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Enfermagem e Multiculturalidade: o preço da inação 

O ensino de enfermagem, a investigação e a organização dos  serviços de saúde precisam de alinhar-se com a realidade multicultural  existente.

Sandy Severino
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As transformações demográficas que atravessam a sociedade portuguesa,  marcadas pelo envelhecimento acelerado da população, pelo aumento de  padrões de dependência e pela crescente diversidade cultural, colocam  desafios profundos à organização dos cuidados de saúde. Apesar disso, a  resposta continua, em grande medida, assente em modelos uniformes,  pensados para contextos culturalmente homogéneos, que já não correspondem  à realidade concreta das pessoas que cuidam e são cuidadas.

Os enfermeiros estão no centro da resposta, mas atuam frequentemente com  instrumentos conceptuais e operacionais que não acompanham esta nova  realidade. A questão é simples: como se cuida com qualidade numa sociedade  que deixou de ser culturalmente homogénea, quando os modelos de  intervenção permanecem formatados para essa homogeneidade?

Neste contexto, a cultura continua a ser encarada como detalhe quando, na  verdade, é determinante, uma vez que influencia a forma como as pessoas  atribuem significados à doença, comunicam, cuidam e legitimam o apoio que  recebem. Ignorar esta dimensão compromete a eficácia dos cuidados e traduz se em resultados clínicos mais frágeis, utilização ineficiente de recursos e  maior pressão sobre um sistema já sobrecarregado. A evidência científica tem  vindo a demonstrar, de forma consistente, que o cuidado culturalmente  incongruente falha nos seus objetivos fundamentais.

Com populações envelhecidas e migrantes, este princípio deixou de ser um  conceito debatido para se tornar uma necessidade urgente de aplicação  prática. A resistência em adaptar práticas traduz-se em sobrecarga para  cuidadores informais, especialmente quando são eles próprios migrantes e enfrentam barreiras linguísticas, contextuais e simbólicas. Estes cuidadores  representam uma parte significativa de cuidados domiciliários em Portugal,  geralmente sem formação ou literacia em saúde adequadas.

O país depende, assim, dos cuidadores informais, mas continua a tratá-los  como uma extensão natural da família, em vez de agentes de autocuidado com  necessidades próprias. A ausência de capacitação ajustada ao seu contexto  aumenta o risco de erros, reinternamentos evitáveis e desgaste físico e  emocional, com impactos diretos na sustentabilidade do sistema de cuidados.

Apesar deste cenário, a resposta institucional continua a privilegiar abordagens  padronizadas, centradas nos profissionais e assentes no pressuposto de que  todos os destinatários partilham referências, formas de aprendizagem e  significados semelhantes sobre saúde e doença. Esta lógica ignora que não  existe autocuidado eficaz sem capacitação adequada e que essa capacitação  exige compreensão do contexto cultural e da experiência concreta de quem  cuida.

O mesmo padrão repete-se no domínio da saúde digital. Embora  frequentemente apresentadas como soluções inclusivas, muitas intervenções  digitais desconsideram fatores determinantes como a língua, literacia digital e  adequação cultural dos conteúdos, transformando ferramentas com potencial  de apoio em novas formas de exclusão.

A competência cultural deve, por isso, ser entendida como um requisito de  qualidade, segurança e equidade nos cuidados, e não como um complemento  opcional. O ensino de enfermagem, a investigação e a organização dos  serviços de saúde precisam de alinhar-se com a realidade multicultural  existente, reconhecendo os cuidadores informais como parceiros de cuidado e  capacitando-os de forma ajustada ao seu contexto de vida.

A diversidade cultural associada ao envelhecimento e à dependência não é  uma exceção transitória, mas uma condição estrutural. Persistir em modelos  uniformes significa prolongar um erro que terá custos crescentes, humanos e  económicos, para o sistema de cuidados. Deste modo, a Enfermagem tem aqui  uma oportunidade estratégica, não como executora de tarefas, mas como  disciplina capaz de integrar transições, cultura, autocuidado e tecnologia numa  abordagem coerente e transformadora.