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(A) :: Satélite, geradores, unidades móveis, gestão de espectro. Como as comunicações tentam repor a rede depois de "destruição sem precedentes"

Satélite, geradores, unidades móveis, gestão de espectro. Como as comunicações tentam repor a rede depois de "destruição sem precedentes"

O setor das telecomunicações diz que a destruição na rede teve níveis nunca vistos. No terreno tentam repô-la mas há dificuldades de acesso -- é preciso construção -- e falta de rede elétrica.

Alexandra Machado
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“Uma destruição sem precedentes”. Foi assim que as operadoras de telecomunicações caracterizaram a situação provocada pela depressão Kristen, que arrancou estruturas físicas e provocou novo apagão nas comunicações em algumas zonas do país. Apagão que ainda é sentido em alguns clientes, 10 dias depois dos ventos que chegaram perto dos 200 quilómetros por hora em particular na região de Leiria.

Na madrugada de 28 de janeiro “a tempestade Kristin teve um impacto devastador nas infraestruturas de comunicações, afetando quase a totalidade das estações móveis instaladas nos concelhos onde foi decretado o estado de calamidade”, aponta ao Observador fonte oficial da Nos, assumindo que essas estações afetadas representavam 10% da totalidade da rede, garantindo que, “desde esse momento, o serviço tem vindo a ser progressivamente recuperado”. A Nos indica que cerca de 70% das estações móveis inicialmente afetadas estão já novamente operacionais. A Meo contabiliza em mais de 70% os clientes com serviço nas zonas especialmente afetadas.

Fonte oficial da operadora detida pela Altice reforça o trabalho de pôr já essa percentagem de rede em pé pelo facto de “a violência da depressão Kristin ter deixado milhares de infraestruturas danificadas: 2.000 quilómetros de cabo de fibra, mais de 28 mil postes e 35 mil torres de rede móvel”. E, neste momento, a Meo continua a ter 139 estações da rede móvel inoperacionais “devido à falta de energia elétrica”.

No caso da Vodafone, que não dá números mas diz reportá-los às entidades competentes, aponta para a reativação da rede móvel, “a mais penalizada” em “todos os concelhos inicialmente afetados, embora, em alguns casos, de forma parcial e sujeita a instabilidade”. Explica, por exemplo que em Ferreira do Zêzere e Vila de Rei “o serviço continua a apresentar um grau de degradação elevado”.

No conjunto do setor, a Anacom, em dados divulgados ao Observador na sexta-feira, indica que, ao final do dia de quinta-feira, “continuam sem comunicações cerca de  170 mil utilizadores de redes móveis, nos locais afetados”, já que continuam “centenas de cell sites inoperacionais, cerca de 40%”, “não obstante todos os esforços empregues pelos operadores nos trabalhos de recuperação”, aponta fonte oficial.

O que aconteceu às redes?

A força da tempestade afetou não apenas a rede móvel como também a fixa, tendo acontecido também impacto no SIRESP (rede do Estado para os serviços de emergência). Postes e torres com antenas caíram e cabos de transmissão foram cortados. A situação não se conseguia resolver remotamente.

A evolução das redes também torna as infraestruturas mais suscetíveis num evento desta natureza. O “velho” cobre já foi substituído por fibra e micro-ondas. As redes móveis estão por todo o lado. E é isso que os clientes querem. Redes digitais com cada vez maior capacidade e serviços assentes em complexas redes que exigem muitas estações base (vulgo antenas) e muito investimento que, por outro lado, para ser eficiente acaba partilhado pelos operadores, deixando também por isso de permitir redundâncias maiores. Se uma torre que alberga os três operadores vai abaixo não há alternativa.

Com a rede de transmissão (que liga  antenas móveis) afetada, as comunicações ficaram cortadas. As três principais operadoras assumem ao Observador danos quer nas redes móveis quer nas fixas. Destruição de torres e antenas e cortes de fibra foi o cenário com que as empresas se depararam no dia 28 de janeiro, a que se somou a falha da própria rede de eletricidade. E sem esta não há comunicações. Se há sites e componentes de rede com geradores e baterias, em muitos locais o estrago foi além da ligação elétrica, mas é aqui que os operadores indicam residir ainda parte do problema para fazer chegar as comunicações a todos os clientes.

“A passagem da depressão Kristin causou danos muito relevantes em infraestruturas das redes móvel e fixa da Vodafone, com maior incidência em distritos da zona Centro – Leiria, Coimbra e Castelo Branco. Esta situação foi (e continua a ser) agravada por falhas prolongadas no fornecimento de energia elétrica, que é essencial para o funcionamento destas infraestruturas”, salienta a operadora liderada por Luís Lopes.

