Desde outubro passado, mês marcado pela esquecida tempestade Cláudia, que o sinal de alerta estava aceso na agência pública que gere a água. Já se anunciava a chegada da Ingrid, a primeira de um comboio rápido e quase sem paragens de sete tempestades, quando a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) decidiu baixar a cota limite de cheias da Aguieira. Passou de 117 metros para 115 metros para preparar a grande barragem do centro para o risco de inundações, o que implicou descargas preventivas e pequenas cheias controladas.
“Com esta medida evitámos as cheias centenárias em Coimbra. Estou convencido disso”, afirmou o presidente da APA, José Pimenta Machado, durante um balanço sobre a gestão das cheias em Portugal realizado esta quarta-feira.
Terá sido esta pequena folga que permitiu conter um pouco as descargas que caíam na bacia do Mondego — 1.700 metros cúbicos por segundo vinham do rio e da Aguieira, 600 metros cúbicos vinham do rio Alva (onde fica a barragem de Fronhas) e 1.000 metros cúbicos eram debitados pelo rio Ceira. Se estes 3.400 metros cúbicos por segundo chegassem a Coimbra, a cidade ficaria totalmente inundada, indicou o presidente da APA.
A Agência Portuguesa do Ambiente é a autoridade máxima da água e tem sob a sua responsabilidade 266 barragens. Todos as entidades que exploram estas infraestruturas são obrigadas a obedecer às suas orientações, desde as poderosas elétricas até aos regantes. Há situações pontuais de resistência, neste caso psicológica, como os regantes do Sado que, escaldados de décadas de seca, não queriam logo abrir as comportas para deixar a fugir a água que tanto tem faltado à agricultura da região. As cheias em Alcácer do Sal foram históricas.
A principal linha orientadora na gestão dos recursos hídricos é a de que as barragens devem cumprir as cotas de inverno, a um nível mais baixo, de forma a assegurar que têm poder de encaixe. Quando se aproxima o verão, precisamente quando começa haver menos água, a cota deve subir para assegurar que existem recursos para todos os usos. No cenário de risco de inundações, a APA provoca cheias controladas para evitar uma cheia descontrolada. Trata-se de reduzir o volume da albufeira para encaixar os picos de precipitação. Segundo dados divulgados esta quarta-feira, foram lançados 750 hectómetros cúbicos de água que equivale à quantidade que os portugueses consomem num ano.
A Aguieira encheu até aos 99% e, quando teve de libertar água, os diques não aguentaram porque o caudal ultrapassou o limite para o qual foram construídos, mas evitou-se a cheia centenária. Ainda assim, foi a maior desde a histórica inundação de 2001 no Baixo Mondego e já levou o Governo a acelerar a barragem de Girabolhos e a reavaliar todo o sistema de diques de proteção nesta área.
Girabolhos faria a diferença?
Considerando que as albufeiras da Aguieira e Fronha (rio Alba) não chegam para controlar caudais num cenário de eventos extremos, a ministra do Ambiente justificou a decisão do Governo de avançar já com a construção da barragem de Girabolhos. Mas até Maria da Graça Carvalho reconhece que a nova barragem poderia não ter tido suficiente para evitar o cenário vivido no Baixo Mondego.
A associação ambientalista Zero fez contas à chuva acumulada por metro quadrado entre 3 e 12 de fevereiro e concluiu que aplicando o valor à área da bacia hidrográfica “associada à famigerada barragem, estimada em 980 Km2 (menos de 15% do total da área da bacia hidrográfica do Mondego), obtém-se um volume potencial de cerca de 309,3 milhões de metros cúbicos de água, valor superior à capacidade total de encaixe da barragem, que é de 244,7 milhões de metros cúbicos (193 hm3 de Girabolhos + 51,7 hm3 no contra-embalse de Bogueira)”.
Para a ZERO, isto significa que, “num cenário idealizado de retenção total, que na realidade nunca ocorreria, a barragem poderia teoricamente encher em cerca de sete dias num cenário de precipitação semelhante”.
