A terminar os seus cerca de 13 minutos de atuação, Bad Bunny exclamou para os 70 mil presentes no Levi’s Stadium em Santa Clara, na Califórnia, e aos muitos milhões a ver o pela televisão espetáculo de intervalo da 60ª Super Bowl a frase “God bless America”. Seria esta uma surpreendente demonstração de patriotismo e um piscar de olho a Donald Trump? O cantor porto-riquenho de 31 anos provou rapidamente que era o oposto, ao enumerar de seguida todos os países que compõem os continentes americanos, acompanhado de um batalhão de pessoas a carregar as respetivas bandeiras desses estados.
“Together, we are America” (“Juntos, somos a América”), leu-se na bola de futebol-americano que trazia consigo. Se dúvidas houvesse, o ecrã no topo do estádio foi ainda mais explícito: “The only thing more powerful than hate is love” (“a única coisa mais poderosa que o ódio é o amor”). No final, o resultado foi o esperado: uma atuação poderosa, uma produção ao nível da popularidade global que o artista conquistou e uma manifestação política contundente (e que pode ser vista aqui na íntegra).
Fossem estes tempos menos revoltos e a escolha de Bad Bunny para protagonizar o espetáculo de intervalo do Super Bowl teria causado pouco ou nenhum celeuma. Trata-se “apenas” do artista mais ouvido do mundo em 2025 no Spotify (o quinto mais ouvido nos EUA), à boleia de DeBÍ TIRAR MáS FOToS, o seu sexto álbum de estúdio, que venceu na semana anterior a este jogo o Grammy de Álbum do Ano e projetou-o para a estratosfera da pop e para uma digressão à escala planetária. Sendo este um dos momentos mais mediáticos do globo, há muito que a NFL escolhe as maiores estrelas que consegue para protagonizá-lo. Tinha-o sido assim no ano anterior, com a “victory lap” de Kendrick Lamar em Nova Orleães, tal como o fora desde 1991, quando os New Kids on the Block inauguraram a norma de ter grandes nomes em palco e não apenas espetáculos temáticos.
https://observador.pt/2025/02/10/intervalo-da-super-bowl-kendrick-lamar-no-centro-da-america-game-over-para-todos-os-outros-sobretudo-drake/
Todavia, estes são tempos conturbados, particularmente nos EUA, onde está em curso uma acirrada guerra identitária de cunho racial, étnico e cultural quanto ao que significa ser um cidadão do país, materializada na enorme campanha de deportação de imigrantes por parte do seu Serviço de Imigração e Alfândegas, conhecido como ICE. Neste contexto, de pouco valeria a Bad Bunny ser, de facto, um cidadão norte-americano, visto que Porto Rico é um território sob administração de Washington desde 1898: só o mero facto de ser o primeiro cantor de sempre a ter uma atuação maioritariamente em espanhol ou de tocar em géneros musicais como reggaeton e trap latino faria soar as críticas quanto à NFL ceder a políticas de diversidade ou ser “woke”.

A isto, todavia, juntou-se um caldo já bem apurado nos últimos anos. Sendo um artista sem papas na língua, Bad Bunny levantou ondas na sua estreia na televisão norte-americana em 2018, ao criticar a Administração Trump quanto à sua conduta desleixada perante os efeitos destrutivos do furacão Maria em Porto Rico. Foram-se somando tomadas de posição que desembocaram em DeBÍ TIRAR MáS FOToS, álbum que não só celebra a cultura da ilha caribenha, como reivindica a sua manutenção, melhoramento e que ele e os seus conterrâneos deixem de ser tratados como cidadãos de segunda categoria. Tal ficou demonstrado numa canção como Lo que le Pasó a Hawaii — contra a gentrificação e o desvirtuamento cultural — ou no videoclipe de NUEVAYoL, que não só apresenta a Estátua da Liberdade envolta numa bandeira porto-riquenha como inclui uma voz a imitar a de Trump que diz “quero pedir desculpas aos imigrantes na América… Este país não é nada sem os imigrantes”.
