Não, não são os adolescentes que são agitados e hiperactivos e que têm saltos de humor que, por vezes, fazem com que pareçam bipolares. Que são ora irritáveis ora impulsivos. Ou desatentos, alheios em relação a quase tudo o que se passa fora do seu pequeno mundo ou tolhidos entre défices de atenção e dificuldades de concentração. Centrados neles próprios ou, mesmo, egoístas e narcísicos. Que procrastinam ou que parecem ter dentro de si uma imensa falta de compromisso. Que se centram nos resultados mesmo que muito pouco neles represente aprendizagem ou sabedoria. Essas características que, amiúde, lhes atribuímos caracterizam-nos a nós! Que vivemos entre a necessidade de cumprir objectivos e de aumentarmos — mais e mais e mais — a produtividade, como se mais lucro fosse maior crescimento, mais autonomia e melhor qualidade de vida. Sem tempo para termos com ela uma relação de entusiasmo ou uma paz deliciosa como se cada dia fosse um fim de semana. Hipotecando relações, sonhos e esperança. Renunciando à vida em função dos objectivos que nos pespegam à frente para que outros ganhem sempre mais com os nossos sacrifícios. E criando todos os obstáculos e mais alguns para que nunca nos perguntemos até que ponto a nossa vida se faz em direcção à prosperidade. Ou se mais trabalho nos trará mais liberdade.
A forma como se estrutura o trabalho e se organiza a economia contribui para uma ordem social e para uma ideia de progresso que nos transformam em mercadorias e nos fazem mal. Por mais que pareça um slogan, ter e ser podem desequilibrar-se, mutuamente. Quanto mais entrarmos, de forma febril, na volúpia dos aumentos de produtividade que nos impõem, mais engolidos somos por uma engrenagem que enaltece o silêncio, o esforço e o cansaço. E mais a nossa mente se deixa industrializar, como se perdesse autonomia e singularidade e se tornasse numa pequena peça duma engrenagem que, obviamente, serve para que a sua utilidade para pensar pareça supérflua. Mais o conforto parece aconchegar-se na distracção. Mais se elogia o controlo e a calma, como se as pessoas fossem tanto mais fortes quanto mais indiferentes se tornassem. Ou como se aquilo a que, perversamente, se chama saúde mental fosse uma forma de domesticar — para, depois, se recusar — o que se sente e tudo o mais que se imagina, como se o futuro saudável da mente humana fosse o vazio.
Acresce que a forma como, hoje, se fala, com excitação, da inteligência artificial acrescenta às grades do silêncio que nos apertam um mundo onde a produtividade se tornará ainda maior, com menos custos e menos pessoas, e onde a necessidade de pensar vai sendo substituída por recursos digitais que, supostamente, pensam por nós (enquanto vamos ficando, aos bocadinhos, mais estúpidos). E que parecem eleger como desperdícios o conflito e o contraditório que trazem luz ao nosso pensamento.
Às vezes, parece que fomos todos educados para o medo. E para sermos pequeninos. Submissos e obedientes. Mais competentes para repetir do que para interpelar, perguntar ou duvidar. Dantes, porque os pais e a escola supunham que o medo seria amigo da educação. Agora, quando os pais acham que os seus filhos podem ser quase tudo, porque o medo de não estarem à altura dos seus sonhos, o reconhecimento de não serem tão bons como todos imaginam, ou a forma como crescem num mundo que não lhes permite a autonomia antes dos 30, enquanto os deixa cercados de crises — demográfica, económica, da segurança social, do ambiente e dos valores humanos — e controlados por algoritmos e pela corrupção da boa educação, acaba por fazer o resto. Esquecendo-se quem nos quer pequeninos que a insubmissão humana faz com que o mundo pule, se reinvente e avance.
O desafio (enorme!) que temos em mãos será, não perdendo nada do bom que conquistámos, inventar um mundo muito mais amigo das pessoas. É pouco — é, mesmo, muito pouco — que a intervenção cívica que a ordem social em que vivemos nos solicita — mais centrada no consumo e no mercado do que nos recursos humanos ou na transformação e na mudança, como se tanta gente que tem os mesmos comportamentos da mesma maneira não pudesse estar democraticamente equivocada — se resuma à forma como pagamos o Estado e lhe damos o nosso voto, enquanto a nossa voz se cala. Como podem as pessoas, vivendo no medo, ser atentas e empáticas? Como pode a prosperidade existir à margem dos valores da humanidade? Como se pode viver desafogado numa vertigem, permanente, de burnout? Como podem as pessoas estar cada vez mais perto da solidão e, ao mesmo tempo, ser mais felizes, fazendo da consciência com que pensam vistas largas? Por mais que não pareça, quanto mais nos apertam mais nos libertam. Sendo assim, talvez estejamos mais perto dum mundo novo que nos bate à porta.