Também a Nos indica que “a queda da rede deveu-se a condições meteorológicas extremas, com rajadas de vento excecionais, em vários casos superiores a 140 km/h, as mais intensas desde que há registo. Estas condições provocaram danos severos nas infraestruturas de comunicações e, de forma determinante, falhas prolongadas e generalizadas no fornecimento de energia elétrica, elemento essencial para o funcionamento das redes de telecomunicações” e esta situação “não corresponde a uma falha de energia convencional: registou-se destruição direta e extensa da própria infraestrutura elétrica, o que limitou significativamente a capacidade de manter as redes operacionais, mesmo com recurso a soluções de contingência”. A Nos diz mesmo que mais de metade dos sites móveis da região que ainda estão inoperacionais deve-se à falta de energia. E a Meo contabiliza 139 estações da rede móvel ainda inoperacionais “devido à falta de energia elétrica”, problema que afetará igualmente os clientes nas suas casas.

A Anacom acrescenta que ainda existem problemas de falta de energia e, “apesar de ter sido restabelecido o fornecimento de energia elétrica em vários locais, os operadores têm-se deparado com instabilidade neste fornecimento gerando situações de alguma intermitência”. O regulador setorial fala ainda da “destruição significativa de estruturas de grande porte”.

Foi também a dificuldade da E-Redes que viu vários dos seus postos de transformação no chão. A E-Redes contabilizava, no final de sexta-feira, 69 mil clientes sem eletricidade, 61 mil dos quais devido à Kristin. É que a seguir à depressão que arrasou a região centro seguiram-se outros eventos climatéricos, como a depressão Leonardo que dificultaram a recuperação das redes (elétrica e de comunicações).

https://observador.pt/2026/02/04/do-governo-as-operadoras-de-telecomunicacoes-as-varias-criticas-e-recados-de-marcelo-na-resposta-do-pais-ao-mau-tempo/

Porque está a demorar a recuperação?

Os relatos são, tal como sucede com a E-Redes, de dificuldades no terreno. Não obstante estarem “mobilizados mais de 3.000 profissionais, que permanecem no terreno desde o primeiro momento, num esforço ininterrupto, muitas vezes em condições de risco de segurança”, apontou a Apritel, a associação que representa os operadores, num comunicado feito em resposta às críticas do Presidente da República. No terreno, Marcelo Rebelo de Sousa declarou que estas empresas se tinham “portado mal” e que “não podemos ter tanto tempo [para] a reposição da normalidade da telecomunicação”.

Palavras que o setor recebeu com desagrado considerando-as “injustas e desajustadas e não reconhecendo a dimensão do esforço extraordinário que está a ser desenvolvido no terreno, nem a complexidade e o risco associados a estas operações”.

A Anacom indica que “a reposição dos traçados de cabos fibra ótica é feita muitas vezes instalando, provisoriamente, estes cabos junto ao solo e numa situação de maior vulnerabilidade. Tem acontecido que devido ao facto de várias entidades estarem a trabalhar no terreno, acabam por danificar esses cabos, voltando a danificar equipamentos que já estavam reparados e regressando novamente à ausência de serviço”. Por outro lado, houve “a destruição significativa de estruturas de grande porte, incluindo torres metálicas autosuportadas, cuja recuperação/reconstrução se prevê mais demorada”.

As operadoras confirmam que a ação no terreno não tem sido fácil. A Nos garante que “os trabalhos de reposição, quer da rede móvel como fixa, têm sido fortemente condicionados por diversos fatores operacionais”. E dá como exemplos de condicionantes as “falhas prolongadas no fornecimento de energia elétrica em várias zonas, com impacto direto na operação da rede; as limitações no acesso a zonas com maior grau de destruição; os cortes e condicionamentos das vias; as exigências de segurança, que obrigam a validações prévias e atuação coordenada antes de qualquer intervenção; a ocorrência de novos danos após reposições iniciais, exigindo intervenções repetidas; e as condições meteorológicas adversas persistentes”.

É um diagnóstico partilhado pelos operadores concorrentes. A Meo fala na exigência de “uma operação técnica altamente coordenada e permanente”, com início no restabelecimento do abastecimento elétrico aos sites da rede móvel, “condição essencial para que cada estação retome a emissão e recupere a sua capacidade operacional plena”. Na rede fixa, os sistemas de backup de longa duração nas centrais “têm assegurado estabilidade e continuidade de serviço, permitindo mitigar os efeitos das falhas de energia até à reposição das condições normais”. “A recuperação total das comunicações depende também da reposição de energia nas instalações dos clientes, condição indispensável para que os equipamentos da rede fixa voltem a operar e para que famílias e empresas recuperem plenamente o acesso às suas ligações essenciais”.

