A propósito das actuais negociações entre os EUA e o Irão a pergunta que se repete nos corredores diplomáticos, nos estúdios televisivos e nas redacções é inescapável: Trump prepara-se para atacar o Irão ou está apenas a encenar a ameaça como instrumento negocial?
A dúvida nasce de uma estratégia que mistura sinais militares, retórica excessiva, fugas selectivas de informação e uma ambiguidade diplomática que já se tornou a marca desta administração americana.
Caos ou aparência de caos?
Observadas com alguma distância, as peças encaixam-se num padrão de coerção negocial, típico da história recente da política externa americana: Trump ameaça, amplifica o tom, exige tudo, desloca meios militares, cria a sensação de iminência e, no exacto momento em que se começa a acreditar que a escalada é inevitável, regressa à mesa das negociações proclamando vitória antes mesmo de a negociação começar. A força não surge como destino, mas como argumento.
A retórica pública do presidente norte-americano aponta nesse sentido. Insiste que Teerão “tem de voltar à mesa”, promete que qualquer ataque futuro será “muito pior” do que os anteriores e fala de “armadas” em deslocação para a região com grande exuberância verbal. Mas, na prática, não há ainda nenhum compromisso operacional inequívoco. Apenas a linguagem e a gesticulação de quem quer intimidar, não a de quem já decidiu avançar. Os grandes primatas fazem isso e nós compreendemos esse tipo de sinais, estão nos nossos arquétipos.
Os objectivos declarados dos EUA são os mesmos de sempre: travar o programa nuclear iraniano, limitar o desenvolvimento de mísseis balísticos, conter a rede de proxies regionais que permite a Teerão projectar poder sem consequências e, eventualmente, derrubar o regime. Os do Irão são exactamente os opostos, todos ao serviço do grande objectivo de hegemonia regional.
É revelador que não exista uma declaração formal de mudança de regime como objectivo oficial, nem um plano anunciado para desmantelar a Guarda Revolucionária, o verdadeiro núcleo do poder político, económico e militar da República Islâmica.
Nos bastidores, é verdade, circulam cenários mais musculados. Fala-se de ataques selectivos a infra-estruturas nucleares, de operações cirúrgicas contra elementos-chave da Guarda Revolucionária, até de tentativas indirectas de reacender protestos internos. Mas a história recente e o “modelo venezuelano” aconselham cautela perante este tipo de teorias. Derrubar sistemas entrincheirados e evitar o caos que se segue, exige muito mais do que bombardeamentos e muito mais do ir e vir.
É aqui que os actores regionais introduzem uma dose de realismo. Israel, Arábia Saudita, Emirados e Turquia sabem que o poder aéreo, por si só, raramente derruba estruturas políticas profundamente ideologizadas e militarizadas. O Irão não é um Estado frágil sustentado apenas por uma elite isolada; é um sistema com profundidade territorial, vastos recursos humanos e uma estrutura de poder (Guarda Revolucionária), desenhada para sobreviver a choques externos e internos. Um ataque limitado dificilmente produziria a implosão desejada por alguns em Washington. Mais provavelmente, consolidaria a coesão interna do regime sob a narrativa clássica da agressão estrangeira.
Teerão, aliás, joga o seu próprio jogo assente no velho cinismo persa de mostrar os dentes enquanto se estende a mão. Multiplica declarações públicas de desafio e ensaia demonstrações militares destinadas ao consumo interno, mas mantém discretamente abertos os canais diplomáticos. Não ignora a ameaça americana, mas comporta-se como quem calcula que essa ameaça é, acima de tudo, um instrumento negocial.
Existe ainda um factor frequentemente subestimado nas análises mais alarmistas: a opinião pública americana.
As sondagens mostram de forma consistente que o apoio a uma intervenção militar de larga escala contra o Irão é frágil e condicionado. Falar em impedir o acesso iraniano a armas nucleares, é comestível; aventar uma guerra prolongada, escalada regional ou botas no terreno, é indigesto, especialmente para o povo MAGA.
