mais a ganhar em manter-se próximo dos aliados tradicionais que, no caso da China, sustentam a sua economia do que em negociar com os Estados Unidos, que continuam focados numa discussão sobre desnuclearização e não sobre levantamento de sanções — uma linha vermelha para Pyongyang.

“A não ser que os Estados Unidos mostrem uma disponibilidade para mudar as suas prioridades, a Coreia Norte não verá motivos para abrir negociações”, avalia Edward Goldring. Ou seja, o regresso à mesa das negociações precisa de ter resultados tangíveis, de preferência no campo económico. Porém, Jaewoo Choo admite um cenário hipotético em que a Coreia do Norte escolhe afastar-se de uma China que procura o isolamento. Neste segundo cenário, Pyongyang pode escolher “abrir-se ao mundo como fez antes do eclodir da segunda crise nuclear em 2002″. Porém, Jaewoo Choo reconhece que a origem do problema é também um obstáculo a esta solução: à data, a Coreia do Norte não dependia economicamente da China como hoje.

Guerra na Ucrânia. A condicionante que pode levar Kim a aproximar-se de Trump

No verão de 2024, Vladimir Putin visitou a Coreia do Norte. Foi aí que, ao lado do homólogo norte-coreano, assinou o Tratado de Parceria Estratégica entre os dois países. Poucos meses depois, os primeiros soldados norte-coreanos chegaram a Kursk, para apoiar as tropas russas na região onde a Ucrânia começara uma contra invasão. Mais de um ano depois, os soldados de Pyongyang não são apenas “carne para canhão” como quando chegaram à Europa.

A primeira vaga de soldados já regressou da Ucrânia e dedica-se agora à formação de novos soldados, com a rara experiência que adquiriu no terreno. No seu lugar, ficam na Ucrânia soldados com novas tarefas: agora, os norte-coreanos operam drones de vigilância e artilharia e especializaram-se em desminagem, segundo um relatório dos serviços secretos ucranianos, publicado na semana passada e citado pelo Wall Street Journal.

Apesar de a aliança entre Pyongyang e Moscovo ser antiga, a assinatura do Tratado aprofundou-a com múltiplos benefícios para o regime de Kim Jong-un, mesmo com o país envolvido numa guerra. Em troca, Vladimir Putin enviou pagamentos, bens (que vão de alimentação a combustível) e tecnologia militar de ponta, incluindo sistemas de defesa, o que também contribuiu para a recuperação económica da Coreia do Norte. Neste cenário, trabalhar para o fim da guerra na Ucrânia significaria perdas económicas para Pyongyang e o regime não dá qualquer indicação de estar disposto a fazê-lo.

“[A abertura da Coreia para negociar] vai depender das negociações de paz que estão a decorrer entre a Rússia e a Ucrânia. Até [haver um acordo de paz] Pyongyang não tem interesse em negociar com Washington“, argumenta Jaewoo Choo. Na direção contrária, por estes mesmos motivos, o eventual fim da guerra na Europa irá ter repercussões na Coreia do Norte. Nesse momento, o professor acredita que haverá uma janela de oportunidade para Pyongyang negociar com os Estados Unidos, pois “o fim da guerra significará uma melhoria nas relações entre Washington e Moscovo”.

Tal como no caso da China, em que uma aproximação de Pequim aos Estados Unidos pode beneficiar Pyongyang, o mesmo acontece se Vladimir Putin conseguir aproximar-se de Donald Trump ao cumprir o seu desejo de pôr fim à guerra na Ucrânia.

A abertura da Coreia do Norte aos Estados Unidos depende, portanto, de duas grandes condições: a sua relação com Pequim e com Moscovo. E nenhuma destas realidades se vai alterar até ao final do mês, quando o Partido dos Trabalhadores da Coreia se reunir em Congresso. Até a guerra na Ucrânia acabar e enquanto a competição económica entre Pequim e Washington continuar, Pyongyang vai jogar na aposta mais segura, acreditam os especialistas: “solidificar a sua relação trilateral”.