Se há conceito que desaparece a olhos vistos na política portuguesa é o de estadista. A palavra ainda existe, mas a figura – essa sim – está em vias de extinção. Portugal já não vê um Mário Soares há muito tempo. Esta ausência é notável na baixa qualidade dos debates políticos, que são preenchidos por ataques, os casos sem fim de incoerência cívica – sobretudo vindos de quem proclama combater a corrupção – e no quotidiano da Assembleia da República, que por influência, passou a ter bancadas cheias de membros de claques. O hemiciclo tornou-se um viveiro de periquitos, que gritam desalmadamente palavras vindas do “Dicionário do Palavrão e Outras Inconveniências”.
O comportamento de muitos deputados que ocupam a Assembleia da República é um dos maiores problemas que temos enfrentado na nossa democracia. Desrespeitar símbolos portugueses, chamar através de gestos elegantes e sedutores o Presidente da Assembleia da República, como se fosse um empregado de mesa, fazer números de comédia, gritar para as bancadas opostas como se se tratasse de uma discussão sobre futebol no Cantinho do António – não desvalorizando o futebol, nem o Cantinho do António, claro – ou, mais recentemente, mandar uma deputada “de volta para a sua terra”. A lista de episódios chega a ser caricata e tudo isto viola a maior base do debate político dentro e fora da casa da democracia: Respeitar os demais deputados e os titulares de órgãos da soberania.
Se o código de conduta da Assembleia da República se baseasse nestes comportamentos, teríamos então de atualizar o regulamento do Cantinho do António. Mas o problema vai além da má educação: é a incapacidade de cumprir o dever político. A partir do instante que o trabalho político se reduz a uma guerra tribal entre forças partidárias, a democracia entra num estado de barbárie. E uma democracia em estado de barbárie adoece – devagar, mas de forma fatal. O objetivo essencial do trabalho político, a satisfação das necessidades coletivas, evapora-se e dá lugar a confrontos de ego e à eterna competição por quem se proclama “O melhor partido para Portugal”.
Outra questão essencial é a forma como continuamos a desacreditar o processo olhando apenas para o resultado. E essa obsessão está presente em tudo: na educação, na saúde, no parlamento. Quando deparados com um problema, a primeira prioridade é encontrar alguém para atribuir as culpas – seja ao culpado ou ao inocente – antes de fazer qualquer juízo de valor. Só depois, muito depois, é que é pensado na forma como podemos resolver o problema, os passos que devemos seguir para a sua resolução e aprender com o erro feito.
Portugal erra muito – como todos os países. A diferença está na forma como tratamos o erro: uns aprendem, outros procuram culpados. É necessário inverter esta metodologia, e ao invés de acusar o culpado como primeiro passo, deve-se colocar o bem-estar da sociedade em primeiro lugar. Enquanto gastamos energia a atacar o responsável, o país fica preso a tentar atingir o mínimo — aquilo que já devia ter atingido há vinte anos. Não se trata apenas de uma carga fiscal demasiado alta, nem de uma burocracia que atrasa mundos e fundos, nem de falta de dinheiro. Trata-se da falta de um espírito estadista.
O ato estratégico de permanentemente tentar destruir o adversário é profundamente antidemocrático. E talvez devêssemos aprender com as pessoas do Cantinho do António, que discutem futebol com a paixão de sempre, mas sem abdicar do bom senso. A política não precisa de ser diferente. Talvez seja por aí que a mudança tenha de começar.