E, com Trump ou sem Trump, nenhuma administração americana sustenta um conflito sério sem apoio sólido doméstico que, aliás, evapora rapidamente ao primeiro aumento do preço do combustível ou à visão de ataúdes cobertos com a Stars and Stripes.
A análise operacional reforça a mesma conclusão. Muitos dos alvos estratégicos iranianos encontram-se profundamente enterrados, protegidos por sistemas de defesa dispersos e integrados em redes de comando redundantes. Neutralizá-los exige campanhas prolongadas, operações combinadas e um nível de compromisso político e militar que, neste momento, não parece existir. E abriria muito provavelmente a porta a retaliações regionais: ataques contra bases americanas, contra infra-estruturas energéticas do Golfo, contra aliados de Washington e, naturalmente, contra Israel. A guerra deixaria de ser um golpe cirúrgico ao estilo de Caracas, e passaria a ser um processo longo, caro e penoso, porque o Irão tem de facto muitos dentes para morder durante muito tempo.
Mas a pressão americana sobre o dossier nuclear, destapa uma curiosa contradição. Há poucos meses, Trump proclamava que os bombardeamentos anteriores tinham “obliterado” as capacidades nucleares iranianas. A explicação mais plausível é que os ataques degradaram capacidades, mas não eliminaram o programa, e Teerão reconstruiu parte do que foi destruído com maior rapidez do que se esperava. A retórica de vitória total terá sido, pois, mais uma dança de vitória de Trump, para evitar ter de ir até ao fim.
As peças do puzzle são estas:
Trump gesticula e ameaça como negociador coercivo; alguns cenarizam rupturas históricas; outros amplificam as fragilidades do regime iraniano; aliados regionais pedem prudência; o público americano permanece reticente; os custos potenciais de uma guerra aberta são avassaladores; o desfecho é incerto.
Quando colocadas lado a lado, o quadro torna-se consistente: Não se trata de uma guerra iminente, mas a de uma negociação conduzida sob pressão máxima.
Há 6 anos, Trump escreveu que “os iranianos nunca ganharam uma guerra, mas nunca perderam uma negociação”. A frase, à época recebida como mais uma das suas provocações retóricas, paira hoje como um comentário involuntariamente irónico sobre a situação actual. Porque, se é verdadeira, a pergunta é óbvia: por que razão regressar à mesa negocial precisamente quando o regime iraniano parece atravessar um dos seus momentos de maior fragilidade interna e externa?
A única diferença para agora é realmente a pressão militar
O que significa que o risco de incidentes militares está lá. A história mostra que a combinação de forças armadas em prontidão, retórica agressiva e canais diplomáticos frágeis, pode gerar choques inesperados. Golpes limitados, acções calibradas ou demonstrações de força destinadas a reforçar a credibilidade das ameaças permanecem perfeitamente plausíveis e a escalada também.
Mas nenhum dos actores quer isso e confundir essa possibilidade com a preparação de uma guerra regional de larga escala é, pelo menos por agora, um erro de análise. O que vemos é menos a marcha inevitável para o conflito e mais um clássico exercício de negociação à sombra do poder militar. Trump aposta que a pressão levará Teerão a concessões; Teerão aposta que a resistência prolongada levará Washington a aceitar compromissos imperfeitos; e o resto do mundo observa, ansioso, esta coreografia de ameaças e sinais.
Se a “normalidade” prevalecer, o desfecho será provavelmente menos dramático, no curto prazo, do que muitos pensamos: negociações arrastadas, episódios ocasionais de tensão militar cuidadosamente controlada, compromissos ambíguos apresentados como vitórias históricas e uma instabilidade regional que continuará a avançar por ciclos até chegar ao momento em que o Irão obtenha uma arma nuclear. Nesse dia abre-se a Caixa de Pandora. Alguns países da região já estão a contar com isso e a preparar-se também para ir às compras de artefactos feitos com material físsil de grau militar.