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Há 30 anos, os Belle and Sebastian salvaram os românticos

Gradual e lentamente, o álbum "If You're Feeling Sinister" tornou-se uma espécie de manual clandestino para gente sensível de mais. Três décadas depois, João Bonifácio garante que nada mudou.

João Bonifácio
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Em alguns livros de Philip Roth há um truque subtil de tremenda eficácia: a ideia de que algures lá atrás as coisas eram pacíficas e ordenadas, inocentes e compreensíveis, que sabíamos como o mundo funcionava e tudo era simples. Este dispositivo – uma moldura emocional que condiciona a forma como lemos cada um desses romances – permitia que o que se seguia (a inevitável queda do protagonista) se tornasse ainda mais dramático, ainda mais violento.

A eficácia do mecanismo reside na fácil identificação do leitor com a ideia de que algures lá atrás as coisas eram pacíficas e ordenadas, inocentes e compreensíveis, que sabíamos como o mundo funcionava e tudo era simples. À medida que crescemos vamos sentindo mais e mais isso – e quando chegamos aos 50 anos pensamos que na nossa infância o mundo era um lugar habitável e potável, em vez da pocilga em que vivemos hoje (isto não é uma opinião pessoal, apenas o típico pensamento de alguém de uma certa idade).

A ideia assenta num erro óbvio: quando somos pequenos não temos de pagar hipotecas, sobreviver a divórcios, tirar a senha para a fila do desemprego. Os pais fazem-nos as refeições, vestem-nos – sabemos quem é a autoridade, a que horas comemos, a que horas temos de voltar a casa, a quanto tempo de TV temos direito; sabemos que não podemos comer bolachas antes do jantar e bolo, com sorte, só ao fim de semana.

https://open.spotify.com/intl-pt/album/4usPTyIIgnAZ9eiItfEYSK?si=Tqc2elJURzSUsdNk128dNQ

Mas, por mais que racionalmente reconheçamos a falácia da ideia de um paraíso perdido (que corresponderia à infância e à adolescência), torna-se muito difícil ceder à nostalgia à medida que envelhecemos – porque, factualmente, a vida é tremendamente dura e, chegados a uma certa idade, encontramos conforto naquilo que nos trouxe uma felicidade pura e simples, numa idade em que os dias não eram penosos.

Se o assunto for música, o paraíso perdido encontra-se, por norma, na adolescência – a idade em que estamos despertos a tudo e começamos a formar os nossos gostos e a ter paixões assolapadas por bandas, canções e discos, momento em que começamos a identificar-nos com quem gosta da mesma canção. Olhamos para uma banda e vemos refletidos nela alguns traços nossos – e passamos a assumir aquela banda como parte da nossa identidade.

Eu tinha 20 anos quando descobri If You’re Feeling Sinister, dos Belle and Sebastian, que agora faz 30, e não consigo evitar ter saudades daquele tempo. Quero acreditar que a proposta musical contida no álbum (uma espécie de indie-folk-pop de câmara, literata e sensível) ainda é válida, mas tenho plena consciência de que o tempo também anda por aqui a oxigenar-me os alvéolos da nostalgia.

https://www.youtube.com/watch?v=OOYjhXR2xQg

O meu caso resume-se a: rapaz tímido, que vestia casacos de malha e T-shirts às riscas e via cinema romeno, colecionava discos esquisitos e lia poesia de Kavafis – e que, obviamente, não arranjava namorada. Gostava de muita música, mas por norma a música que atrai a juventude é música alfa: grandes riffs, refrões poderosos; eu ouvia Nick Drake ou os Smiths e lia W. B. Yeats (desculpa, Stephen).

Foi nestas circunstâncias que If You’re Feeling Sinister entrou na minha vida – não como um objeto que se pousa numa prateleira e fica para ali a ganhar pó, não como um daqueles discos canónicos que se colocam à vista de todos, para afirmar o nosso bom gosto (como a estreia dos Velvet ou Astral Weeks, de Van Morrison).

