O número recorde de votos em António José Seguro permite perceber, numa análise mais fina, quem são os eleitores do novo Presidente da República: olhando para os resultados deste domingo, em que se tornou o político português mais votado de sempre, a conclusão é a de que Seguro chega particularmente bem ao eleitorado feminino, aos mais velhos e aos mais escolarizados. Os números também trazem dados relevantes para os partidos e um aviso para a AD: apesar de a grande maioria do seu eleitorado ter escolhido Seguro, um quarto optou, desta vez, por votar em André Ventura.
Embora a comparação com o voto dos eleitores nas legislativas mereça algum “ceticismo” — uma vez que as eleições são diferentes e a memória das pessoas é “seletiva”, como avisa o investigador Pedro Magalhães ao comentar estes dados da projeção de ICS-ISCTE/Pitagórica/GfK (que partilhou na rede social X) —, há um dado a reter para a AD: 24% do seu eleitorado nas legislativas de 2025 optou por votar nestas presidenciais em Ventura, contra os apenas 6% do PS que fizeram o mesmo.
Sendo certo que ainda assim a esmagadora maioria dos eleitores da AD (68%) votou em Seguro, o dado pode ser relevante tendo em conta os muitos avisos que têm existido, incluindo à direita, sobre o perigo existencial para o PSD de ter eleitores a quebrarem a barreira psicológica de votar uma primeira vez em André Ventura. E de, a partir daí, poderem começar a transferir os seus votos para o Chega sem os pudores e reservas de outros tempos.
Na primeira volta, o eleitorado da AD já era o que se mostrava mais disperso. Nessa altura, 31% desses eleitores escolhiam Luís Marques Mendes, quase tantos como os que preferiam João Cotrim Figueiredo (27%) e André Ventura ainda ia buscar 8% — o que significa que desta vez conseguiu engordar a sua votação contra Seguro, mesmo falhando o objetivo declarado de superar a votação da AD (só conseguiu fazê-lo apenas em percentagem).
Luís Montenegro optou, na segunda volta e constatando a volatilidade do seu eleitorado — apenas um terço votou em Luís Marques Mendes, apesar do empenho de Montenegro na sua campanha, onde apareceu duas vezes, e do desfile de ministros que fizeram o mesmo —, por não declarar apoio nem a Seguro nem a Ventura: o espaço da AD não estaria assim representado, argumentou, e por isso o PSD oficial ficava de fora. No entanto, foram muitas as figuras relevantes do partido (incluindo o próprio Mendes) que assumiram que votariam Seguro.
Agora, Pedro Magalhães lança o alerta para a “muita atenção futura” que a AD terá de ter em relação aos 24% de eleitores que, talvez na lógica de preferirem escolher um candidato não-socialista, optaram por Ventura, que já tantas vezes proclamou a sua intenção de liderar a direita e ultrapassar o PSD. Dentro da AD, e possivelmente perante o mesmo dilema, 8% dos votantes das legislativas de 2025 optaram por votar branco ou nulo e não ter de escolher entre Seguro e Ventura.
Já quem tinha votado branco ou nulo na primeira volta voltou às urnas, na maioria dos casos (53%), para dar a vitória ao socialista. 27% foram desta vez dar força ao líder do Chega e 21% mantiveram a mesma opção, não votando em nenhum dos candidatos na segunda volta. Quem não tinha votado de todo saiu de casa sobretudo também para votar Seguro (59%), tendo Ventura convencido 36% a fazerem o mesmo. A abstenção, apesar dos muitos receios (sobretudo pelo mau tempo), manteve-se perto da que se registou na primeira (49,89% agora, 47,74% há três semanas). Mas, com a escolha reduzida a dois candidatos, os votos em branco subiram, de 1,06% para 3,17%.
Ventura conquista um terço dos eleitores de Cotrim
Olhando para os candidatos que os eleitores tinham escolhido na primeira volta e que deixaram de estar representados nesta segunda, a maior transferência de votos para André Ventura vem dos apoiantes de João Cotrim Figueiredo, uma vez que 29% escolheram desta vez o líder do Chega (e 58% Seguro), depois de vários dirigentes da IL terem assumido que votariam no socialista (o partido em si não declarou nenhum apoio oficial).
Uma das maiores polémicas da primeira volta tinha tido a ver com o facto de Cotrim, numa resposta da qual se arrependeria depois, não ter excluído aos jornalistas votar Ventura numa segunda volta. Diria depois que a escolha entre os dois candidatos que passaram à segunda volta seria “péssima”.