A gota de água junto dos conservadores americanos, porém, chegou quando se soube que Bad Bunny não ia levar a sua digressão pelo território continental dos EUA, preferindo organizar uma residência de 31 dias em Porto Rico. A justificação para tal, afirmou o artista à revista i-D, não foi por não gostar de atuar nos EUA, mas por temer que os agentes do ICE visassem especificamente os seus concertos e os seus espectadores maioritariamente latinos.
Foi por isso que, quando foi anunciado no final de setembro que a honra de atuar no Super Bowl recairia em Benito Antonio Martínez Ocasio, muito celebraram, mas a reação por parte de influencers e comentadores MAGA não se fez esperar, criticando a NFL pela sua escolha de um artista caracterizado como alguém que odeia Trump e que se recusa a cantar canções em inglês. A própria líder do Departamento de Segurança Nacional, Kristi Noem, prometeu que os agentes do ICE estariam “por todo o lado” no evento — o que, de resto, não se veio a verificar — e que a direção da NFL “não presta”.

Às críticas juntaram-se os pedidos de boicote, cuja principal manifestação esteve na organização de um evento paralelo organizado pela Turning Point USA, a organização conservadora fundada por Charlie Kirk. Apelidado “All-American Halftime Show”, contou com vários artistas próximos de Donald Trump, como Kid Rock. Já o presidente dos EUA, depois de ter-se tornado no primeiro chefe de Estado do país a ir assistir a um Super Bowl ao vivo no ano passado, fez saber que não compareceria desta vez, por decorrer “demasiado longe”. Não obstante, Trump também quis sublinhar que não aprovava a escolha de Bad Bunny ou de Green Day, que tocaram antes do jogo. “Sou anti-eles. Acho que é uma escolha terrível. Tudo o que isso faz é semear o ódio”, afirmou.
Da parte de Bad Bunny, começou por reagir com humor a esta oposição. Quando foi convidado a participar no programa Saturday Night Live em outubro, aproveitou o seu monólogo para dirigir-se ao público em espanhol e dizer que a sua participação no Super Bowl era a prova “que ninguém pode remover ou apagar” a “a marca e as contribuições” dos latino-americanos “para este país”. “Se não compreenderam o que acabei de dizer, têm quatro meses para aprender”, acrescentou em inglês. Mais recentemente, porém, a postura foi bastante mais séria. Quando foi receber um dos três Grammys que venceu a 1 de fevereiro, começou logo por afirmar “Fora o ICE”, seguindo com “não somos selvagens, não somos animais, não somos estrangeiros, somos humanos e somos americanos”.
https://observador.pt/2026/02/02/numa-edicao-anti-ice-bad-bunny-faz-historia-nos-grammys-ao-vencer-primeiro-album-do-ano-totalmente-cantado-em-espanhol/
Face a toda esta situação, o Comissário da NFL, Roger Goodell, foi pressionado mais do que uma vez a trocar Bad Bunny por outro artista, recusando-o e defendendo a decisão de escolher o porto-riquenho. “Ele é um dos artistas mais populares do mundo. Eu diria que não tenho a certeza se alguma vez selecionámos um artista sem que houvesse alguma reação negativa ou crítica. Temos centenas de milhões de pessoas a assistir, mas tenho total confiança de que será um bom espetáculo. Ele compreende a plataforma em que está e acho que será um momento emocionante e de união”, afirmou em outubro.
Talvez de forma a tentar aliviar tensões, Bad Bunny optaria por destacar na conferência de imprensa de antevisão a este concerto que, mais do que tudo, queria que toda a gente “se divertisse”. “Vai ser uma grande festa. Quero levar o que as pessoas esperam de mim e muito da minha cultura”, prometeu — e foi exatamente isso o que aconteceu.
Um casamento, duas surpresas e muita cultura latina
Durante o intervalo do Super Bowl, o relvado onde minutos antes homens de densa massa muscular haviam-se degladiado em busca do troféu Vince Lombardi tornou-se num pedaço de Porto Rico, das suas linhas elétricas deficitárias aos seus terraços e às suas plantações. Foi precisamente aí onde Bad Bunny iniciou a atuação, cantando Tití Me Preguntó enquanto carregava uma bola de futebol-americano e passava por trabalhadores de foice na mão a cortar arbustos (que, viemos a saber, não eram meros adereços mas pessoas disfarçadas).

