Natural de Monte Agudo, Joaquim Ferreira já não estava a viver naquela localidade de Leiria. Mas foi lá que decidiu regressar, vindo de França, onde residia, para ajudar o cunhado a reparar um telhado que, como tantos outros naquele município, tinha ficado danificado depois da passagem da depressão Kristin. O emigrante de 73 estava nesse telhado quando caiu. Foi levado para o hospital, onde o óbito acabou por ser declarado. Foi a 13.ª e mais recente vítima mortal relacionada com as sucessivas tempestades que passaram por Portugal.
“Subiu a um anexo onde estava um animal, para arranjar o telhado. (…) Veio vento forte, que levantou um painel. Atingiu-o na cabeça”, resumiu à Lusa o presidente da Junta de Freguesia da Ortigosa, Américo Coelho. Segundo a GNR, Joaquim foi levado para o Hospital de Santo André, em Leiria, em estado grave e paragem cardiorrespiratória, mas não foi possível reverter a situação do homem que residia em França, como adiantou o Diário de Leiria.
“A freguesia associa-se ao luto da família e de todos os que com ele privaram, prestando uma sentida homenagem à sua memória”, escreveu a Junta de Freguesia, realçando a destruição provocada pela “tempestade que recentemente afetou a nossa terra”.
De facto, as terras leirienses registaram não só maior grau de destruição, mas também mais vítimas mortais. Dos 13 mortos, nove ocorreram no distrito de Leiria. Apenas duas são mulheres (ambas estrangeiras). Se as primeiras mortes foram diretamente relacionadas com a depressão Kristin — esmagados por árvores ou por materiais que voaram — as mais recentes verificaram-se como consequência dos estragos. Um homem morreu intoxicado e outros cinco, como Joaquim, em quedas de telhados.
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A cronologia das vítimas mortais:
28 de janeiro – seis mortes
Foi das primeiras vítimas mortais a ser conhecida. O apelo para evitar deslocações durante a madrugada dessa quarta-feira tinha sido replicado — por autarquias e proteção civil — mas o homem com cerca de 45 anos, e origem asiática, não o conseguiu cumprir e saiu de casa, na Amadora, como habitual. Já estava em Vila Franca de Xira quando um cedro caiu em cima da carrinha vermelha que conduzia e acabou por morrer. O socorro foi rápido, mas o óbito acabou por ser declarado.
As horas seguintes confirmariam que a situação era bem mais crítica em Leiria, mais precisamente na povoação de Carvide, onde morreram duas pessoas. “Ela não estava presa a nenhum escombro. Levantámos a casa e tirámos a senhora. Verificou-se que estava em paragem cardiorrespiratória e iniciaram-se manobras de reanimação”, disse o segundo comandante dos Bombeiros, Tiago Constantino. A “senhora” era Helda Zeca Muianga, de 28 anos, natural de Maputo, Moçambique, que estava em Portugal há apenas 15 dias, confirmou o Observador junto de fonte policial.
Também em Carvide, perto da base aérea de Monte Real, onde foi registada uma rajada de 175,9 km/h, o telhado desabou em cima de dois homens, pai e filho, que tentavam conter um portão. “Era um grande portão, vieram para tentar conter e desabou para cima deles. A gente diz que não faz, mas na hora da verdade a gente faz”, disse um vizinho ao Observador. Fernando Teodósio sobreviveu, mas o filho Ricardo (também ele pai), de 39 anos, acabou por morrer.
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O dia traumático para os municípios do distrito de Leiria — tanto o próprio município de Leiria como o da Marinha Grande — só terminou depois de serem decretados outros dois óbitos. Um homem, de 59 anos, estaria a trabalhar num parque fotovoltaico em Fonte de Oleiro, quando entrou em paragem cardiorrespiratória. A última morte desse dia no distrito foi confirmada pela autarquia da Marinha Grande: tratava-se de um homem de 34 anos.
A sexta morte do dia em que a região Centro acordou devastada pelo temporal foi apenas a segunda a não ocorrer em Leiria. Em comum com a outra (do distribuidor de pão asiático) tem o facto de também não ter sido uma pessoa de nacionalidade portuguesa.
Trata-se de uma mulher holandesa de 85 anos que foi arrastada por um curso de água que transbordou com a chuva. O alerta foi recebido pelas equipas de socorro a dar conta de uma mulher a precisar de socorro depois de ter tido um acidente. Começaram as buscas assim que chegaram ao local, mas o carro só foi localizado três horas e meia depois, com a vítima mortal no interior. A mulher ainda terá contactado o marido “a dizer que tinha tido um acidente e que estava dentro do carro a ser arrastado no ribeiro” e este ligou para o 112, tendo sido enviados para o local meios dos corpos bombeiros e da GNR, com apoio de mergulhadores e uma embarcação, revelou fonte da Proteção Civil à agência Lusa.
31 de janeiro – duas mortes
Três dias depois da madrugada fatídica que destruiu a zona Centro, quando a mesma região e os seus habitantes se procuravam reerguer, a morte voltou a ser notícia. O vento levou as telhas de muitas casas e deixou os seus habitantes expostos à chuva que quase não parou. Para dar alguma condição às casas destruídas, quem circulava pelas ruas ocupadas de árvores tombadas via homens a subir a escadas para arranjar (ou improvisar soluções) nos telhados.