Olhando para o eleitorado dos restantes candidatos da primeira volta, Seguro e Ventura repetiram, sem surpresas, a quase totalidade das suas votações; Mendes, que apoiou Seguro, viu 77% dos seus eleitores a fazerem o mesmo (contra 15% que votaram Ventura e 9% em branco); e Gouveia e Melo, numa tendência semelhante, teve 75% dos seus eleitores a votarem em Seguro (o almirante declarou que faria o mesmo), ligeiramente mais do que Mendes a votarem Ventura (19%) e o resto em branco.
https://twitter.com/PCMagalhaes/status/2020821652464947499
Mulheres e mais velhos preferem Seguro
No que toca ao género dos eleitores, a tendência que a primeira volta já indicava confirma-se agora, ainda mais clara quando Seguro se opõe a Ventura. Isto é, se na primeira volta Seguro já era o candidato mais votado entre as mulheres, nesta segunda volta 75% das eleitoras escolheram o socialista e só 25% votaram em André Ventura. Apesar de Seguro também ter vencido entre os homens, a distância não é tanta: 63% dos eleitores votaram Seguro e 37% em Ventura, como indica a projeção feita à boca das urnas do ICS-ISCTE/Pitagórica e GfK.
Já na primeira volta o Observador escrevia que Seguro era o campeão do eleitorado feminino, conquistando a maior fatia (36%) dos votos das mulheres e a maior diferença fazendo às contas aos votos de homens e mulheres — e com Ventura acontecia o contrário, com uma vantagem maior nos votos dos homens do que nas mulheres (onde contava com 20% dos votos). Ventura continua a fazer pouco sucesso junto das eleitoras.
António José Seguro conseguiu ganhar a Ventura de forma global quando se olha para o nível de escolaridade dos eleitores, ou seja, ganhou em todos os segmentos. Mas a vitória é mais expressiva quando se olha para os mais escolarizados.
Ou seja, entre quem não completou o ensino secundário, Seguro consegue 65% dos votos e Ventura 35%; entre quem fez o secundário, o socialista baixa ligeiramente de votação para os 61% e Ventura chega aos 39%; mas a distância aumenta significativamente quando se olha para os eleitores com o ensino superior: Seguro esmaga com 78% dos votos, Ventura fica com apenas 22%. A correlação entre a menor instrução e o voto em Ventura já vem a verificar-se em várias eleições, incluindo legislativas, ao analisar o tipo de eleitor do Chega.
Refletindo também o que acontece no seu partido de origem, António José Seguro convence melhor o eleitorado mais velho, embora os resultados globais sejam muito semelhantes também aos resultados entre faixas mais jovens. Ou seja: entre os 18 e os 34 anos e entre os 35-64 anos não há diferença: Seguro consegue 65% dos votos, Ventura fica com 35%. Mas a distância acentua-se quando se analisam os votos de quem tem 65 ou mais anos: o novo Presidente convenceu 76% desses eleitores, enquanto 24% optaram por votar em Ventura.
No que toca à leitura do território nacional, Ventura conseguiu avançar no norte — tradicionalmente um território complicado para o Chega, sobretudo no Porto —, principalmente olhando para o interior, e chegou ao valor mais baixo em Coimbra, onde Seguro consegue 72% dos votos (e Ventura apenas 28%). O Algarve continua a ser a base mais forte para o Chega, tendo Ventura conseguido ali um resultado superior ao nacional, com 43,1% dos votos. Ainda assim, desta vez não venceu: Seguro teve 59,9% dos votos, quando a 18 de janeiro o líder do Chega tinha sido ali o candidato mais votado.
Os concelhos mais afetados pelas últimas tempestades, e que estão em estado de calamidade, tiveram a visita dos dois candidatos à Presidência da República (Ventura de forma mais aparatosa, com jornalistas presentes e a fazer duras críticas ao Governo; Seguro mais discreto, por vezes sem câmara e a fazer exigências para o futuro) e preferiram o socialista, que venceu em todos estes casos. Nas capitais de distrito afetadas, Seguro distanciou-se de Ventura (se em Aveiro conseguiu 71%, em Coimbra chegou a uns ainda mais esmagadores 79%; noutros concelhos, como Soure, Ovar, Castanheira de Pêra, Góis e Mealhada, Seguro superou os 70%; e houve mesmo autarquias em que atingiu ou se aproximou dos 75%, casos de Miranda do Corvo, Covilhã e Condeixa-a-Nova).
Como o Observador nota aqui, a tendência não é, de resto, apenas dos concelhos em calamidade: no país todo, Ventura só venceu em dois concelhos (Elvas, onde já tinha tido o seu melhor resultado — 33% — na primeira volta, e São Vicente, na Madeira, autarquia liderada pelo Chega). Perdeu assim 78 concelhos em relação à primeira volta — Seguro venceu em 293. Seguro venceu todos os distritos e nas duas regiões autónomas. Apesar destas más notícias, Ventura conseguiu superar todos os resultados do Chega, com mais 180 mil votos do que o partido nas suas melhores eleições (as legislativas de 2025).
Além disso, Ventura conseguiu ter mais de 40% dos votos em 72 concelhos (vários deles são os que foram mais afetados pelas tempestades) e em todos os da Madeira. E continua a crescer, embora mais lentamente, nas grandes áreas metropolitanas. Nem tudo foram más notícias para Ventura, mas os números mostram que Seguro se sagrou vencedor de forma incontestável.