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(A) :: Um copo meio cheio ou um copo meio vazio?

Um copo meio cheio ou um copo meio vazio?

Ventura perdeu, mas ficou naquele limiar de votos que lhe permite dizer que o copo já está meio cheio. E se Seguro ganhou com uma votação substancial, teve também o cuidado de tentar falar para todos.

José Manuel Fernandes
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1 Fechou-se, com esta segunda volta das eleições presidenciais, um tempo na história da nossa democracia – e abre-se um tempo diferente, obrigatoriamente com outros protagonistas, mas sem que seja claro que com novas soluções.

Os cinco primeiros presidentes da nossa democracia eram todos, de uma forma ou outra, filhos da revolução de 1974 – pela sua idade, pelo seu percurso político, pelas referências que corporizavam.

António José Seguro não vem desse tempo, nem já o representa. Como Luís Montenegro também não. E André Ventura é o sinal de uma ruptura (geracional e política) com esse tempo cuja dimensão ainda desconhecemos.

Muitos, nestas últimas semanas, tentaram apresentar a votação de ontem como uma escolha entre democracia e outra coisa qualquer – discordei, discordo e ontem, decorrida tranquilamente a votação e ouvidos os discursos do candidato derrotado e do Presidente eleito, acho que se comprovou isso mesmo. E isso também foi a demonstração de um tempo novo, um tempo que já não se encaixa em discursos “antigos”.

Há um ano ninguém imaginaria que António José Seguro pudesse regressar do seu longo exílio político e protagonizar uma campanha capaz de o levar a Belém. Mas aconteceu – por mérito próprio, por desméritos alheios e também porque o travo amargo deixado junto dos eleitores pelos defenestradores de 2014 – aqueles que o atiraram borda fora do PS – ainda não desapareceu. Seguro ganhou mais do que perdeu por os socialistas terem arrastado os pés nas suas manifestações de apoio, pelo que só se espera que essa gente tenha a decência de agora desaparecer dos nossos radares.

2 Mas há um ano também ninguém julgaria possível que André Ventura chegasse onde chegou. Há um ano o Chega ainda não era o partido com o segundo maior grupo parlamentar. E há seis anos – sim, apenas seis anos – o Chega era um partido só com um deputado depois de ter tido 1,3% nas eleições legislativas de Outubro de 2019. Meses depois já chegava aos 11,9% numas presidenciais com pouca história (a reeleição de Marcelo nunca esteve em dúvida) e onde perdeu o seu campeonato particular contra Ana Gomes, que ficou à sua frente. Agora muito mais do que triplicou a sua votação (passou de menos de 500 mil votos para mais de 1,72 milhões) e quase triplicou a sua percentagem.

Ah, mas não ultrapassou os votos de Montenegro nas últimas legislativas, já oiço dizer. É verdade, e depois? O que é que era importante para Ventura? Reforçar a imagem de que é ele o líder do espaço não-socialista, e conseguiu-o. Mais: quebrar as barreiras psicológicas que levam a que muitos eleitores da direita tradicional não fossem capazes de cruzar o “muro” que supostamente protege os eleitores “decentes” dos eleitores de Ventura. Houve mais de 400 mil que o fizeram, acham pouco?

Aquilo que André Ventura procura – e isso ficou bem evidente, mais uma vez, no seu discurso de domingo à noite – é conseguir derrubar as barreiras, tanto políticas como psicológicas, que o afastam de um dia se poder sentar em São Bento, mesmo que só como ministro de um governo “não socialista”. Ontem deu mais um passo nessa direcção. Não creio que, na sua perspectiva, o copo tenha ficado meio vazio – para ele o copo já está meio cheio.

Até porque, pelos primeiros sinais do que foram as opções de voto do eleitores de Cotrim Figueiredo, fica-se com a sensação que a forte subida dos votos em branco e nulos se ficaram muito a dever a eleitores que, se ainda não estavam preparados para votar em Ventura, também não quiseram votar “útil” em Seguro (esta análise é muito provisória e intuitiva, derivando de ter verificado que em duas freguesias urbanas “ricas” onde Cotrim ganhou na primeira volta – Estrela em Lisboa e Aldoar/Nevogilde no Porto – os nulos e brancos representaram mais de 11% dos sufrágios).

3 Por fim, depois da pesada derrota que teve na primeira volta, Luís Montenegro teve ontem um dos melhores resultados possíveis. Ventura não conseguiu ultrapassar em votos aqueles que a AD recolheu em Maio passado. E Seguro, mesmo tendo tido um bom resultado, não ficou acima dos 70%, a mítica percentagem de Mário Soares em 1991 (o número de votos é menos significativo, em 1991 havia muito menos eleitores inscritos).

Mais: António José Seguro reforçou na sua mensagem a ideia de que só quer eleições daqui por três anos e meio, isto é, que quer que os mandatos se cumpram até ao fim. Depois, toda a sua mensagem foi num registo “anto-Marcelo”, porventura maçador, porventura redondo, mas também sem o veneno que tantas vezes caracteriza a incontinência interventiva do actual Presidente.

Também vemos mais um sinal de como estamos a entrar num tempo novo – um tempo sem fundadores do regime, um tempo sem políticos “geniais” e um tempo em que vamos ver até que ponto o regime tri-partidário substitui mesmo o bi-partidarismo que o defenestrador de António José Seguro (António Costa, lembram-se dele?) fez tudo para subverter. E depois também falta saber como lidará o Presidente-eleito com esta realidade muito mais imprevisível.