É Carnaval e é mesmo para levar a mal. Ou melhor dizendo, vai ser Carnaval e eu levo a mal não o Carnaval em si mesmo mas sim a estatização do Carnaval e essa espécie de síndroma António Silva que se abateu sobre os seus festejos. Vamos então ao síndroma António Silva. Sim, os desfiles de Carnaval tornaram-se nas décadas recentes uma versão revista e actualizada da frase António Silva n’ O Costa do Castelo sobre a paisagem que se avistava da sua janela: “Aqui é que deviam ter feito o Estoril!” E assim, ano após ano, vivemos na angústia sobre os efeitos da chuva, do vento e do frio nos festejos de um Carnaval feito a pensar que vivemos nos trópicos.
Este ano de 2026, por razões que a meteorologia, explica vamos ter várias celebrações carnavalescas anuladas. Santarém, Figueiró dos Vinhos, Leiria, Tomar, Vila de Rei são alguns dos locais para onde o cancelamento já foi anunciado. Noutras vilas e cidades será condicionado. Mas presumo que não se aprenderá nada e para o ano lá estaremos a ver gente enregelada a desfilar, imaginando que bom seria termos o Carnaval com as temperaturas do Verão ou ter feito aqui o Rio de Janeiro.
Mas para lá deste desfasamento em relação ao clima (quanto mais se fala de clima e da natureza mais se ignoram os seus condicionamentos), que já de si é constrangedor, o que dá que pensar é mesmo a estatização do Carnaval. Pode parecer estranho ter de lembrar isto mas há que frisar que o Carnaval já existia muito antes de os municípios portugueses tomarem em mãos a sua organização. O que começou por ser um apoio às iniciativas de associações e grupos recreativos, tornou-se uma crescente iniciativa-responsabilidade municipal. As autarquias pagam montagem de bancadas, iluminação, direitos de autor, animação musical, concepção de espectáculo, escolas de samba, lonas, o catering mais o website, enfim é um nunca mais acabar que pode ir de escassos milhares de euros às centenas de milhar como acontece em Sesimbra, cuja organização do Carnaval foi contratualizada pelo município sesimbrense a uma empresa pelo valor de 243.500,00 euros.
Recomendaria uma passagem pelo portal onde estão registados os contratos públicos. Mas como não quero contribuir para o pessimismo pátrio, mais a mais num dia de eleições, fiz eu mesma uma pesquisa que permite perceber melhor a responsabilidade orçamental e organizativa que os municípios portugueses assumem com a celebração do Carnaval, uma estatização que levou a que até as serpentinas e confettis se tenham tornado uma responsabilidade municipal. A câmara de Loulé, por exemplo, há anos que acha apropriado gastar em média, em cada Carnaval, 15 mil euros em serpentinas e confettis: mais precisamente 15.807,44 para o Carnaval de 2026; 33.596,00 para os carnavais de 2025 e 2024 E não se pense que o cancelamento do desfile num ano leva a que não se comprem serpentinas. Ou pelo menos assim parece, pois apesar de os desfiles de Carnaval em Loulé terem sido cancelados em 2021 e 2022 por causa da pandemia, as serpentinas e os confettis foram comprados na mesma: segundo o portal Base onde estão registados os contratos públicos, o município louletano adquiriu serpentinas e confettis para os carnavais desses anos no valor de 21.313,92 euros (o que já de si é muita folia com o dinheiro dos contribuintes, pois com o país a viver então de estado de emergência em estado de emergência, não se percebe que corsos carnavalescos antevia o município de Loulé que tivessem lugar). Mas passando à frente, pensariam os menos informados nesta matéria “das serpentinas e dos confettis pagos pelo contribuinte” que os mesmos poderiam ficar guardados à espera do Carnaval seguinte. Pelos vistos não podem porque no Carnaval de 2023, a câmara de Loulé até gastou mais que o habitual em serpentinas e confettis, nada mais, nada menos que 18.255,00 euros. Esta é, verdadeiramente falando, uma rubrica a que se aplica o popular deitar os foguetes e apanhar as canas pois as mesmas câmaras que compram serpentinas e confettis para serem lançados no Carnaval têm depois de tratar da limpeza dos mesmos confettis e serpentinas nas ruas onde eles foram espalhados.
A ideia de que é Carnaval ninguém leva a mal implica que tenhamos condescendência com os foliões mas não com o poder. Sim, eu levo a mal a estatização do Carnaval porque esse intervencionismo estatal, com a sua desmesura de meios, acabou a abafar uma iniciativa da sociedade. E sobretudo levo a mal por aquilo que essa estatização simboliza da actuação dum poder político que trocou as suas funções inalienáveis e fundamentais pelo estilo comissão de festas.
Ah, e também levo a mal porque nunca mais conseguirei olhar para um rolo de serpentinas ou para um pacote de papelinhos como se fossem apenas um rolo de serpentinas ou um saco de papelinhos!
PS. Onde estão aquelas pessoas que corriam, até este Fevereiro de 2026, para as televisões, rádios, jornais e redes sociais (desde que elas existem) para nos explicar que só defendem a construção das barragens as pessoas burras, insensíveis, ignorantes ou movidas por interesses obscuros? Passámos os últimos dias pendentes do estado das barragens, das descargas das barragens, da cota das barragens… e estranho não os ter encontrado explicando como teriam sidos estes dias caso não existissem barragens.