A falta de segurança e as condições meteorológicas difíceis tornaram a missão (essencial para proteger as casas) complicada. “Percebemos a necessidade de proceder a reparações rápidas, principalmente tendo em conta as previsões para os próximos dias. No entanto, pedimos que estas intervenções sejam realizadas com todas as condições de segurança“, lê-se numa nota partilhada nas redes sociais da GNR.
https://observador.pt/especiais/a-queda-e-capaz-de-ser-feia-em-leiria-faltam-profissionais-e-muitos-reparam-telhados-apesar-do-perigo-de-queda/
Mas o aviso só chegou depois de serem conhecidas as primeiras mortes na sequência de quedas do telhado. Primeiro, um homem de 73 anos caiu do telhado que reparava na Batalha, revelaram à Lusa fontes da GNR, autarquia e Proteção Civil. “O homem faleceu na queda de um telhado” quando “estava a repor telhas”. “A casa tinha ficado sem telhas”, disse o presidente da Câmara da Batalha, André Sousa.
Horas depois, a GNR confirmou a morte de um homem de 66 anos nas mesmas circunstâncias, em Alcobaça. “Quando chegámos ao local, estava em paragem cardiorrespiratória e foi declarado o óbito pela VMER [viatura médica de emergência e reanimação] das Caldas da Rainha”, explicou o comandante dos Bombeiros Voluntários de Alcobaça, Leandro Domingos, também à Lusa.
1 de fevereiro – uma morte
Um dia depois dessas duas mortes, a ameaça foi outra. Na madrugada desse domingo, um homem de 74 anos morreu intoxicado com monóxido de carbono com origem num gerador. Mais uma vez, o aviso chegou depois: “Coloque geradores exclusivamente no exterior, em locais bem ventilados, nunca no interior das habitações, garagens ou espaços fechados; assegure que equipamentos a combustível estão desligados antes de qualquer reabastecimento”.
No mesmo dia, o Hospital de Santo André revelou que na sequência da depressão Kristin tinham dado entrada nessa unidade hospitalar outras 15 pessoas pelo mesmo motivo, tendo como origem o uso de geradores no interior de habitações, caves ou garagens.
2 de fevereiro – uma morte
Esta segunda-feira, Rui Cerejo tornou-se na terceira morte na sequência de quedas de telhados. “Nascido a 3 de agosto de 1962, desde cedo envolveu-se nos negócios da família e, juntamente com o seu pai e irmão, ajudou a criar a Herdade Fonte Paredes”, escreveu a própria herdade, a lamentar a morte do empresário de 63 anos, um dos sócios-gerentes da empresa de vinhos J.S. Cerejo e Filhos &, Lda., segundo o jornal Portomosense.
Rui estava a reparar o telhado de um armazém quando caiu. O alerta para o acidente foi registado às 16h50. O empresário deixa dois filhos. “O Rui foi alguém que marcou a nossa comunidade. Presença assídua no Grupo Desportivo do Tojal, esteve sempre disponível para ajudar, apoiar e contribuir, demonstrando um enorme sentido de compromisso, generosidade e dedicação à nossa terra e às nossas pessoas. Endereçamos à família, amigos e a todos os que com ele privaram as nossas mais sinceras condolências. Que encontrem força neste momento de dor e conforto na lembrança de quem o Rui foi”, escreveu o Grupo Desportivo do Tojal no Facebook.
4 de fevereiro – duas mortes
Volvidos dois dias, morreram outras duas pessoas, nenhuma delas em Leiria. Nuno Paixão, também empresário, estava a tentar atravessar uma estrada junto a uma barragem em Serpa. Segundo o Correio da Manhã, o homem de 6o anos tinha vendido um negócio em Lisboa para cumprir o sonho de abrir um empreendimento de turismo rural no Alentejo. O automóvel onde seguia a vítima foi arrastado e ficou submerso. De acordo com uma fonte da Proteção Civil, o corpo foi resgatado do interior do veículo e “transportado para uma ambulância dos bombeiros de Serpa”. “Foram desenvolvidas buscas para ver se havia mais alguma vítima no interior do carro e não há mais ninguém”, disse a mesma fonte à Lusa.
No mesmo dia, um homem de 72 anos morreu depois de ter caído do telhado da sua habitação que estava a reparar, em Palhais, no concelho da Sertã. Segundo a GNR, o alerta foi dado às 14h04 de quarta-feira.
5 de fevereiro – uma morte
Na última quinta-feira registou-se a mais recente morte na sequência do comboio de tempestades que tem afetado Portugal nos últimos dias. Trata-se, como já referido, do emigrante Joaquim Ferreira, de 73 anos.

Proteção Civil reconhece 11 mortes
Os números oficiais da Proteção Civil apontam para 11 mortes relacionadas com as tempestades Kristin e Leonardo. Esta sexta-feira, no ponto de situação diário, o comandante nacional explicou que oficialmente estão contabilizadas 11 mortes, apesar de as contas totais apontarem para 13 vítimas mortais desde a semana passada.
Apesar de Portugal já ter ultrapassado um momento bastante crítico, com a depressão Kristin, não há luz ao fundo do túnel quanto às tréguas das condições meteorológicas, que continuarão complexas nos próximos dias — o que pode elevar o número de vítimas mortais, feridos e deslocados.
Mário Silvestre, comandante nacional da ANEPC, alertou que “Portugal será assolado” por precipitação e ventos fortes no sábado (entre as 6h e as 15h) — com rajadas que podem ter entre 100 e 150 km/h. Além disso, o território continental poderá contar com queda de neve e forte agitação marítima. Este quadro, acrescentou, é “extremamente preocupante” porque grande parte da precipitação deverá ocorrer entre Leiria e o Algarve, afetando as zonas da região Centro já devastadas pela depressão Kristin. A Proteção Civil pediu aos cidadãos para “redobrarem os cuidados” para os ventos fortes. “Temos a registar 1108 pessoas deslocadas” e, quanto à eletricidade, 93 mil clientes por alimentar, — 74 mil na zona afetada pela depressão Kristin, sendo que 49 mil são apenas de Leiria.
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