Não há desnível entre a casa de Alexandra Cardoso, 51 anos, e o Rio Tejo. Alexandra, que vive na aldeia de Ponte do Reguengo, no município do Cartaxo, distrito de Santarém, há vinte e cinco anos, conversa com a água pelos joelhos, enquanto caminha por aquilo que há menos de uma semana foi a sua sala de estar. A mobília está nesta sexta-feira do lado de fora da casa, no que era antes considerado o quintal.
A família perdeu, nesta inundação, também as camas, os móveis da sala e os da cozinha. Mas não perdeu o sorriso, este que Alexandra faz questão de esboçar em frente à casa. A trabalhadora rural fala com tanta naturalidade sobre a situação, que faz quase acreditar que aquele é mais um dia normal na aldeia de Ponte do Reguengo, e que tudo sempre foi assim. Mas ela admite que, apesar de já ter visto a água cobrir os seus pés dentro de casa noutras situações, “não esperava” que desta vez lhe chegasse aos joelhos.
No colo de António Mira, 79 anos, o cão Becas está molhado e treme. Mas António, pai de Alexandra, não o larga. “Quem está lá em cima é que manda”, diz, ao referir a crença religiosa como o motivo da sua resiliência e força para permanecer a sorrir, mesmo com metade da casa em que vive há 57 anos debaixo de água. “Aquela gente lá do outro lado está pior que a gente”, diz, apontando as aldeias próximas, neste momento acessíveis apenas por barco, pois as estradas e pontes estão completamente cobertas pela cheia do Tejo.

Entre quarta-feira e esta sexta, pescadores locais estimam que o rio tenha subido dois metros acima do nível habitual naquela aldeia ribeirinha. Próximos da casa de Alexandra, estavam o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e o presidente da Câmara do Cartaxo, João Heitor. A presença das autoridades parece indiferente a Alexandra e à sua família, que reúnem alguns bens enquanto se preparam para passar a noite na casa de parentes. O chefe de Estado percorreu de barco, acompanhado pelos bombeiros do Cartaxo, as aldeias de Valada, Reguengo de Valada, Porto de Muge e Palhota, onde desde quarta-feira cerca de 600 pessoas estão isoladas.

Muitas cidades afetadas pelas tempestades, a Kristin primeiro e depois a Leonardo, fecharam as escolas na última semana, mas a professora Beatriz Abade, 26 anos, saiu no domingo de Valada para dormir na casa de familiares em Santarém, prevendo o agravamento da situação. De quarta a sexta-feira da semana passada, esteve sem eletricidade em casa. Não queria deixar de dar as aulas aos alunos, em Lisboa. Se não tivesse saído naquela altura, estaria neste momento, com a família, isolada na terra. “Os acessos são péssimos e super degradados“, refere, ao explicar que quer garantir sempre que sai de casa em segurança.
A casa em que vivem não foi danificada neste ano, há acesso à água, eletricidade e internet, mas a situação já foi muito mais grave. O Arquivo Histórico da Força Aérea reconhece como “as maiores cheias do século” as que ocorreram no Vale do Tejo em 1979, ao deixar Lisboa sem água e ao causar o encerramento temporário da rede de expressos e da rede ferroviária.
Foi “precisamente” na casa de Beatriz que um dique rebentou em 1979, facto que é relembrado pelos moradores locais como a pior situação vista até então. Naquele ano, as mulheres e crianças de toda a família da professora foram resgatadas dos imóveis ribeirinhos de helicóptero. “Os homens ficaram a tomar conta das casas e dos animais”. Os moradores de Valada, assim como os de Ponte do Reguengo, estão “habituados” às cheias, diz. Quarenta e sete anos após a cheia que marcou a memória da região, lá permanecem, para proteger, mais uma vez, os pertences e os animais no caso de um novo aumento do nível do rio.

Na outra margem do Tejo, o “planeamento” do que fazer caso o rio tome conta do terreno da família está a ser feito pelo agrotécnico José Rato, vizinho de Alexandra. Assim como António, reconhece que a situação na outra margem devido ao isolamento é ainda mais grave. Na madrugada de sexta-feira acordou a cada hora para agir no caso de uma possível subida das águas. Paus de madeira e galhos longos são o “medidor de nível”. “Tenho tudo preparado [para uma emergência]. Coloco todas as coisas no primeiro piso de casa, sobre as mesas e andaimes. Em último recurso, temos o barco [para escapar]”. No verão, a embarcação é usada para pesca desportiva e passeios pelo Tejo. Mas, em 1979, foi indispensável para levar “pão, médico e padre” às aldeias isoladas e ajudar vizinhos a carregar o que sobrou dos seus bens.
Há uma semana e meia, José não trabalha — e também não recebe. A empresa de exportações agrícolas da qual ele é empregado está tomada pela água. “Temos de ‘nos governar’ com o que temos e aguentar”, resiste, ao lembrar que noutras cheias, o Tejo naquela zona chegou a levar um mês e meio para voltar ao nível habitual. “Subíamos às partes mais altas com o que nos restava, assávamos umas febras e bebíamos um copo de vinho. Mesmo que as nossas casas estivessem debaixo de água, era assim que levávamos”, lembra. “Obviamente temos medo, apesar de relativamente calmos e tranquilos por já estarmos habituados”.

O mesmo barco que levou as autoridades para as aldeias isoladas serve também para levar doações, destinadas às pessoas carenciadas e isoladas do acesso aos supermercados. Os voluntários comentam entre si terem “perdido as contas” de quantas viagens foram feitas nesta sexta-feira para o transporte de comida e medicamentos. Pessoas pedem aos bombeiros para que entreguem sacos com água engarrafada e outros alimentos para os familiares que estão ali isolados. Uma senhora, que não quis identificar-se, levou um destes sacos. De seguida, perguntou a um dos militares se poderia apanhar o barco no dia a seguir para visitar o neto. Mas, com a incerteza de como será realizada a operação este sábado — e ao considerar prioridades na operação, como é o caso do transporte de alimentos, ou a própria segurança da navegação — ainda não se sabe quando se dará o reencontro entre avó e neto.

Naquela localização, ao pôr do sol, o termómetro indica que estão 10 graus, com a sensação térmica de 8. O mapa digital Flood Hub alerta que naquele momento o rio Tejo já estava acima do nível de perigo, e que “até ao sábado à noite espera-se que o nível aumente em comparação com o da noite de quinta”. A previsão meteorológica mais recente da Proteção Civil afirma que o sábado em Portugal continental será “extremamente preocupante”, mantendo o elevado risco de inundações. “No Rio Tejo, a barragem de Alcântara apresenta quotas de enchimento na casa dos 95%, o que significa que poderá haver descargas mais significativas e, com isto, aumentar a problemática das cheias neste curso de água”, disse o comandante nacional.
Alexandra verá se a água ainda lhe passa dos joelhos. E se mantém o sorriso.

