As transformações demográficas que atravessam a sociedade portuguesa, marcadas pelo envelhecimento acelerado da população, pelo aumento de padrões de dependência e pela crescente diversidade cultural, colocam desafios profundos à organização dos cuidados de saúde. Apesar disso, a resposta continua, em grande medida, assente em modelos uniformes, pensados para contextos culturalmente homogéneos, que já não correspondem à realidade concreta das pessoas que cuidam e são cuidadas.
Os enfermeiros estão no centro da resposta, mas atuam frequentemente com instrumentos conceptuais e operacionais que não acompanham esta nova realidade. A questão é simples: como se cuida com qualidade numa sociedade que deixou de ser culturalmente homogénea, quando os modelos de intervenção permanecem formatados para essa homogeneidade?
Neste contexto, a cultura continua a ser encarada como detalhe quando, na verdade, é determinante, uma vez que influencia a forma como as pessoas atribuem significados à doença, comunicam, cuidam e legitimam o apoio que recebem. Ignorar esta dimensão compromete a eficácia dos cuidados e traduz se em resultados clínicos mais frágeis, utilização ineficiente de recursos e maior pressão sobre um sistema já sobrecarregado. A evidência científica tem vindo a demonstrar, de forma consistente, que o cuidado culturalmente incongruente falha nos seus objetivos fundamentais.
Com populações envelhecidas e migrantes, este princípio deixou de ser um conceito debatido para se tornar uma necessidade urgente de aplicação prática. A resistência em adaptar práticas traduz-se em sobrecarga para cuidadores informais, especialmente quando são eles próprios migrantes e enfrentam barreiras linguísticas, contextuais e simbólicas. Estes cuidadores representam uma parte significativa de cuidados domiciliários em Portugal, geralmente sem formação ou literacia em saúde adequadas.
O país depende, assim, dos cuidadores informais, mas continua a tratá-los como uma extensão natural da família, em vez de agentes de autocuidado com necessidades próprias. A ausência de capacitação ajustada ao seu contexto aumenta o risco de erros, reinternamentos evitáveis e desgaste físico e emocional, com impactos diretos na sustentabilidade do sistema de cuidados.
Apesar deste cenário, a resposta institucional continua a privilegiar abordagens padronizadas, centradas nos profissionais e assentes no pressuposto de que todos os destinatários partilham referências, formas de aprendizagem e significados semelhantes sobre saúde e doença. Esta lógica ignora que não existe autocuidado eficaz sem capacitação adequada e que essa capacitação exige compreensão do contexto cultural e da experiência concreta de quem cuida.
O mesmo padrão repete-se no domínio da saúde digital. Embora frequentemente apresentadas como soluções inclusivas, muitas intervenções digitais desconsideram fatores determinantes como a língua, literacia digital e adequação cultural dos conteúdos, transformando ferramentas com potencial de apoio em novas formas de exclusão.
A competência cultural deve, por isso, ser entendida como um requisito de qualidade, segurança e equidade nos cuidados, e não como um complemento opcional. O ensino de enfermagem, a investigação e a organização dos serviços de saúde precisam de alinhar-se com a realidade multicultural existente, reconhecendo os cuidadores informais como parceiros de cuidado e capacitando-os de forma ajustada ao seu contexto de vida.
A diversidade cultural associada ao envelhecimento e à dependência não é uma exceção transitória, mas uma condição estrutural. Persistir em modelos uniformes significa prolongar um erro que terá custos crescentes, humanos e económicos, para o sistema de cuidados. Deste modo, a Enfermagem tem aqui uma oportunidade estratégica, não como executora de tarefas, mas como disciplina capaz de integrar transições, cultura, autocuidado e tecnologia numa abordagem coerente e transformadora.