“Pela dispersão dos ativos no território a que se junta a dificuldade de acesso e a necessidade de condições de segurança para realização de trabalhos em altura, é natural que a reposição integral da rede móvel crie mais dificuldades”, aponta a Vodafone, assumindo, no caso da rede fixa, que 100% dos central offices afetados já foram recuperados, no entanto também aqui “a reposição integral desta rede depende da reparação dos cortes de fibra registados durante a intempérie e do restabelecimento do fornecimento de eletricidade – designadamente, neste caso, até à habitação/instalação dos clientes”, trabalhos “exigentes e sujeitos a algum grau de incerteza, dependendo das condições de acesso, da segurança das equipas no terreno, da disponibilidade de energia elétrica e da evolução das condições meteorológicas”.

Por isso nenhum dos operadores arrisca uma previsão para o completo restabelecimento das redes, até porque o tempo adverso continua e ainda vai manter-se, agora com a chegada da depressão Marta. Muito do trabalho no terreno carece acesso a locais que neste momento não estão transitáveis.

https://observador.pt/especiais/as-redes-de-comunicacoes-moveis-falharam-o-que-aconteceu-e-podia-ser-evitado/

Como reagiram? Não há redundâncias?

Já no apagão, as críticas às operadoras de telecomunicações se fizeram sentir, muito porque as redes foram, gradualmente, abaixo (não na totalidade), à medida que as baterias que alimentam autonomamente os sites foram acabando. Por causa disso, a Anacom admitiu que no futuro possa haver exigência e até definição de tempos mínimos de autonomia por antena, mas ainda nada está decidido. Os operadores vão alertando para os custos de se criar uma imposição para todas as antenas — cada operador tem cerca de seis mil estações base (BTS, a principal componente da rede móvel, onde estão os diversos equipamentos e antenas instalados nas torres móveis. Estas são, no caso da Meo e da Nos, detidas pela Cellnex; a Vodafone tem as suas torres móveis, mas há partilha destas estruturas pelos operadores).

Depois de ter sido a empresa a falhar mais cedo no apagão, a Vodafone reforçou os investimentos na autonomia elétrica das suas BTS. “Na sequência do apagão de 28 de abril de 2025, a Vodafone não esperou pelas recomendações das autoridades e autorizou um investimento de vários milhões de euros para reforçar a resiliência energética da rede, focando-se na instalação de geradores, baterias e comunicação via satélite em pontos estratégicos. Este investimento estava em curso – e continuará – e contribuiu para que o impacto negativo deste evento meteorológico não fosse maior”, realça ao Observador.

A Anacom tem trabalhado para "garantir que, no contexto atual, todas as solicitações dos operadores e de outras entidades a nível de atribuição temporária de espectro são satisfeitas com rapidez."
Sandra Maximiano, presidente da Anacom

Mas no evento climatérico deste início do ano não chegou. As empresas assumem ao Observador que tomaram várias medidas para mitigar o impacto. A Meo garante ter mobilizado meios alternativos de emergência incluindo VOIR (Viaturas de Operações de Intervenção Rápida), ter instalado grupos geradores de energia para alimentar estações móveis prioritárias, ter usado estações móveis transportáveis e/ou ligeiras para reposição de rede móvel em locais selecionados (cellsites), ter utilizado soluções via satélite e feixes hertzianos para recuperação de infraestruturas fixas e móveis “e como solução de contingência para serviços prioritários”. Estas soluções, diz, “permitem ativar capacidade para zonas de difícil acesso e acelerar a recuperação das comunicações em áreas severamente afetadas, garantindo supremacia operacional no terreno e restabelecendo rapidamente a integridade das ligações críticas”.

Também a Nos ativou “todas as soluções de contingência disponíveis”, como a conectividade por satélite, a instalação de geradores — “cuja operação exige abastecimento diário realizado por técnicos da Nos, muitas vezes em contextos adversos e de risco –, a mobilização de unidades móveis — “cuja relocalização à medida que o serviço é reposto, envolve operações logísticas complexas, devido à sua dimensão e às exigências de transporte e instalação” — e a instalação de unidades móveis dedicadas ao suporte das comunicações dos operacionais da Proteção Civil no terreno, bem como postos de carregamento de energia em locais estratégicos, “com o objetivo de apoiar as populações locais”.

A Vodafone indica, por seu lado, que “deslocou estações-base móveis para locais estratégicos e em articulação com a Proteção Civil, destinadas à reposição e aumento de cobertura, e reforçou a autonomia energética de vários sites móveis com a instalação adicional de geradores. Foram ainda mobilizados camiões itinerantes e bolhas de conectividade com autonomia energética – como as que se colocaram recentemente junto a estações base nas autoestradas A1, A8 e A17, para melhorar o acesso à rede móvel nestas vias de circulação”.

