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(A) :: "Ele e Ela": porque é que gostamos tanto de saber quem é que tem a culpa?

"Ele e Ela": porque é que gostamos tanto de saber quem é que tem a culpa?

Ele é Jack Halpert (Jon Bernthal), ela é Anne Andrews (Tessa Thompson). Ambos são protagonistas de uma história de sucesso na Netflix que não tem segredo nenhum, mas que não é nada fácil de fazer.

Susana Verde
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O sucesso das minisséries nos últimos anos tem-me enchido o bandulho e alimentado a minha compulsão de varrer uma uma série num só dia, sem prejuízo de maior para o meu já castigado ciclo circadiano (não sei se domino totalmente o significado deste conceito, mas achei que trazia elevação). A Netflix não é a única a ser useira e vezeira deste formato, mas dá-me ideia que é das plataformas mais prolíficas no género. Não será então de espantar que o o algoritmo me bombardeie com vídeos, artigos, rankings, newsletters e pombos-correio sobre séries com títulos como “Esta é a minissérie perfeita para começar 2026” ou “A nova minissérie da Netflix está a deixar os portugueses em pânico” ou “A Netflix parou para ver a nova minissérie que está a impactar!” ou “Se não vir a nova série da Netflix nas próximas 24 horas vai ser assolado por uma mão cheia de pragas do Egipto”.

Sim, estou a fazer uso do exagero, até porque as pragas são dez e dispenso aproximações de pombos, façam eles serviço postal ou não. Mas estes títulos sensacionalistas dão-me um certo ick, que é com quem diz um nojinho, pelo que já não é a primeira vez que deixo um título a marinar na minha lista, até me passar o ranço. E foi no que pareceu ser o milionésimo dia de chuva do ano da graça de 2026, apesar de ainda estarmos no início de fevereiro, que sucumbi. É que já estava ali, quase desde a data da estreia — 8 de Janeiro — a olhar para mim de cima para baixo, do topo da lista de séries mais vistas em Portugal na Netflix. Estou a falar de Ele & Ela, His & Hers no original. Devo dizer que o título em inglês me soa muito melhor, além de que a tradução leva a minha cabeça automaticamente para o Duo Ele e Ela, responsável por temas inesquecíveis como As minhas podas, O pincel do Ti Manel, Oh! Manel, Vem pra cima”.

Com poucos episódios — 6 — e uma duração muito contida, 40 e poucos minutos cada, para quem é aficionado da prática do binge watching isto é o chamado mel. Uma adaptação do livro homónimo da inglesa Alice Feeney, uma ex-jornalista e produtora da BBC que começou a escrever livros nas viagens de comboio para o trabalho e que, desde 2018, tem parido best-sellers como se não houvesse amanhã. É isto que separa as águas entre os que fazem a acontecer e os outros, não é? O que é que eu produzi na minha última viagem de comboio a Lisboa? Aviei três episódios do muito recomendável podcast de true crime Parecia tão boa pessoa da Maria João (não, não é a cantora de jazz) e da Paula Neves (sim, é a atriz). Não escrevi uma linha ao percorrer essa linha ferroviária, mas o Parecia-me tão boa pessoa deu-me uma excelente ponte para o que segue.

[O trailer de “Ele e Ela”:]

https://www.youtube.com/watch?v=8_szlvBLll0

Por um lado, Ele & Ela é um “whodunit” que arranca com aquilo que parece ser a revelação do culpado. Vemos um cadáver de mulher em cima de um carro e, de seguida, aquilo que parece ser uma mulher a desfazer-se dos sinais do seu envolvimento. O que, naturalmente, nos põe a pensar: “Será que não pode ser, porque é demasiado óbvio para ser o que parece ou parece exatamente aquilo que é?”. Já no que diz respeito a boas pessoas, é coisa que escasseia. Mesmo os melhorzinhos não têm telhados de vidro, têm arranha-céus inteiros. Pelo menos, esta é a minha versão. É assim que a narradora nos convida a entrar neste thriller: “Cada história tem pelo menos duas versões. A tua e a minha. A nossa a e a deles. A dele e a dela. Ou seja, há sempre alguém que mente”. E aqui há muita boa gente que levava quase tanta pimenta na língua como o Ventura no Polígrafo, protagonistas incluídos.

As versões que são o centro da trama pertencem à jornalista Anne Andrews (Tessa Thompson) e ao Inspetor Jack Halpert (Jon Bernthal). Anna, pivot de um canal de notícias em Atlanta, estava afastada do trabalho há um ano devido a uma tragédia pessoal, o que mereceu toda a empatia do chefe, mas não evitou que fosse substituída por uma pivot bombshell loura à la Fox News, Lexi Jones (Rebecca Rittenhouse). Há falta do banco alto atrás da secretária do jornal das oito, Anna vai à sua terra natal fazer a cobertura do potencial homicídio de uma mulher e escolhe o operador de câmara Richard Jones (Pablo Schreiber, para os fãs de Lei & Ordem: SVU será uma cara familiar) que, por coincidência, é casado com a recém-adquirida rival Lexi, que é como quem diz “sentaste-te no meu lugar, se calhar, vou-me sentar no teu marido”.

