Oito da noite em ponto em Penamacor, olhos colados à televisão até ao relógio bater a hora certa. Uma noite fria lá fora e vidros embaciados do café jardim, onde se montou uma festa entre os apoiantes do filho da terra. Depois, aplausos, vivas e brindes com um espumante, cuja rolha é disparada assim que são conhecidas as primeiras projeções. Sempre com a memória de que António José Seguro, o presidente eleito da República, é de Penamacor. Um acordeão e um bombo juntam-se à festa, assim como uma tarja onde se pode ler “Penamacor 100% Seguro”.
“Não tivemos o rei de Penamacor, mas temos o presidente de Penamacor!” E os brindes seguem esta ordem: “Viva o Presidente, Viva Portugal, Viva Penamacor”. António José Seguro venceu no concelho de Penamacor com perto de 82% dos votos. André Ventura não foi além dos 18%. Na freguesia homónima o resultado foi ainda mais equilibrado. Seguro conseguiu 88% dos votos. Ou melhor, o “Tozé” conseguiu, porque em Penamacor não há quem chame António José Seguro pelo nome.
Quem nasceu e cresceu em Penamacor celebra uma terra que fica no mapa como “terra presidencial”. E comenta-se, enquanto se brinda, que o “Presidente quando vier à terra pode trazer pastéis (de Belém)“. A festa acabou depressa, nenhum dos apoiantes esperou para ver o discurso de António José Seguro. Pelas dez da noite, o café jardim estava vazio, e com as cadeiras arrumadas em cima das mesas redondas.
Ao início da noite, o café jardim estava por encher. António Cabanas estava sentado numa mesa com a família. O telefone vai tocando. Quem lhe liga? Luís Seguro, um dos dois irmãos de António José Seguro. “Está muito nervoso, muito ansioso. Estive a dizer-lhe que vai correr tudo, tenho a certeza que vai correr bem. Ele tem confiança que vai ganhar, mas costuma dizer-se que até ao lavar dos cestos é vindima. Estamos todos à espera de uma vitória robusta, ele precisa e o país precisa de um Presidente com essa credibilidade.”
António Cabanas conheceu António José Seguro no externato de Nossa Senhora do Incenso, com 12 anos. “Eu penso que o Tozé, vai-me permitir, a gente chama-lhe sempre o Tozé, é o Tozé, há-de ser sempre o nosso Tozé”. Amigo de longa data, não tem dúvidas de que Seguro estará à altura do Palácio de Belém. Tem como principais atributos o “diálogo e a moderação”, capazes de garantir não só a estabilidade do Governo, como a estabilidade “da democracia”.




O Robin dos Bosques que entrevistou Eanes – e que perdeu na primeira vez que foi a votos
O Observador passou o dia 8 de fevereiro em Penamacor. E foi guiado por Francisco Abreu, amigo de escola de António José Seguro. A visita à vila de Seguro começa num miradouro, à porta do Junta de Freguesia e do Museu Municipal. Francisco Abreu penteia o cabelo e aponta com um dedo para o local onde, décadas antes, tinha jogado à bola com o futuro Presidente da República.
“Era muito bom colega de equipa” mas cruzavam-se pouco, afinal Francisco era defesa central e Seguro era avançado – e “muito bom jogador, quase que adivinhava onde a bola iria a seguir”. O futebol acabou por não ser o caminho do “Tozé” mas sim a política. Tinha 12 anos na altura do 25 de abril – e a data fez toda a diferença.
Francisco Abreu partilha uma pequena história com o Observador enquanto desce as ruas empedradas de Penamacor. Logo a seguir ao 25 de abril “disseram-nos para estar quietos”, estranharam e procuraram uma razão, sabiam que “havia um problema qualquer em Portugal” mas não sabiam qual. “A nossa convicção é que havia uma guerra com Espanha.” E aponta para a antiga escola básica, agora transformada em centro de saúde: “Lembro-me de estarmos ali, sentados no muro, e dizíamos – agora vêm dali os castelhanos”.
Francisco Abreu acelera o passo, fecha o casaco, por causa do frio de inverno que se faz sentir. No topo de Penamacor, à porta do externato onde estudou com António José Seguro, o amigo de infância lembra a primeira ida a votos de Seguro, no dia em que o socialista seria eleito Presidente da República.
Uma lista à associação de estudantes, que acabou por ser derrotada, por uma lista com estudantes mais próximos do PCP. “Foi, se calhar, a primeira ida a votos dele, foi em 1976.”“Recordo-me de uma noite em que viemos aqui, quase com assaltantes, fazer fotocópias e a fazer a reprodução das propostas que tínhamos. Éramos uma espécie de bandos dos Robin dos Bosques”.
Francisco Abreu traz nas mãos vários exemplares de jornais antigos, amarelos e gastos com a passagem do tempo. “Começámos assim, em janeiro de 77. Olhe aqui, António José Martins Seguro”. Eram exemplares do jornal “Verdade”, mais tarde batizado “Verdade de Penamacor” em 1979. Imprimiam perto de uma centena de exemplares.




