Alberto Gonçalves. O grande vencedor
Tem a sua graça ver muita gente justificar o seu improvável apoio a António José Seguro com o refrão: “Não voto em partidos, voto em pessoas”. Além do carácter insólito de a “pessoa” em causa ser Seguro, de quem ainda há meses já ninguém se lembrava, a utilização da frase numas “presidenciais” é redundante. Nestas “presidenciais”, a frase é também um bocadinho hipócrita.
Sentimentos de lado, a verdade é que o candidato formalmente apoiado pelo PS (e, na segunda volta, pelo PCP, o Livre e o BE) venceu com os votos de boa parte do eleitorado do PSD. E o candidato formalmente apoiado pelo Chega perdeu embora tenha aumentado o “tecto” do seu partido.
A leitura óbvia e até certo ponto compreensível é que os habituais votantes do PSD, à semelhança da respectiva direcção, vêem em Ventura uma ameaça bem maior que o opositor – que poderia ser Seguro ou quase qualquer outro. Não falo de uma ameaça para o país, apesar da histeria apocalíptica ensaiada na campanha, mas de uma ameaça para o PSD.
O destino do PSD nestas eleições ficou decidido aquando da escolha inicial de um candidato fraco e, por isso, mais “conveniente” ao dr. Montenegro que aos eleitores. O destino do governo está por apurar, e não sugere o entusiasmo dos aficionados. Não sei o que nos próximos tempos conseguirão o Chega e o PS. Todos sabemos o que vão tentar. E os resultados de hoje favorecem ambos. Acima de tudo, os resultados favorecem a única figura capaz de liderar aquilo a que erradamente continuamos a designar por “direita”. Chama-se Pedro Passos Coelho e, com o higiénico silêncio que por exemplo demonstrou nas últimas semanas, será um dia o vencedor da noite. Se quiser, claro.
André Abrantes do Amaral. A eleição dos empatas
Estas presidenciais foram as eleições do empata. Primeiro, porque os dois candidatos foram isso mesmo, empatas: Seguro ganhou ao passar entre os pingos da chuva na primeira volta; Ventura, na segunda volta, serviu apenas para eleger Seguro em segurança. Segundo, na medida em que Seguro presidente pouco fará pelas tão badaladas reformas. Nunca lhes foi favorável e não se vê por que razão o será agora. Terceiro, tanto Seguro como Ventura alcançaram os seus objectivos, logo empataram: Seguro foi eleito e Ventura conseguiu mais de 30% do eleitorado. Os dois empataram ao vencerem enquanto o país perdeu. Acusar Ventura de antidemocrata rendeu-lhe mais de milhão e meio de votos. Os ‘virtuosos’ estão de parabéns com o milhão e meio de fascistas que arregimentaram.
Se alguém tinha expectativa numa mudança no rumo que o sistema político está a levar, bem que pode voltar à terra. Pouco ou nada mudou. A vitória de Seguro não vai travar Ventura e o governo está de mãos atadas. Sem reformas, ou melhor, sem visão de futuro, a Montenegro resta-lhe esperar. Pelo quê não sabemos. Certo, certo é que o tempo não espera, mas avança. O país, esse, desespera.
Helena Matos. A sorte dá trabalho
O grande vencedor desta noite é António José Seguro não apenas pela votação conseguida mas também e sobretudo porque esta é uma vitória pessoal. Não é uma vitória do PS, é a vitória de António José Seguro. E contra esse facto não há qualquer argumento.
A sorte entra na forma como pessoalmente sedimentou a sua vitória. António José Seguro ganhou na primeira volta porque Gouveia e Melo atacou Marques Mendes e Marques Mendes atacou Cotrim que por sua vez acabou cercado por todos os lados.
Ganhou na segunda volta porque os eleitores não quiseram Ventura em Belém.
A isto chama-se sorte mas a sorte dá trabalho e no caso de Seguro deu-lhe um trabalho particularmente difícil: o trabalho da persistência.
Sendo o candidato eleito por exclusão de partes, vai começar agora para António José Seguro o tempo de conquistar ou perder os portugueses. A campanha para 2031 já está no terreno: recordo aos distraídos que Cotrim de Figueiredo se tornou comentador. Sim, aparentemente em poucos dias Cotrim passou de candidato a comentador mas não é isso que na verdade aconteceu: Cotrim passou de candidato em 2026 a candidato a candidato em 2031.
Em resumo, Seguro é o vencedor óbvio da noite. O maior derrotado da noite é António Costa. Poupo-me a explicar porquê.
O maior empatado da noite é André Ventura. Não porque o resultado que conseguiu seja mau – não é – mas sim porque boa parte dessa mesma direita que pretende liderar preferiu eleger um socialista a dar-lhe o seu voto.
Já o prémio “se o arrependimento matasse eu não estava aqui” vai para Luís Montenegro. Na primeira volta o candidato que apoiou perdeu. Na segunda volta viu o seu eleitorado eleger um socialista e André Ventura a declarar que agora é ele o líder da direita. Montenegro que tem fortes razões para acreditar que é bafejado pela sorte esqueceu-se que a sorte dá trabalho.
Jorge Fernandes. A luta continua
O resultado desta noite contém quatro lições. Em primeiro lugar, numa eleição disputada a dois, uma dinâmica radicalmente diferente de uma eleição legislativa multipartidária, a taxa de rejeição contra André Ventura conseguiu mobilizar o eleitorado, incluindo a direita moderada, para votar em António José Seguro. Todavia, não nos enganemos. Seguro será o Presidente da República com a maior votação de sempre, superando Soares na sua fase de Rei-Sol do sistema político Português. Todavia, essa votação deve-se mais à rejeição de Ventura do que ao apoio explícito e inequívoco a Seguro, uma dinâmica clássica de segundas voltas em outras democracias semi-presidenciais, como em França ou na Polónia. Em segundo lugar, este resultado sugere uma espécie de efeito de teto na votação de André Ventura, que já tinha sido, de alguma maneira, demonstrado nas últimas eleições legislativas. Em Maio passado, Ventura cresceu menos onde já era mais forte, compensando com uma nacionalização do voto, entrando em territórios onde até aí não tinha conseguido grandes votações. Para dar o próximo passo em termos de crescimento eleitoral, Ventura precisará de moderar o seu discurso e, acima de tudo, arregimentar uma elite partidária capaz e que sinalize à classe média que o Chega é um partido que vai para lá do protesto. Em terceiro lugar, apesar deste resultado, que era de resto esperado, Ventura é, em minha opinião, o grande vencedor das presidenciais à direita. Convém relembrar que o candidato da AD não passou dos doze por cento na primeira volta. Ventura, um neófito político há apenas 7 anos, conseguiu levar as presidenciais à segunda volta, um feito notável. Por último, convém relembrar que em eleições legislativas uma maioria relativa com uma ordem de grandeza igual à que Ventura teve hoje pode ser mais do que suficiente para ganhar as eleições. Ao contrário das presidenciais, em que o sistema a duas volta permite a coordenação do voto para escolher o menor de dois males, as legislativas são um jogo mais simples de uma única ronda.