Para mitigar a situação, a Anacom propôs o recurso pelos operadores ao roaming nacional temporário, “na medida do que for viável”, para permitir que “os utilizadores possam aceder às redes dos outros operadores durante o período em que a falha subsista, garantindo a continuidade de serviço e mitigando o impacto da catástrofe”. A dificuldade neste caso é que muitas das estruturas que foram abaixo são partilhadas pelos operadores.

Por outro lado a redundância satélite ficou igualmente comprometida com a falha de energia. Os recetores dos operadores para a redundância satélite precisam de ligação à eletricidade, além de ter menor capacidade. Nesta situação climática houve a própria rede de transmissão — fibra e micro-ondas — a ter cortes. Para os utilizadores finais os serviços de satélite são, no entanto, uma alternativa às redes móveis e fixas.

https://observador.pt/2026/01/29/e-possivel-contornar-a-falta-de-comunicacoes-ligacao-a-satelites-por-telefones-normais-nao-existe-ainda-em-portugal-mas-ja-foi-testada/

Nestas soluções de recurso, a Anacom revelou ao Observador que tem trabalhado para “garantir que, no contexto atual, todas as solicitações dos operadores e de outras entidades a nível de atribuição temporária de espectro são satisfeitas com rapidez”, estando a dar prioridade aos pedidos de licenciamento temporário para as zonas afetadas. Por outro lado, e ainda que, “neste momento, não se anteveja escassez de espectro para redes privativas do serviço móvel terrestre, essenciais para permitir a comunicação das equipas no terreno e agilizar os procedimentos necessários à recuperação das infraestruturas, a Anacom tomará todas as medidas necessárias para proceder imediatamente à realocação de espectro para essas equipas, caso venha ser necessário”.

O regulador diz que, no entanto, cabe aos operadores adotarem medidas que garantam o funcionamento eficiente dos diferentes elementos de rede, tanto de rádio como de core.

No entanto, tem respondido às necessidades associadas “à reposição da rede de transporte de sinal de backbone, isto é, da rede central de transporte (Serviço Fixo) que interliga os principais elementos das redes dos operadores móveis, com vista ao restabelecimento de pontos prioritários de concentradores de comunicações, emitindo as respetivas autorizações em conformidade”.

De igual modo garante que “tem facilitado a utilização temporária de espectro de radiofrequências para a realização de ensaios técnicos e continuará a promover este tipo de utilizações. Estes ensaios, que são acompanhados pela Anacom, incluem, designadamente, a implementação de serviços de comunicações por satélite a partir de terminais móveis de uso corrente, os quais, no futuro, poderão assumir relevância em situações de catástrofe”.

O futuro na reconstrução e para os clientes finais

Como referido, o impacto não foi apenas na rede móvel. Também a rede fixa sofreu com a tempestade. A Nos, por exemplo, diz que, na rede fixa, já foi possível recuperar o serviço de cerca de 85% dos clientes. “O impacto da tempestade resultou num nível de destruição nunca antes registado, estimando-se a necessidade de substituir integralmente cerca de 15% dos cabos de fibra ótica na região”.

Assumindo que “a tempestade Kristin deixou um rasto de destruição significativo, afetando muitas infraestruturas e impondo condições particularmente adversas às equipas no terreno”, a Meo garante que “os trabalhos de recuperação e reposição das comunicações têm sido intensos e complexos, marcados por inúmeros desafios operacionais”.

Para facilitar a reposição de cabos, a Anacom recomenda à Meo que tem as condutas e postes por onde os outros operadores passam cabos que, nas zonas afetadas, agilize os prazos de resposta e simplifique os procedimentos para permitir a instalação mais célere de cabos. Uma recomendação estendida a outras entidades que tenham infraestruturas por onde seja possível a passagem de redes de comunicações eletrónicas.

No caso dos clientes finais, os operadores têm garantido que farão correções nas faturas, consoante o tempo de falha de serviços. A Lei das Comunicações Eletrónicas já impõe que a indisponibilidade por mais de 24 horas (consecutivas ou acumuladas) seja creditada na fatura e seja ressarcido pelos custos incorridos no reporte. Se a indisponibilidade dos serviços não imputável ao utilizador final se prolongar por um período superior a 15 dias, “o utilizador final terá o direito de resolver o contrato sem qualquer custo, se assim o pretender”.

Ainda assim, a Anacom quer mais e por isso propôs ao Governo que avance com medidas legislativas para que durante três meses os operadores: não suspendam o fornecimento dos serviços a utilizadores finais devido ao não pagamento de faturas; aceitem os pedidos de suspensão temporária de contratos apresentados pelos utilizadores finais, sem penalizações ou cláusulas adicionais; e promovam a celebração de um acordo de pagamentos de valores em dívida relativos ao fornecimento dos serviços, adequado aos rendimentos do utilizador final, e sem cobrança de juros de mora.