Do outro lado, temos o polícia responsável pela investigação, Jack Halpert, um homem que passa a vida a comer bananas, portanto, potássio não lhe falta. Já os níveis de humildade estão em carência, pela maneira como subalterniza a parceira Priya (Sunita Mani) e se auto-proclama o único capaz de resolver o crime. Dahlonega, onde aconteceu o crime, é um lugarejo onde toda a gente se conhece. Anna conhecia a morta, a morta conhecia o Jack, que por sua vez também conhece a Anna. Conhece-a até no sentido bíblico do termo, porque são casados. Mais do que estarem em trincheiras diferentes do crime, o detetive a perseguir o culpado, a jornalista a perseguir um furo jornalístico que lhe traga o lugar de volta, Anna e Jack são duas faces da moeda que é uma relação marcada pelo luto e, também aí, cada um tem a sua versão.

Há também uma relação de amizade na adolescência que une várias das peças deste xadrez e, como não podia deixar de ser, cada um recorda os eventos de maneira diferente. Vem-me um ditado brasileiro que aprecio deveras “Quem bate esquece, quem apanha não”. Ao longo da série, vamos oscilando sobre quem tem razão em quê, quem matou quem, quem merece que castigo ou absolvição, quem devia ter vergonha na cara, quem é digno de pena e quem merece que passemos pano. O que nos coloca como juiz supremo num julgamento sem consequência ou responsabilidade e sem sermos confrontados com os nossos próprios pecados, sentadinhos no sofá com uma manta pelas pernas. É ou não é entretenimento do bom?

Não sei se o livro é fantástico, mas a história é e está muito bem contada. Boa realização, bonita fotografia, uma cor mais ao género série britânica do que americana, pareceu-me. E uma banda sonora de um bom gosto impecável. A escolha de Wicked Game em determinado momento é cirúrgica e meio maquiavélica ao mesmo tempo, sucesso. Nunca tinha visto nada do criador William Oldroyd, mas já vi que realizou uma Lady Macbeth com a Florence Pugh e uma Eilleen com a Anne Hathaway e por esta amostra e por amar as duas, já foi para a minha lista.

Os atores vão todos muito bem, com alguns velhos conhecidos e outros nem tanto assim. Jon Bernthal (O Punisher da Marvel, o traficante Brad n’O Lobo de Wall Street, Mike, o fantasma omipresente em The Bear) está ótimo no seu Jack, um homem que se agarra ao caso, ao mesmo tempo que tenta não se afundar nele, mas está mais perdido que uma influencer quando o instagram vai abaixo. Faz merda, tenta consertar, aumenta o monte, cada vez cheira pior e assim sucessivamente. Já Tessa Thompson, lembro-me remotamente dela num punhado de episódios que vi de Westworld, série que abandonei bem prematuramente, mas desta feita a atriz vai ficar-me na memória. Além de ter um olhar que vai direito à moleirinha, de tão penetrante, Anna é a grande força motriz da história e a que mais baralha e desafia o certo e o errado. Uma interpretação feita de uma contenção à prova de bala, uma expressão que diz mais que muitas, muitas, muitas palavras.

Eu não sou super adepta de histórias à la Cluedo, se não me trouxerem mais do que o entretém de seguir as pistas e a gratificação de “Eu não disse que era ele/ela!” de quando em vez. Ele & Ela traz muito mais que isso. Anna a determinada altura desabafa: “Costumava pensar que as coisas más aconteciam por azar, que não havia nenhuma ordem, mas… Faria muita mais sentido que as coisas más acontecessem, porque nós mesmos as buscássemos de alguma forma. E quando te acontecem coisas más… tens o direito de fazer coisas más”. Algumas das personagens sofreram tragédias devastadoras e carregam traumas profundos. Se a malta do namasté diz que o universo é equilíbrio, será que mover-mo-nos a raiva e lixar a vida ao próximo para acertar as contas está a valer? O ressentimento e a vingança não podem ser o fiel da balança. Ou será que podem?

Não me alongo mais, porque estou a fugir ao spoiler como ao diabo da cruz e prometo que vai valer a pena. Fun fact: quando vão pesquisar o Facebook da vítima, vê-se uma foto dela nas Azenhas do Mar. Também dá um bom click-bait patriótico-parolo: “Adivinha qual é a maravilha de Portugal que brilha na minissérie que está nos tops da Netflix?”. Se fosse comigo, escreveria: “Não pode perder a minissérie da Netflix com um duplo plot twist tão surpreendente e satisfatório que até fui buscar o queixo às pantufas”. Gostei muito, muito, muito do final e para quem gosta de piruetas destas, aqui tem um prato cheio. Estou agora a pensar que podia ter começado por este argumento e só o fiz ao fim de quase 9000 caracteres. Se isto não é um faro comercial apuradíssimo? Nunca vou ser rica.