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O terceiro mundismo: a doença senil do esquerdismo

Assimilado até à saturação o legado de Fanon e Said, deu-se atenção aos intelectuais que nos seus países prepararam a revolução anti-ocidental com bases apenas inteligíveis à luz do pensamento europeu

Miguel Morgado
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Nos tempos de grande transformação geopolítica que atravessamos é cada vez mais notória a importância das ideologias na interpretação dessas mudanças e no rumo que os povos, ou as suas lideranças, procuram dar-lhes. Desde o “eurasianismo” das cúpulas russas às radicalizações do islamismo sunita na formação da Al-Qaeda, do ISIS e subsequente sedução das populações jovens muçulmanas no Ocidente, as reorientações ideológicas têm estado no centro de acontecimentos e mudanças estruturais dos últimos anos. No Ocidente, as transformações têm sido fortemente partidarizadas, como se vê, à esquerda, na mobilização frenética anti-israelita em contraste com o silêncio desavergonhado diante da carnificina perpetrada pelo regime xiita iraniano cujas vítimas são incapazes de gerar qualquer vaga de “indignação”, “empatia” ou sequer “solidariedade”.

A tendência é para supor que as mudanças ideológicas mais “autênticas” são as que nascem nos contextos particulares das diferentes regiões do mundo. Depois da morte do comunismo marxista, e do desencanto com a democracia liberal, os povos “não-ocidentais” são aplaudidos pela esquerda ocidental quando finalmente se determinam pelas forças mais “autênticas” provenientes das raízes profundas das suas “identidades”. Daí que todos os dias sejamos espectadores involuntários das vénias indecorosas e apoio acéfalo das luminárias da esquerda ocidental aos nacionalismos mais fascistas e ao obscurantismo religioso mais totalitário – tudo movimentos em directa contradição com a longa história do que vagamente se chamam “valores da esquerda”, para nada dizer da pura e simples decência.

Contudo, não é difícil descortinar uma plataforma intelectual comum que une todos estes movimentos díspares e respectivos apoios políticos. Seja na Ásia, em África ou na América Latina, o que une todos os projectos políticos que, não obstante a sua disparidade, se mobilizam globalmente e recolhem todo o apoio da esquerda ocidental reside numa ideia ironicamente teorizada no Ocidente e avidamente apropriada por aqueles que foram os destinatários do seu poder nos séculos XIX e XX. Desde o seu início que esta longa procissão de assassinos, corruptos, genocidas, fanáticos e outras pessoas de semelhante gabarito, a par do aplauso ofensivo da esquerda entre nós, foi arregimentada pelo ressentimento anti-ocidental. O grosso das respostas políticas e realinhamentos geopolíticos dos últimos 70 anos são fruto desse ódio.

Não é um exagero dizer que a ideia que norteou, e norteia ainda, a mobilização política global contra o “imperialismo” do Ocidente nasceu no próprio Ocidente. A caracterização desse império, o elenco das suas vítimas e dos seus algozes, com a respectiva distribuição de culpas e absolvições, e a sua má-consciência, são todas apresentadas por teóricos de várias índoles radicados ou na tradição cristã latina, ou no racionalismo moderno ocidental. Por exemplo, a esquerda jamais removeria do seu subconsciente a tese dos marxistas Lenine e Rosa Luxemburgo, mas em grande medida antecipada pelo liberal J. A. Hobson, de que o imperialismo era uma espécie de último espasmo de um capitalismo mortalmente doente. Apesar de ser o seu último movimento, o imperialismo abria a escala da exploração ao teatro planetário dividindo o mundo já não em classes sociais exploradas e exploradoras, mas em povos opressores e oprimidos.

A influência das categorias e racionalidade ocidentais é notória nas obras dos que são habitualmente apontados como os grandes exportadores intelectuais de uma ideologia do ressentimento anti-ocidental com o correlativo projecto político de vingança por tantas iniquidades, que, neste imaginário, se convertem num absurdo monopólio do “europeu branco”. As nossas academias já trataram abundantemente os casos de Frantz Fanon e de Edward Said. Mas, depois de assimilado até à saturação o legado destas duas figuras, começou a dar-se mais atenção aos intelectuais que nos seus próprios países trataram de, por vezes com recursos intelectuais muitíssimo limitados, preparar a revolução anti-ocidental com bases apenas inteligíveis à luz da história do pensamento europeu. Depois do 11 de Setembro e da expressão geopolítica do radicalismo sunita, cresceu a atenção dada à obra de homens como Sayyid Qutb e de Hassan al-Banna, os intelectuais da Irmandade Muçulmana. Agora, talvez seja mais do que tempo de olhar para o Irão.

Perante a catástrofe em curso no Irão, vale a pena chamar a atenção para a influência que um relativamente desconhecido intelectual iraniano dos anos 50 e 60 do século passado teve na eclosão da horrível revolução islâmica xiita e sobretudo da sua justificação aos olhos do mundo. Jalal Al-i Ahmad foi o homem que divulgou a expressão “ocidentose” para descrever uma “praga” que se abatera sobre o mundo. Al-i Ahmad confessava que o equivalente espiritual da “tuberculose” fora sugerido por um seu mentor chamado Ahmad Fardid. Mas a paternidade da palavra era irrelevante. O que contava era que a “ocidentose”, tal como um vírus, tinha de ser extirpada. Recorrendo a autores europeus como Ernst Jünger e Karl Marx, Al-i Ahmad denunciava o imperialismo europeu (onde acabava por inscrever o império soviético comunista também) como um sistema político de opressão, por um lado, e de devastação cultural, por outro. Proclamava a necessidade de o Irão se associar nos seus próprios termos a uma luta épica contra o Ocidente. Era preciso abrir uma frente islâmica. É que o Islão proporcionava uma “identidade” densa à projecção de uma esfera civilizacional definida por uma relação de conflito mortal com os “Europeus”. Note-se que Al-i Ahmad se afastara na juventude da devoção religiosa e se mantivera sempre na órbita dos partidos esquerdistas iranianos nos tempos da monarquia. Mas a força da ideologia “ocidentofóbica” permitiu-lhe ver o papel do Islão segundo outras lentes. Era o Islão que enraizava a única força no mundo de resistência à “ocidentose”. Assim, mais do que “verdadeiro”, o Islão era um instrumento poderoso numa guerra até à morte. Lido avidamente pelo Aiatola Khomeni quando esteve no seu exílio iraquiano, Al-i Ahmad fornecia as razões para a devolução do Irão a uma via que só na aparência era autenticamente iraniana.

Apesar das suas pretensões, Al-i Ahmad tinha conhecimentos muito vagos de história, incluindo da história da “praga” a que ele declarara guerra e que via como a única fonte de corrupção do seu país. Nem sequer era particularmente versado na história do Islão, como religião ou como movimento político. Era conceptualmente inconsistente e eticamente dúplice. O que importava era constituir uma consciência e identidade políticas, apoiadas num nacionalismo vitimizado e numa religião de resistência. O repúdio que tal consciência produzia por tudo o que era Ocidental anunciava a catástrofe humana de 1979: o constitucionalismo, os direitos humanos, a liberdade, a igualdade entre os sexos, a discussão da autoridade religiosa, a economia social de mercado, a Universidade e a produção dos saberes – como é que tudo isto não era sintoma de “ocidentose”? Como negar mais tarde ao profeta sanguinário que tudo isso teria de ser extirpado? Quer os iranianos quisessem, quer não.

Em 1979, a “ocidentofobia” chegaria finalmente ao poder pelas mãos dos Aiatolas.