O baixo Mondego — com foco em Montemor-o-Velho, Soure e Coimbra, o vale do Tejo e Alcácer do Sal onde as cheias foram históricas numa das bacias mais afetadas pela seca, foram os casos com maior visibilidade, mas estas inundações tiveram uma dimensão nacional nunca vista. “Não me recordo de uma situação que tenha ido de Bragança a Faro. Foi todo o país”, disse o presidente da APA.
A bomba que fez a água virar de direção e ajudou a evitar cheias em Amarante
Na situação ímpar que o pais viveu, algumas coisas ajudaram a gerir a crise. E foi possível minimizar ou até evitar alguns impactos, segundo explicou o presidente da APA numa conversa com o Observador realizada antes das cheias terem atingido o pico na região do Mondego na semana passada.
Este ano foi posta à prova uma novidade no sistema hidroelétrico português que foi usada favor do controlo de cheias: o sistema de bombagem do complexo hidroelétrico do Alto Tâmega, a super barragem-bateria da Iberdrola que está em plena operação desde 2024.
De sábado para domingo (3 de fevereiro) quando chegou a quinta tempestade do ano, a depressão Leonardo, o Tâmega estava a receber muito caudal do lado espanhol que poderia atingir Amarante. Foi então usada a cascata do Tâmega, composta por três barragens em níveis distintos, duas no mesmo curso do rio — Alto Tâmega e Daivões e uma terceira a um nível mais elevado, Gouvães, com uma queda estática nominal de mais de 650 metros. As três estão ligadas através de um circuito hidráulico por onde a água é transportada através de um sistema de bombagem.

Concebido para potenciar o armazenamento — precioso em tempo de seca porque permite que a água que passa pelas turbinas, produzindo energia, seja elevada através de bombas para voltar gerar energia — o sistema foi usado para travar o caudal do rio. Ou seja, para limitar as descargas no rio Tâmega que estavam a ser efetuadas através de Daivões quando já estavam a ser descarregados 600 metros cúbicos por segundo.
Se abrisse o quarto grupo, a descarga atingiria os 800 metros cúbicos por segundo e podia alagar a baixa de Amarante, explicou ao Observador Pimenta Machado. As bombas foram ativadas e puxaram essa água de Daivões de volta para Gouvães, evitando a inundação na margem esquerda da cidade.
Como Espanha ajudou porque a maior barragem do Tejo estava apenas a 60% de capacidade
Outro dos fatores positivos destacado pelo presidente da APA foi a capacidade de encaixe que existia no início do ano do outro lado da fronteira. Alcântara, a maior barragem do Rio Tejo, estava a 60% e conseguiu encher 400 hectómetros. Foi fundamental para controlar as cheias no Tejo. Sem isso teria sido pior logo mais cedo. O presidente da APA garante que Espanha “esteve sempre connosco”, elogiando a excelente cooperação com o lado de lá da fronteira. Até que Alcântara, também gerida pela Iberdrola, atingiu os 96% e abriu as comportas para realizar grandes descargas. Foi no dia 4 de fevereiro.
Numa reunião de acompanhamento das cheias realizada na sede da Agência Portuguesa do Ambiente e seguida pela comunicação social, os responsáveis da APA e a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, subiram o tom de alerta. Quinta-feira (5 de fevereiro) ia ser o “dia mais difícil” e “complicado” na gestão das inundações. O prognóstico cumpriu-se e o Tejo e afluentes começaram a inundar as zonas mais baixas de várias povoações ribatejanas.

Apesar do cenário, nesta fase ainda houve outra “boa notícia” no controlo das cheias na região. O Zêzere é o mais importante afluente do Tejo (do lado de Portugal), um rio com muito caudal e que engrossa com a neve da Serra da Estrela onde nasce. Neste quadro, foi possível usar a cascata do Zêzere, as barragens do Cabril, a montante, e Castelo de Bode, a jusante, para controlar a situação porque tinham sido feitas descargas preventivas nos dias anteriores. Segundo Pimenta Machado, estas descargas tiveram como finalidade ganhar poder de encaixe para quando chegasse a água que estava a ser turbinada de Alcântara e Cedilho (do lado de Espanha).