Os temas dos artigos assinados pelo tal jornalista que assinava como “Martim Seguro”? Explica enquanto folheia os jornais, com a ponta dos dedos, “a saúde, a falta de assistência médica. Nós dizíamos isto em agosto de 81: Senhor Ministro, no nosso concelho não há saúde para ninguém. Portanto, estamos a falar de agosto de 81, já lá vão 45 anos”, curiosamente esta que foi uma das bandeiras da campanha do então candidato presidencial.
José Albuquerque junta-se ao amigo de longa data, Francisco, quando se apercebe do tema de conversa com o Observador. “Andei com ele ao colo. Sou muito amigo do irmão do meio, o Luís, o Tozé era um garotito. Para nós continua a ser o Tozé”.
Não é o único, também João “Taponas” se aproxima para deixar um comentário sobre o filho da terra. Até porque o “Tozé” é seu primo, “primo em segundo grau, mas primo mesmo assim”. Se bem que a eminente eleição faz João “Taponas” hesitar. “Agora que vai ser Presidente da República não sei se lhe vou continuar a chamar Tozé.”
Introduções feitas e histórias trocadas, José Albuquerque e Francisco Abreu entusiasmam-se quando o tema de conversa passa para os alojamentos locais de António José Seguro em Penamacor. Todas as casas estão alinhadas na mesma rua, estreita e antiga. Umas têm paredes brancas, as outras paredes de granito – “tipicamente da beira baixa” com um estilo “serrano”.
As casas trazem muitos turistas à terra? “Trazem. Está sempre cheio. As casas levam uma quantidade enorme de gente – segundo dizem — eu nunca lá fui”, admite José Albuquerque, amigo do irmão de António José Seguro. Casas que deram um “trabalhão do caneco” na sua reparação: “Pensavam que isto era os Restauradores em Lisboa”. Agora terão de ser Francisco Abreu e José Albuquerque a explicar aos turistas que procurarem os alojamentos locais da Amarcor (empresa de António José Seguro).


Na terra de Seguro há quem tenha votado em Ventura
Mais de oito em cada dez votos em Penamacor foram para António José Seguro. Ou seja, é preciso procurar para encontrar eleitores de André Ventura, mas não assim tanto. É o caso de Álvaro Esteves Robalo Afonso, supostamente o líder da concelhia do PSD de Penamacor.
O site oficial dos sociais-democratas mostra que Álvaro Afonso foi eleito em 2018. Mas o (ainda) social-democrata conta uma história muito diferente, quando contactado pelo Observador. Atende o telemóvel surpreendido e recusa quaisquer responsabilidades políticas dentro do PSD. E é categórico: “Eu estou a tentar desfiliar-me do partido. O PSD em Penamacor implodiu. Luis Montenegro nem sabe onde fica Penamacor no mapa“.
A sede do PSD no concelho, insiste, está neste momento à venda, com cartazes da Remax (até porque, nas últimas eleições autárquicas o partido teve apenas 208 votos, num concelho onde a oposição é liderada por um movimento independente).
Apesar de ter as costas viradas para o partido, Álvaro Afonso sabe muito bem quem não quer para Presidente da República: António José Seguro. O socialista falhou ao tentar conquistar o voto de Álvaro Afonso, na primeira e na segunda volta, o que mostra que nenhum bastião é unânime. Por isso, votou mesmo em André Ventura, até porque só votaria num Seguro, mas o Luís e não o António José.
O Observador questionou também o presidente da comissão política do PSD de Castelo Branco sobre o desaparecimento do partido deste reduto socialista. Manuel Frexes, presidente da comissão e ex-autarca, admite que o “movimento independente canibalizou o PSD local”. No que toca às eleições autárquicas, o PSD “desapareceu” assume. “A sigla do partido já não conta assim tanto, são fenómenos típicos. Também há territórios onde o PS não existe, como Oeiras.”
É Manuel Frexes quem traça “uma certa ligação” entre Seguro e o PSD. “Temos pessoas da família dele em cargos partidários. Tenho respeito. Acho que é uma pessoa capacitada para ser Presidente da República. Até sinto algum agrado por ser da nossa região”, a região que, diz Manuel Frexes com um sorriso, “mais Presidentes da República e primeiros-ministros deu ao país” — curiosamente nenhum social-democrata — Ramalho Eanes, António José Seguro no Palácio de Belém e António Guterres e José Sócrates no Palácio de São Bento.

