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Seguro surpreendido com "grandeza" do resultado. E alivia pressão sobre Montenegro

Presidente eleito descreveu perfil anti-Marcelo: não falará "por tudo e por nada" e não vê razões para Governo não cumprir mandato. Com Ventura perto da votação de Montenegro, Seguro arrefece ambiente

Rita Tavares
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João Porfírio
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Quando saiu de casa e as projeções à boca das urnas já lhe davam uma vitória expressiva, António José Seguro lembrou que as primeiras sondagens — não há tantos meses assim — lhe davam  apenas 6% de hipóteses de ser Presidente. “É fantástico, é muito bonito”, disse na caminhada de poucos metros até ao centro cultural das Caldas da Rainha. Durante a campanha da segunda volta andou titubeante no pedido de um reforço significativo da votação, com receio da abstenção, e acabou, agora, a reconhecer que os 67% (quase 3,5 milhões de votos, mais do que o recordista Mário Soares) é uma “grandeza” com que não sonhava. Como Presidente, promete fazer uso dela, mas não para desestabilizar o Governo.

“Eu esperava uma confiança dos portugueses, pedi essa confiança reforçada e, a certa altura, pensei que a poderia ter. Não desta grandeza, mas sou humilde para dizer que a recebo com muita honra e que a minha responsabilidade aumentou sobremaneira”. Praticamente duplicou o número de votos face à primeira volta e pretende “usar” esse reforço para que “no Governo e partidos, todos percebam que é preciso uma cultura de compromisso fora dos ciclos governativos, concretizada em políticas duradouras que em alguns caso ultrapassem os ciclos de governação”.

Prometeu ser “vigilante” e “exigente” na avaliação dos resultados, mas mostrou-se pouco disponível para acionar a bomba atómica — o que ganha especial peso, depois de uma eleição em que André Ventura se aproximou do número de votos que a AD de Luís Montenegro teve nas legislativas (ficou a 180 mil). Tanto que, depois de jurar que “jamais” será “contrapoder” e de repetir a importância da “estabilidade política”, alinhou com o que o primeiro-ministro tinha dito pouco antes ao lembrar que nos próximos três anos e meio não haverá eleições.

Seguro descreveu o mesmíssimo horizonte limpo de eleições e, quando questionado pelos jornalistas sobre se isso é uma garantia de que não usará o poder da dissolução da Assembleia da República, o Presidente eleito aliviou a pressão sobre Montenegro: “Quanto à duração da legislatura, não será por mim que ela será interrompida.” Sobre a relação que espera ter com o primeiro-ministro, descreveu-a como “leal” e de “cooperação institucional profícua para encontrar soluções para resolver os problemas dos portugueses”. Espera que tudo isto seja recíproco.

O mais que avisou o Governo foi quando disse, ainda antes das perguntas dos jornalistas, que esta é “uma oportunidade única” e que “não há desculpas para a inação”. Sobre a seu próprio exercício de mandato disse que estará “vigilante”, que fará “as perguntas difíceis” e que exigirá “respostas”. Mas descreveu um perfil que pareceu distanciar-se do de Marcelo Rebelo de Sousa — que tem feito várias queixas sobre o atual Governo — quando disse que terá o seu “próprio estilo”, que não falará “por tudo e por nada” e ainda que a “palavra do Presidente terá peso e consequência”. Pareceu uma promessa de ser uma espécie de anti-Marcelo no uso da magistratura de influência.

O mais duro que foi, por agora, com o Executivo foi mesmo em relação às vítimas da “catástrofe” — como insiste sempre chamar ao que aconteceu nas últimas semanas –, quando avisou que “a solidariedade dos portugueses não pode substituir nunca a responsabilidade do Estado” e apertou o Governo para que os apoios cheguem rápido: “Não aceitarei burocracias que atrasem apoios”. É a sua primeira tarefa presidencial: não só irá ao terreno já na próxima semana, sozinho, como será na região centro que fará a sua primeira Presidência Aberta. E já prometeu que fará a monitorização dos resultados das medidas tomadas pelo Executivo.

Não há muro em relação a Ventura, nem “amarras” com PS

Depois de uma campanha naturalmente tensa e de divisão face ao adversário que ficou até ao fim, André Ventura, António José Seguro declarou logo na sua intervenção inicial que esse tempo fica para trás. “A partir desta noite deixámos de ser adversários”, declarou antes de completar a frase com a promessa: “A maioria que me elegeu extingue-se esta noite.” E nem quis dizer se tenciona reeditá-la para tentar contrariar uma política de ciclos curtos e seguir a tradição de dois mandatos em Belém — a pergunta sobre se haverá segundo mandato irritou a sala, já Seguro disse apenas: “Ainda nem tomei posse. Não sei o que vai acontecer nos próximos cinco anos.” Uma recandidatura dependerá dessa avaliação.

Por agora, e ao estilo de Mário Soares, declara-se como “Presidente de todos os portugueses”. Ou mais ao modo Papa Francisco: ”O Presidente de todos, todos, todos os portugueses. Os que votaram em mim, os que fizeram outra opção e os que ainda não votaram.” Uma tentativa de desanuviar o ambiente político saído de um período eleitoral intenso — o ciclo termina precisamente com estas presidenciais.

E para o caso de algum socialista não ter percebido que esta é também uma declaração de “independência” do Presidente que se diz “livre e sem amarras”, nas respostas aos jornalistas, Seguro ainda afastou o PS desta vitória. Assumiu-a como sua e da sua equipa e quando questionado sobre se o resultado permitiu ao seu partido de origem (e de sempre) respirar de alívio, depois do desaire em legislativas, traçou a separação de águas: “A vida do PS é com o líder do PS.”

Não especificou se vai entregar o cartão de militante, desvalorizando essa questão. “A entrega do cartão tem um valor simbólico. Mário Soares entregou, Jorge Sampaio não entregou”, recordou. Quanto a si mesmo, indiciou que não sente necessidade de entregar o cartão, quando não tem actividade partidária há 11 anos: “Eu assumi essa independência e é isso que manterei.”

No centro cultural das Caldas da Rainha, onde Seguro apresentou a candidatura em junho com alguns socialistas na sala mas sem o líder o partido, esteve agora José Luís Carneiro. O secretário-geral do PS diz que as suas presenças na campanha de Seguro foram sempre “articuladas” com o candidato e que aquela ida ali, na noite da vitória, não tinha sido diferente. Apareceu apenas quando Seguro quis. E, mesmo assim, foi um abraço e foge. Carneiro esteve por muito pouco tempo no sítio onde o antigo líder do PS juntou os seus para a noite eleitoral.

Nas Caldas, tal como na noite eleitoral da primeira volta, estavam sobretudo cidadãos anónimos. Na primeira fila saltavam à vista os mais próximos do Presidente eleito, como o antigo deputado Miguel Ginestal, Álvaro Beleza, António Galamba, Óscar Gaspar, Eurico Brilhante Dias, Miguel Laranjeiro (todos membros da sua direção no PS). E também Alberto Martins, João Soares, Elza Pais, Ana Mendes Godinho, André Moz Caldas, Vitalino Canas ou o presidente do PS Porto (e diretor da campanha de Pedro Nuno Santos nas legislativas), Nuno Araújo.

O PS parece se rum passado longínquo, bem como a noite de setembro de 2014 em que saiu, acompanhado pela mulher Margarida Maldonado Freitas, da sede do partido que liderara durante três anos, de cabeça baixa. Pela porta mais pequena da política, depois de António Costa o ter batido nas primárias do partido, por 67% dos votos. António José Seguro reentra na política pela porta grande de Belém, curiosamente com essa mesma percentagem.