Foi possível amortecer o caudal do Zêzere que corria na direção do Tejo e aliviar a pressão sobre afluentes destes dois rios nesta zona do Ribatejo, respetivamente o Nabão e o Almonda. O Sorraia, que entra na margem esquerda do Tejo, tem a maior bacia hidrográfica e é impactado diretamente pelas descargas das barragens de Montargil e Maranhão e também transbordou.
Mais a sul, foi o Guadiana que recebeu água da barragem e da ribeira de Chança (Espanha), o que obrigou o Alqueva a abrir as comportas. Fou o quarto ano da história do gigante da água em que isso aconteceu.
Outra que abriu as comportas foi a do Alto Lindoso, no Minho, uma das albufeiras com maior poder de encaixe e que há quatro anos era notícia por estar quase vazia.
Descargas arrastaram preço da eletricidade para menos de 1 euro por MW/hora
Não pode haver maior contraste. Há quatro anos, a APA e o Governo mandaram parar as turbinas em cinco barragens devido à falta de chuva. Foi uma situação inédita a norte do país, onde nunca tinha havido falta de chuva no pico do inverno.
Uma das barragens mais vazias era o Alto Lindoso, na fronteira com Espanha. A imposição de paragem estendeu-se a outras grandes hidroelétricas e fez subir ainda mais os preços da eletricidade já pressionados pela escalada do gás natural. Pelo contrário, as descargas para criar margem nas barragens levaram a um aumento da produção hidrolétrica, para além da fronteira da racionalidade económica. O comboio de tempestades trouxe para Portugal os preços grossistas mais baixos da Europa, vários dias abaixo de 1 euro por MW/hora.
A água vinda de Espanha deu alguma trégua no fim-de-semana que ficou marcado pela realização da segunda volta das Presidenciais. A tempestade Marta chegou no sábado, mas a chuva atingiu mais o litoral, o que é menos preocupante para quem tem de gerir as barragens, cujas albufeiras enchem a partir do interior e quando chove nas regiões montanhosas. A Marta e os efeitos das depressões que se seguiram, que trouxeram dias de seguidos chuva intensa e persistente, atingiram mais o centro e o norte e deslocaram as cheias mais graves para esta região, com o epicentro na zona do Mondego.
“Não passamos de amanhã”. Ordem para evacuar
O rebentamento de um dique num percurso de 100 quilómetros do sistema hidráulico do Mondego não foi uma surpresa. “Aconteceu como estava previsto” pelos modelos científicos usados pela APA. Com recurso a imagens de satélites e a computadores de grande potência, foi possível antecipar, explicou a ministra do Ambiente. Maria da Graça Carvalho, o rosto mais visível do Governo nesta crise, partilhou com o país inteiro o aviso que recebeu do presidente da APA no dia anterior. “Pimenta Machado ontem à tarde dizia: ‘não passamos de amanhã’. E avisou-me esta manhã: ‘venha que vai ser esta tarde'”.
“Sabíamos que se o caudal ultrapassasse o valor crítico havia probabilidade de rompimento de um dos diques de Coimbra até à Foz do Mondego”, disse a ministra do Ambiente há uma semana.

Já esta quarta-feira, durante o balanço realizado na sede da APA, Maria da Graça Carvalho recordou a reunião realizada com os autarcas a preparar essa evacuação, 24 horas antes do dique rebentar. A Aguieira (Mondego e Dão) e a Fronha no rio Alba estavam no limite e e havia previsão de mais chuva intensa nos dias seguintes (estava anunciada a tempestade Marta). A partir de Coimbra com o primeiro-ministro e o Presidente da República no epicentro da crise, era justificado o aviso dado aos municípios de Soure e Coimbra para evacuarem milhares de pessoas. O cenário que estava preparado há uma semana.