Tal como o fizera na sua residência artística na terra natal, todo o cenário e figurantes foi pensado para evocar a ilha, passando por idosos a jogar às cartas e esteticistas entediadas. Foi quando chegou à “casita”, a pequena casa que foi o nexo das suas atuações em Porto Rico e que foi recebendo celebridades nos concertos. Aqui não foi diferente, já que a transmissão mostrou claramente figuras como Cardi B, Pedro Pascal, Karol G e Jessica Alba a dançar enquanto Bad Bunny cantava o hino de empoderamento feminino Yo Perreo Sola no teto da casa. Este, todavia, “desabou”, fazendo-o cair na mesa de uma família e que lhe amparou a queda.
Numa das mais impressionantes demonstrações cénicas dos últimos anos, Bad Bunny foi apresentando alguns dos seus maiores êxitos enquanto os pormenores de excelência iam-se somando. Estes foram desde passar samples de Dale Don Dale e Gasolina dos seus precursores Don Omar e Daddy Yankee antes de EoO (cantada como numa rave, no topo de uma carrinha pick-up) até interromper NuevaYOL para entregar o seu Grammy a um jovem figurante muito parecido com Liam Ramos, a criança detida à porta de casa pelo ICE em janeiro e cujo paradeiro é ainda incerto.
O mais impressionante de todos, porém, foi mesmo o casamento que decorreu num terraço, com os meios de comunicação a confirmarem junto dos representantes do cantor que não foi uma encenação: aquelas duas pessoas casaram-se mesmo no meio do Levi’s Stadium, visto que o casal convidou Bad Bunny para o seu casamento e este retribuiu o gesto convidando-os para se casarem ao vivo no palco durante o espetáculo.

Foi durante essas núpcias, de resto, que surgiu a primeira surpresa musical da noite. Depois de o padre os declarar marido e mulher, ambos se afastaram para revelar Lady Gaga, presente neste concerto para cantar uma versão de Die With a Smile infundida de salsa. O simbolismo é evidente: mais do que ser também ela descendente de imigrantes (italianos, neste caso), a cantora é uma mulher tradicionalmente branca. Cantando e dançando com Bad Bunny, homem latino de tez mais escura, faz a ponte entre comunidades que não se querem isoladas mas sim em comunhão. “Dancem sem medo, amem sem medo”, pediu Benito, depois de se deter por momentos a cantar BAILE INoLVIDABLE.
A outra surpresa surgiu pouco depois. Sozinho entre bananeiras, Ricky Martin, a primeira grande estrela masculina latina da pop moderna, também ele oriundo de Porto Rico, cantou emocionalmente breves trechos de Lo que le Pasó a Hawaii, antes de passar de novo a bola a Bad Bunny. Este, subindo um poste de eletricidade, recordou El Apagón, tema a roçar o techno que critica diretamente a governação de Porto Rico pelos frequentes apagões resultantes da infraestrutura elétrica decrépita da ilha. Foi depois disto que se deu o momento apontado no início do texto. Numa demonstração de pan-americanismo, as bandeiras de todas as nações do outro lado do Atlântico empunhadas, com Bad Bunny à frente a comandar um pelotão de unidade pela paz entre povos.
Quando foi escolhido para atuar neste Super Bowl, Bad Bunny reagiu com esta declaração: “O que estou a sentir vai além de mim mesmo. É por aqueles que vieram antes de mim e correram inúmeros metros para que eu pudesse entrar e marcar um touchdown… isto é pelo meu povo, pela minha cultura e pela nossa história”. Neste noite, marcou mesmo esse touchdown ao tirar a bola ao chão, antes de ser abraçado pelos amigos e do estádio cantar Debí Tirar Más Fotos. Se este não é a verdadeira definição do sonho americano, então é porque este já morreu.