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Salvador Sobral sai do Spotify: "Prefiro dar um tiro no pé da minha carreira do que na cabeça de uma pessoa"

O vencedor da Eurovisão em 2017 abandonou a plataforma de streaming de música, numa ação de boicote, contra a exploração dos artistas, a inteligência artificial e a guerra.

Agência Lusa
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O músico Salvador Sobral retirou todos os álbuns da plataforma de streaming Spotify — “a que paga pior aos autores” e promove música criada por inteligência artificial — consciente de que a decisão pode ser prejudicial para a sua carreira.

“Motivos sobram” para Salvador Sobral ter tomado uma decisão que muita gente o avisou para não tomar e que tem consciência poder ser “um tiro no pé” na carreira, visto que “noventa e muito por cento” dos seus ouvintes estão no Spotify.

“Mas eu prefiro um tiro no pé da minha carreira do que um tiro na cabeça de uma pessoa, indiretamente ligado à minha música”, afirmou, em declarações à agência Lusa.

Na base de tudo está o facto de a plataforma “mais popular, mais conhecida do mundo e com mais subscritores” ser “a que pior paga aos autores”.

“Estamos a falar de 0,003 cêntimos [por audição], o que é absolutamente ridículo. Nós jogámos esse jogo da tirania, de que ninguém fala, e estávamos todos no Spotify contentes de anunciar o nosso ‘wrapped’, mas foram-se acumulando coisas”, referiu em declarações à Lusa.

O investimento feito pelo diretor executivo, e cofundador, da plataforma, Daniel Ek, na empresa europeia especializada em inteligência artificial de defesa Helsing e que, para o músico faz com que a música que lá está “esteja a financiar o negócio da morte”, foi outra das razões para decidir retirar os álbuns. “Eu não quero estar associado a isso”, disse.

O investimento de Daniel Ek na Helsing, feito através da empresa de captais de risco Prima Materia que o próprio fundou, levou também, por exemplo, os britânicos Massive Attack a retirarem todo catálogo da banda do Spotify em setembro do ano passado.

Ao investimento na Helsing, junta-se o facto de a plataforma ter passado anúncios de recrutamento do Serviço de Imigração e Alfândegas (ICE, na sigla em inglês) dos Estados Unidos, ouvidos por quem não subscreve o serviço de streaming.

“Estou a imaginar um adolescente perdido na vida a ouvir música que, de repente, ouve um anúncio ‘join ICE!’ [junta-te ao ICE], damos-te 75 mil euros anuais… não queria que a minha música estivesse associada à plataforma dessa maneira”, referiu.

O ICE tem conduzido operações anti-imigração violentas em várias cidades nos Estados Unidos, nomeadamente em Minneapolis, no estado do Minnesota, onde agentes daquela polícia mataram a tiro dois cidadãos norte-americanos no início deste ano.

A juntar a tudo isto há ainda as músicas criadas por inteligência artificial (IA).

“O Spotify não quer perder a oportunidade de estar dentro deste jogo e assinou contrato com grandes editoras para fazer parte deste negócio milionário. É curioso que o Spotify funciona em modo de retroalimentação, porque tem direitos de autor em músicas de IA. Se elas têm muitos plays, a plataforma acaba por pagar a si mesma com estes direitos. É uma coisa muito perversa”, defendeu.

Salvador Sobral alerta que o consumo de música gerada por IA “já está a acontecer no dia a dia”, sem que as pessoas se apercebam.

“Se ouvirmos uma playlist de descobertas semanais há uma grande probabilidade de ouvirmos música feita com IA, sem sermos avisados de nada. É um ato de resistência nosso, enquanto artistas, não querermos fazer parte desta tirania digital das playlists e da música feita com IA”, afirmou.

Pedir à plataforma que retirasse os álbuns que gravou em nome próprio “foi fácil” no caso de Excuse Me, o primeiro que editou, por ser o dono do master (gravação final masterizada).

Já retirar os outros, editados no âmbito de um contrato de licenciamento com uma editora discográfica, deu mais trabalho, mas desde a semana passada que quem quiser ouvir álbuns do músico português terá de recorrer a outras plataformas.

Além dos álbuns que editou a solo, Salvador Sobral tem também colaborações com outros artistas, que continuam disponíveis no Spotify, mas conseguiu que a irmã, Luísa Sobral, retirasse “Amar pelos dois”, tema com o qual Portugal venceu o Festival Eurovisão da Canção em 2017.

“Ainda há várias versões disponíveis, mas não a versão single. Gostava que não houvesse nenhuma, mas não posso controlar os outros contratos e as colaborações que fiz. Não posso obrigar as pessoas a tirar a música”, contou.

Quem quiser ouvir online as criações de Salvador Sobral a solo pode recorrer a outros serviços de streaming, nomeadamente à Qobuz, “a única plataforma ética e justa” que o músico encontrou.

“É aí que está a minha música. Também está na Apple Music, no YouTube — plataformas que não são isentas de culpabilidade —, mas tantas coisas ao mesmo tempo, todos estes fatores, não há outra que os reúna todos. E o Spotify é o que pior paga”, referiu.

Para Salvador Sobral aquela plataforma é “o primeiro inimigo a abater” e para isso, “gostava que mais gente se juntasse ao boicote”.

Em Portugal tem sentido “bastante empatia e compreensão” por parte de outros artistas, mas também “muito medo”, algo que considera “perfeitamente legítimo”.

“Há muitos artistas e colegas que me apoiam, mas que ainda não se sentem confiantes para tirar a música. Têm bastantes reservas e compreendo perfeitamente, é difícil”, admitiu.

Em Espanha, onde vive atualmente, mais especificamente na Catalunha, juntou-se ao movimento “Boicot a Spotify”, da qual fazem parte mais de 70 artistas espanhóis, que no final de janeiro anunciaram a retirada da sua música daquela plataforma.

“Tenho recebido mensagens de pessoas, ouvintes meus, a dizer ‘passei para o Qobuz’, e isso deixa-me feliz. Suponho que não faça mossa ao Spotify [a minha saída], mas não poderia viver comigo mesmo com a música naquela plataforma”, afirmou.

Nascido em Lisboa em 1989, Salvador Sobral editou o álbum de estreia, Excuse Me, em 2016. Em nome próprio, editou também os álbuns Paris, Lisboa (2019), BPM (2021) e Timbre (2023), e o EP Sal (2022), aos quais junta projetos nos quais participou com outros músicos, nomeadamente Alexander Search, Alma Nuestra, Noko Woi, que divide com Leonardo Aldrey, Sílvia Pérez Cruz e First Breath After Coma.