Apesar da brecha de dez metros que se abriu debaixo da autoestrada do norte, e que horas depois levou o aterro e a plataforma da autoestrada, não se verificou o efeito bomba que a autarca de Coimbra, Ana Abrunhosa, chegou a temer, mas o fluxo começou a espalhar-se pelos campos na direção de Montemor-o-Velho.
Em conferência de imprensa, a partir de Coimbra, o primeiro-ministro alertou para o risco de novos rompimentos. Mas foi a primeira rutura, por baixo do viaduto da A1, que gerou o maior dano. Poucas horas depois, uma secção da autoestrada colapsou devido ao arrastamento pelas águas do aterro onde estava assente.
O troço estava cortado numa decisão tomada em poucos minutos, aproveitando a presença do primeiro-ministro e do ministro das Infraestruturas. Foi uma “decisão que salvou muitas vidas. Poderia ter sido um desastre muito complicado se não tivéssemos cortado” a autoestrada. E “foi uma sorte estarmos todos juntos”, disse aos jornalistas a ministra do Ambiente e Energia. Maria da Graça Carvalho aponta ainda para as lições a tirar desta situação e para a necessidade de um modelo institucional para gerir este tipo de crises.
O maior incêndio que deixou a serra do Açor sem vegetação e um rio incontrolável
A gestão das barragens neste comboio de tempestades revelou-se muito complexa. Teve de incorporar e jogar com variáveis múltiplas, como as descargas em Espanha e o tempo que demoram a chegar a cada uma das estações em Portugal, as descargas em Portugal, o ciclo das marés e a capacidade (neste caso já inexistente) dos solos absorverem mais água. Foi também necessário estar atento ao comportamento dos afluentes nas grandes bacias hidrográficas. Nestas semanas foram dezenas os cursos de água, entre rios e ribeiras, que galgaram as margens.
E no meio de um sequência de fenómenos de chuva intensa, praticamente sem folga nas primeiras seis semanas do ano, houve outros fatores que contribuíram para minar a capacidade de resposta, em particular na região centro.

Os incêndios de agosto e setembro, que deixaram nuas de árvores e vegetação zonas montanhosas onde nascem rios, enfraqueceram muito a capacidade de retenção destes solos. Pimenta Machado destaca o grande incêndio de Arganil, o maior em área até agora em Portugal que atingiu a serra do Açor, onde nasce o rio Ceira, um dos mais importantes afluentes do Mondego, e também a encosta da Serra da Estrela onde nasce o rio Alva, outro afluente do Mondego e no qual fica a barragem de Fronhas.
Já em dezembro de 2019, quando se tinha registado a última cheia grave na região, os grandes incêndios de 2017 tinham sido apontado como um dos culpados.
Descrito como um rio “descontrolado” porque não tem qualquer barreira, o Ceira trouxe muitos detritos e resíduos resultantes dos incêndios do verão para o Mondego, contribuindo para a subida do nível do rio com mais do que água. Segundo o presidente da APA, este rio terá contribuído com 50% para as cheias vividas na região.
A tenaz formada pelo Ceira e pelas descargas da Aguieira levou a que fosse atingido o limite na quarta-feira passada. Não tendo sido possível aguentar mais, nem esperar pela maré baixa, as águas foram libertadas e elevaram o caudal do Mondego acima do ponto crítico, limite suportado pelos diques — os 2.000 metros cúbicos por segundo — provocando o primeiro rebentamento.
Outro “azar” no contexto destas cheias, foi algo que normalmente é recebido com grande alegria em Portugal — abundância de neve nas zonas montanhosas cujo degelo contribui para aumentar os caudais dos rios que nascem nesta zona e cujo impacto é, depois, sentido pelas populações do Baixo Mondego, mas também do Zêzere.