1 Recontar os mitos
Regressemos a Odisseia. Lembramo-nos com facilidade das aventuras e provações de Ulisses durante a viagem e, provavelmente, do modo como ele matou os pretendentes que, em Ítaca, abusavam da hospitalidade, ocupando o seu palácio enquanto aguardavam a decisão de Penélope. Até nos podemos lembrar daquele que é considerado o momento mais emotivo do texto: que o seu velho cão foi o único a reconhecê-lo quando chegou a Ítaca e que esperava o dono para morrer. Mas nunca nos lembramos das escravas.
Aquelas doze escravas que terão desonrado Ulisses envolvendo-se com os pretendentes. Essas sobre as quais Ulisses diz a Telémaco:
“devereis abater as escravas com as longas espadas, até que a vida
as abandone e se esqueçam dos prazeres de Afrodite,
que provaram, deitadas em segredo com os pretendentes.”
Essas que Telémaco, em vez de matar com a espada, colocou em fila com uma corda à volta do pescoço:
“Espernearam um pouco, mas não durante muito tempo.”
É sobre esta imagem que Margaret Atwood escreve a sua Odisseia de Penélope. Sobre as escravas que foram julgadas por Ulisses como se fossem livres de resistir ao poder dos homens. Como se tivessem outra hipótese.
“do céu, trono e rua
com donas andaste,
teus zelos calmaste
nós menos pecados
tínhamos do que tu
e mal nos julgaste”
Também nos lembramos com facilidade de Circe como a feiticeira que transforma os homens em porcos, magia que encerra a condição humana num corpo degradante como um escafandro do qual não conseguem escapar. E Ulisses aparece, assim, na nossa memória como aquele que é capaz de dominar a feiticeira e restabelecer a ordem.

Mas quando lemos Madeline Miller, podemos olhar para Circe de outro modo. Como uma mulher que vive sozinha numa ilha, onde por vezes atracam barcos cheios de homens dispostos a deixar claro quem é a parte frágil daquela história. A magia de Circe aparece, agora, como uma defesa, a única defesa possível de quem é fisicamente mais fraco. E isso permite-nos compreender melhor Circe. A verdade é que,
“Quando passava pela pocilga, os seus amigos fitavam-me com expressões suplicantes. Gemiam e guinchavam, enterrando os focinhos na terra. Lamentamos muito, lamentamos muito. Lamentam terem sido apanhados, dizia-lhes. Lamentam terem pensado que eu era fraca, e terem-se enganado.”
Afinal, os mitos foram sempre contados pelos homens.
2 A culpa como arquétipo
Não é por isso surpreendente que o universo da literatura mitológica tenha sido invadido, nos últimos anos, por autoras mulheres que escrevem a partir da perspetiva de Briseida, Clitemnestra, Ariadne, Medusa, Electra, Circe, Penélope. São perspetivas distintas sobre as mesmas histórias que enriquecem o caleidoscópio pelo qual vemos o mundo, mas que não devem servir para promover aquilo que Bradley Campbell e Jason Manning designaram como “cultura de vitimização”.
De acordo com esta forma de pensar, que apresenta a realidade como uma luta permanente entre opressores e oprimidos, “a vítima” adquire, por si só, um valor moral – simplesmente por ser percecionada como “oprimida”. Os incentivos sociais tornam-se evidentes: todos aqueles que puderem, de alguma forma, reivindicar “o lugar de vítima” adquirem um valor especial e moralmente melhor, pelo que a multiplicação da “vitimização” se torna inevitável.
Este mecanismo perverso tem vindo a ser estudado nos últimos anos e é particularmente incentivado pela dinâmica das redes sociais. Mas o fenómeno conexo mais curioso é o modo como tantos homens interiorizaram, e tão facilmente, “a culpa do homem branco”.
É a lógica identitária em funcionamento: assumimos a nossa pertença a um determinado grupo (i.e., aos homens brancos), passando a decorrer dessa assunção uma culpa coletiva (i.e., independente dos nossos atos individuais) por possíveis injustiças passadas (i.e., sobre as quais não temos qualquer responsabilidade). Analiticamente, este raciocínio parece absurdo. Porque tem sido, então, tão eficaz?