If You’re Feeling Sinister instalou-se, sim, mas dentro de mim, como um sistema nervoso paralelo que ecoava e dava voz ao que eu sentia mas não tinha palavras para descrever. Gradual e lentamente tornou-se uma espécie de manual clandestino para gente sensível de mais, rapazes não muito musculados, raparigas com ganchinhos no cabelo, miudagem que passava demasiado tempo sem saber onde colocar as mãos e o que fazer com elas, isto quando não baixava a cabeça e olhava para os sapatos, perante a presença de outros seres humanos.

https://www.youtube.com/watch?v=FZS3JqxqY5o

A canção que me agarrou de imediato foi Me and the Major, um estranho exercício de indie-rock, com uma harmónica perfeita, que retrata as diferenças geracionais e de visão do mundo entre os mais velhos e alfas (o major) e os mais novos e não-alfas (o narrador). Se o indie-rock nunca foi sobre ser um macho clássico, muitas vezes é sobre ser profeta ou semi-estrela. Stuart Murdoch, principal compositor e vocalista da banda, não soava a nada disso – antes a um amigo que ficava a conversar connosco até às três da manhã, sem tentar impressionar-nos, só a estar.

Há música feita para conquistar estádios, mas If You’re Feeling Sinister foi criado para conquistar quartos pequenos, com posters tortos e livros empilhados no chão. Ouça-se Stars of Track and Field, a canção de abertura: primeiro é voz e guitarra e baixo, depois surge trompete, uma guitarra elétrica, violino, órgão Hammond, tudo lento, melancólico e pastoral: música que não nos diz para seres maior, mais forte, mais confiante, antes que se afirma nossa irmã: “Hey”, diz a canção, “eu sei que te sentes estranho, mas sabes que mais? Eu também sou. Vamos ser estranhos juntos.”

Uma grande parte da grandeza de If You’re Feeling Sinister é exatamente isso: o disco legitima uma identidade que até então parecia um erro de fabrico. Todos nós, que nos tornámos fãs, sentíamo-nos perdidos, rejeitados, os pais viam-nos como inúteis, as raparigas como infodíveis, os rapazes deixavam-nos para última opção quando se escolhiam os jogadores ao fazer as equipas de futebol.

https://www.youtube.com/watch?v=M8KXa8UcKtk

Se o rock é rebeldia, os Belle and Sebastian preferiam oferecer delicadeza (porque it takes guts to be gentle and kind). E aqui jaz o radicalismo dos Belle and Sebastian: no capitalismo, a delicadeza é um erro na matriz, um escolho a ser expurgado. Uma banda decidir que o seu traço essencial será a delicadeza é quase um ato político, um golpe de estado no reino dos alfas do rock.

Havia bastos exemplos dessa delicadeza: a maravilhosa Fox in the Snow, The Boy Done Wrong Again e aquele final perfeito, com “Judy and the dream of horses”. Nesses dias não havia internet, imaginem, mas aqui e ali íamos descobrindo que outros humanos também apreciavam estas canções. Não éramos uma multidão, mas uma constelação dispersa que lentamente se foi aproximando. Já não estávamos completamente sós.

(As raparigas que gostavam dos B&S não eram modelos de publicidade, antes miúdas com ganchinhos no cabelo, sabrinas, saias plissadas, camisolas demasiado grandes, olhos fixados num ponto distante na geografia dos sonhos melancólicos. A diferença que faz na vida de um rapaz conhecer uma moça que sabe de cor a letra de Get Me Away From Here, I’m Dying e a canta sem ironia.)

https://www.youtube.com/watch?v=Gzfsx3HkBTk

If You’re Feeling Sinister acabou por funcionar como uma espécie de palavra-passe, a banda sonora de reconhecimento mútuo dos míopes e magrinhos, dos que não pertenciam à roleta sexual, dos solitários e aspirantes a poetas. Claro que nenhum de nós se tornou extrovertido, nem passou a vestir de maneira diferente ou se tornou altamente popular. Simplesmente a solidão deixou de ser amarga.

A nostalgia é danada, porque recorda-nos o tempo em que descobrir uma banda era como descobrir uma família que não sabíamos que tínhamos. É voltar ao momento em que a nossa vida foi salva por uma canção, da forma mais simples possível: dizendo o que sentimos com palavras que desconhecíamos – e fazendo-nos encontrar outros, que não sabíamos que existiam, e que sentiam o mesmo.

Essa é a importância de If You’re Feeling Sinister: não é o clássico que toda a gente ama, é o clássico que salvou pessoas específicas, os rapazes de casacos de malha, as raparigas de ganchinhos no cabelo, os tímidos, os românticos, os que liam poesia. Isso não lhes rendeu nenhum disco de ouro ou platina. Acontece que ouro ou platina não valem um verso de If You’re Feeling Sinister.

Os Belle and Sebastian atuam ao vivo no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, a 21 de julho. Vão interpretar o álbum “If You’re Feeling Sinister” na íntegra.