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(A) :: A polis e o meu jardim com quiosque e esplanada

A polis e o meu jardim com quiosque e esplanada

Feitas as contas, não sendo o jardim, nas suas contradições e tensões, tão distante assim daquilo que nós mesmos somos, é bem fácil reconhecermo-lo como coisa própria nossa.

António Maria Mello e Castro
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Uma polis alegre é aquela que acolhe espaços ajardinados em cada bairro, ou seja, que oferece indiscriminadamente aos seus cidadãos-habitantes a possibilidade de os visitarem no fim de uma caminhada tranquila com a duração-limite de um quarto de hora a partir de casa: esta definição, caro leitor, não tem nada de científico e preciso. De facto, é tão só derivada da impressão, pessoal e só aparentemente quantificável, de um alfacinha que gosta de passear pela cidade. Vale o que vale, mas de qualquer modo sublinha o lugar que ocupam, na minha visão, esses espaços verdes: são recantos, com ou sem quiosque e esplanada, que têm o poder de transformar qualitativamente a nossa vida, tanta vez rotineira e excessivamente comodista.

O jardim é importante para o cidadão que eu sou, e sei que estou bem acompanhado nesta minha ideia: com a sua maneira de estar feita de simplicidade e de tranquila beleza, ele ajuda-nos despretenciosamente a digerir as ´cobras e lagartos` do nosso dia-a-dia, que aliás e sub-repticiamente, também o visitam em versão física e não-metafórica.

O meu jardim faz-me muita companhia. Como todos os seus pares, este também não é perfeito: quando chegam os tempos quentes- hoje mais tórridos e duradouros-, até a brisa do vento nos parece queimar. E também não é agradável a sensação que se tem quando faz frio: é verdade que, sem a bica cheia bem quentinha do quiosque, seria ainda mais agreste, mas em qualquer caso, a vontade-que chega a assumir, em determinadas ocasiões extremas, certos laivos de rebeldia- de ali permanecer sobrepõe-se as mais das vezes a esses episódicos contratempos.

Para aqueles que gosto de chamar ´visitantes-residentes`, aquela área disponibiliza uma realidade multiforme e colorida, e todos se sentem transportados para um universo que acorda, em cada um deles, uma fibra de sempre renovado lirismo ou, inclusive, de transcendência, que transforma o lugar num maravilhoso e excecional condomínio: todos são bem-vindos e convidados a fazer dele parte, sem por isso se verem obrigados a uma participação financeira mensal ou anual. A única despesa será a que decorrer do eventual consumo que venha a realizar nessa altura.

Naturalmente, impõem-se tacitamente umas quantas regras básicas em relação a tais visitas, e são estas que vão mantendo aqueles mini-povoados guarnecidos com plantas e árvores diversas, como lugares deveras agradáveis e recomendáveis. São elas:

a) Que todos os que trazem consigo os seus cães- de estimação, os tenham à trela, calados e obedientes, e no que respeita a certas raças mais irrequietas, que os seus focinhos sejam cobertos com uns adequados açaimes.
b) Que, nas conversas à mesa, ou entre as mesas, se evitem os falares com excessiva sonoridade: os jardins não são salas de bingo, onde todos os presentes têm de conhecer o número sorteado, ou, neste específico contexto, as estórias domésticas das pessoas sentadas na mesa 1.
c) Não obstante os cuidados a ter assinalados na precedente alínea, não é interdito, longe disso! , que se criem pontes de aproximação entre mesas vizinhas, com ou sem junção das ditas: a convivialidade é um dos traços fundamentais desta comunidade, amante confessa da boa conversa.

No fundo, o que interessa salientar, é que em tal ajuntamento de homens e mulheres, promove-se e recria-se uma forte empatia entre os seus membros, que vai de mão dada com a aceitação curiosa de novos e eventuais aspirantes e candidatos, desde que se venha a confirmar que nenhum deles é um mero ´paraquedista acidental`: aqui preza-se muito a fidelidade.

Ser-se cidadão a-tempo-inteiro implica necessariamente conhecer esses como-que-oásis plantados no meio de florestas de betão e aço onde nós vivemos e trabalhamos : trata-se de um saudável e indispensável arejamento, e de tal maneira assim é, que aquela realidade é transposta, num notável esforço de osmose, para alguns nichos floridos “singapurenses” inventados e incrustados algures no interior ou exterior de imponentes e impressionantes edifícios-torres, mas às quais falta a respiração e a alma.

A natureza, mesmo a domesticada como nos jardins, surge no horizonte como um complemento incontornável do nosso viver coletivo: muitos de nós habituámo-nos a ter vasos de plantas na varanda dos nossos apartamentos, ou pendurados das janelas. Muito antes da chegada à cena, com pompa e circunstância, dos arquitetos paisagistas e dos prédios extravagantes e espetaculares, já se praticava esse ritual um pouco por toda a parte: era também uma forma de anunciar a alegria desses proprietários ou inquilinos. Era- e é-o ainda, o jardim caseiro de cada um.

Releio o que atrás escrevi, e dou-me conta de que estarei porventura a transmitir, até aqui, uma ideia demasiadamente romântica desses espaços de intervalo e passeio, de descontração e encontro. Ao putativo leitor, peço a sua paciência: que me leia igualmente nas linhas que se seguem. Os jardins, repito-o com convicção, são verdadeiramente todo o bom e o bem que antes lhes atribuí; mas também acolhem criminosos, que aí encontram a serenidade de que necessitam para esboçarem o próximo golpe, ou passadores de droga e contrabandistas vestidos de preto que, meio-escondidos pela folhagem do envolvente arvoredo, buscam convencer os passantes a adquirirem, nas melhores condições, o produto que lhes convém.

Sem esquecer ainda um outro tipo de ameaça que pende sobre todos os presentes, sem distinção de origem, idade ou profissão:  é dos dejetos vindos do alto, proveniente de um qualquer pombo ou pomba, que fazem pumba! ao aterrarem, que agora falo. Isto sem falar das atrevidas e hostis arremetidas dessas aves columbófilas – que nos costumáramos, recuando ao dilúvio e à pomba com um ramo de fresca oliveira no bico, a considerar positivamente como agentes de vida- sobre as nossas mesas e, em especial, sobre as migalhas de croissants que restaram nos brancos pratinhos de plástico que se não partem se caírem no chão.

Talvez porque, afinal e feitas as contas, o jardim não é, nas suas contradições e tensões, tão distante assim daquilo que nós mesmos somos, é bem fácil reconhecermo-lo como coisa própria nossa: o que eu tenho em mente, quando nele penso, não é algo que substitui o dia-a-dia concreto e palpável  por qualquer coisa de mágico e abstrato, mas antes viver as mesmas 24 horas com uma visão retemperadora que acrescento alegremente ao olhar – ou não-olhar – que lanço sobre aquilo com que , de uma forma geral, me confronto fora dele. Neste meu jardim, eu não ignoro tudo o resto: elevo-o , isso sim, a um outro plano, relativizando, com claríssima vantagem e alívio, os normais percalços do meu quotidiano.

É essa a razão que me leva a aconselhar todos os meus amigos e gente próxima, a que cada um busque sem demora- se não o fez já – o seu próprio jardim. Com, ou sem quiosque e esplanada. O meu, recordo, está sempre disponível, pela simples razão de a todos pertencer.