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(A) :: O dia um do mês zero. Seguro fez teletrabalho com autarcas, manteve pressão ao Governo e reuniu-se três horas e meia com Marcelo

O dia um do mês zero. Seguro fez teletrabalho com autarcas, manteve pressão ao Governo e reuniu-se três horas e meia com Marcelo

Autarcas ouvidos pelo Observador sensibilizados por Seguro lhes ter ligado logo nas primeiras horas. Marcelo esteve 3 horas e meia com o Presidente eleito a discutir a passagem de pastas.

Rui Pedro Antunes
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“Então, já conseguiu descansar?” Foi esta a primeira pergunta que o Presidente em funções fez ao Presidente eleito quando o foi receber à Sala das Bicas. Na verdade, António José Seguro mal parou, cumprindo o que tinha decretado na noite anterior: “Hoje celebramos, amanhã trabalhamos”. Logo pela manhã — em modo de teletrabalho a partir da sua casa, nas Caldas da Rainha — fez questão de ligar aos autarcas das localidades mais atingidas pelo temporal. Ainda não tomou posse e já iniciou a pressão ao Governo que tinha prometido: Seguro não dará descanso enquanto as populações não receberem os apoios estatais prometidos.

Enquanto Cavaco Silva demorou 10 dias até receber o sucessor em Belém, uma hora e 18 minutos depois de fecharem as urnas, o atual Chefe de Estado anunciava uma reunião com Seguro. Mas o futuro Presidente da República também não quis que fosse o incumbente a marcar a sua agenda mediática e acabou por contrariar a ideia de inércia que os adversários lhe atribuíram na campanha. O gabinete de Seguro, às 12h29 desta segunda-feira, indicava que “o Presidente eleito passou a manhã ao telefone com autarcas para saber da situação e do processo de recuperação, nomeadamente com os presidentes da câmara de Alcácer do Sal, Montemor-o-Velho, Pombal, Golegã, Leiria e Arruda dos Vinhos e o Presidente da junta de freguesia da Ereira (Montemor-o-velho) que permanece sem acesso terrestres.”

Aliás, nessa ronda com autarcas, “infelizmente” Seguro “tomou conhecimento de mais uma morte no concelho de Leiria, a 16ª vítima mortal”. O Presidente eleito acabou por manifestar “o seu pesar” e endereçar “condolências família da vítima” logo ao final da manhã, cerca de uma hora e meia antes de Marcelo Rebelo de Sousa — que costuma ser rápido a fazê-lo.

Com as chamadas para autarcas, Seguro consegue um três em um: mantém pressão sobre o Governo, aproxima-se de autarcas e populações e encontra um espaço de atuação no limbo pré-posse que vai durar precisamente um mês (entre 9 de fevereiro e 9 de março).

Autarcas rendidos a Seguro: em poucas horas já ligou mais do que Marcelo (e Montenegro)

O presidente da câmara de Arruda dos Vinhos, Carlos Alves, explicou ao Observador que ficou sensibilizado com a chamada de Seguro, uma vez que a conversa demonstrou que “se preocupa com a situação muito difícil que enfrentam as pessoas afetadas”. Esta, continua o autarca, é uma “chamada que dá alento e motivação“, garantindo que essa mensagem “está a ser e vai ser passada às populações que passou por uma situação muito frágil”.

O autarca eleito pelo PS revela ao Observador que Seguro prometeu, “na sua esfera de competências”, ajudar o concelho com o que “fosse necessário” para que a recuperação fosse mais rápida e os apoios chegassem mais depressa. Carlos Alves revela que nem Marcelo nem Montenegro lhe ligaram desde que ocorreu a tragédia e “António José Seguro não só o fez agora, como já o tinha feito previamente durante a campanha sem dizer nada a ninguém, sem o mediatizar”.

A presidente da câmara municipal de Alcácer do Sal, Clarisse Campos, também ficou sensibilizada pelo facto de António José Seguro “logo nestas primeiras horas se ter lembrado dos autarcas”. A autarca, também eleita pelo PS, mostrou-se sensibilizou o futuro Presidente para o facto de haver “muito por reconstruir e que vai ser necessária muita ajuda”. Do Presidente eleito Clarrisse Campos ouviu a garantia de que irá “ajudar no que fosse” dentro daquilo que são as suas “competências como Presidente da República”.

O presidente da junta de freguesia de Ereira, em Montemor-o-Velho também revelou de manhã que Seguro lhe ligou a agradecer “a forma como [a Ereira estava] a gerir esta situação [das cheias] e como proporcionámos que as eleições fossem feitas”. Algo que terá sensibilizado o candidato a Presidente.

Dois Presidentes, mais de três horas de reunião

António José Seguro fez questão, logo no discurso da vitória, de elogiar o legado do atual Presidente, bem como dos restantes antecessores. No domingo à noite, fez questão de dizer: “Cumprimento o atual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Sublinho o seu trabalho em prol do nosso país, bem como todos os anteriores presidentes, Cavaco Silva, Jorge Sampaio, Mário Soares e António Ramalho Eanes. Cada um, no seu tempo e no seu estilo, serviu o nosso país com devoção e compromisso com o interesse nacional e com a democracia.”

Marcelo Rebelo de Sousa, pelo seu lado, logo no domingo à noite “telefonou a António José Seguro para o felicitar pela sua vitória nas eleições presidenciais, desejando-lhe as maiores felicidades e êxitos”. Porém, com a subtileza que lhe é reconhecida, destacou que essas felicitações eram para “o mandato que os Portugueses lhe atribuíram e se iniciará dia 9 de março”. A informação de que é a 9 de março é redundante porque é a data fixa para a posse, mas esta foi uma forma do atual Presidente dizer que, até lá, é ele o chefe de Estado.

Marcelo prometeu ao mesmo tempo ainda “toda a disponibilidade para assegurar a transição institucional.” Logo aí foi combinada a reunião desta segunda-feira em Belém, que durou três horas e meia. A primeira reunião entre Marcelo e Cavaco Silva foi mais curta, mas, à conversa, juntou-se um almoço, pelo que o encontro em 2016 entre incumbente e sucessor também se prolongou por várias horas.

Seguro chegou sozinho, apenas com motorista e com o mesmo Volvo que utilizou durante toda a campanha. Não havendo assessores, a conversa ficará apenas entre os dois. Terão discutido assuntos importantes de Estado, que implicam a passagem de pasta. Seguro entrou apenas com um bloco, estilo Moleskine, onde pode ter tirado notas daquilo que disse o Presidente da República.

No final da reunião, Marcelo emitiu uma nota a dizer que o encontro “decorreu em ambiente muito cordial” é que “foram abordados assuntos de política nacional e internacional, que vão requerer a atenção prioritária do novo Presidente, bem como outros assuntos relativos à transição dos mandatos.”

Marcelo Rebelo de Sousa revelou ainda que “convidou depois o seu sucessor a uma visita no Palácio, as instalações onde exercerá funções a partir de 9 de março.”

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