Por um lado, os estudos mais recentes de psicologia evolutiva ajudariam a explicar por que razão a culpa desempenha um papel tão importante em termos sociais: se evoluímos para nos tornarmos seres morais, a culpa serviria para promover comportamentos socialmente exigidos. Outros levantam a hipótese de a eficácia resultar da cultura cristã que dá forma ao Ocidente: a culpa seria uma espécie de arquétipo cultural que facilitaria o desencadear do argumento identitário.
A verdade é que o sentimento de culpa acompanha muitos fenómenos da vida humana – mesmo sem existir uma relação causal lógica. Pensemos no muito conhecido livro de Elisabeth Kübler-Ross, Sobre a Morte e Morrer, que nos ensina que o sentimento de culpa é um dos sentimentos mais comuns entre os familiares daqueles que morrem de cancro (i.e., que morrem de uma doença em que não há… culpados). A mente humana é, de facto, uma coisa estranha – tal como é enigmática a culpa do homem branco. Mas os seus efeitos são muito mais perversos.
3 A culpa do homem branco
Lembrei-me da força deste mecanismo depois de ouvir o maestro Martim Sousa Tavares repetir de modo fastidioso nos últimos episódios do seu Encontro com a Beleza como as mulheres tinham sido prejudicadas no passado (não me interpretem mal: o meu coração ainda dói pelo fim do programa). É realmente surpreendente como, mesmo quando não fizeram nada de errado, tantos homens se sentem movidos por um sentimento de culpa que os leva ao desconforto com o seu “lugar de privilégio” e, consequentemente, a sentirem necessidade de assumir publicamente algum tipo de punição social.
A sinalização de virtude, que nos últimos anos invadiu o espaço público, visa cumprir precisamente essa função: se reconhecermos publicamente a nossa condição de privilégio poderíamos redimir a nossa culpa. E seria por essa razão que as pessoas se sentem tão bem quando “sinalizam virtude”: sentem-se menos culpados.
Mas será este comportamento socialmente vantajoso? Vale realmente a pena entrar na toca do coelho do argumento identitário? Ou, por outras palavras, a culpa do homem branco torna o mundo realmente melhor?
Arrisco, em três pontos, uma resposta negativa.
- Por um lado, a culpa do homem branco incentiva os “oprimidos” a adotar uma atitude de permanente vitimização, que os leva a interpretar todos os insucessos como resultado de “injustiça” ou “discriminação”, sem considerar a possibilidade de erros pessoais, fragilidades próprias ou mera casualidade. A consequência é sermos levados a entrar numa espiral de ressentimento que perpetua os problemas em vez de sermos incentivados a realizar o processo de aperfeiçoamento pessoal de que todos precisamos.
- Por outro lado, a culpa do homem branco leva os homens a adotar um comportamento de condescendência e paternalismo que, ao contrário do desejado, menoriza as outras identidades – como se as mulheres e os negros fossem coitadinhos com necessidade de um salvador. Em sentido contrário, é possível falar sobre mulheres autoras sem cair no discurso da vitimização e menorização.
- Por fim, a narrativa identitária – com todo aquele vocabulário atraente do “género”, do “Sul Global”, do “privilégio”, da “opressão”, da “vitimização” – tem efeitos socialmente destrutivos: por um lado, ativa o lado mais tribal do nosso cérebro, encerrando-nos em identidades, o que dificulta o pensamento universalista; por outro lado, impõem-nos uma visão do mundo que é de luta permanente entre essas identidades, o que impossibilita a cooperação social. Ao invés de resolver o problema, a narrativa identitária agrava-o.
Apesar de parecer atraente, a culpa do homem branco é perversa: senti-la (e manifestá-la) cria a ilusão de que nos tornamos moralmente melhor; na prática, estimulamos os piores instintos do ser humano. No final, as ferramentas que o velho liberalismo moral nos deixou acabam por se revelar muito mais úteis.