Numa expansão sem precedentes, com editoras formadas por ilustradores e escritores residentes que são os próprios donos, produção acelerada, livrarias da especialidade e programas temáticos que cobrem os infantes tanto com o eterno manto da fantasia quanto com banhos de realidade contemporânea — como a crise climática, que vão herdar brutalmente —, a chamada literatura infantil ou infanto-juvenil está a alargar os seus horizontes e modos de fazer, dando ao livro-objeto uma evidência que ele parece estar a perder diante dos dispositivos digitais em voga massiva junto de todas as idades.
Constitui, diria, o sector mais inovador e dinâmico da indústria editorial, tanto mais que a geração de talentosos artistas e escritores que se lhe dedica em grande parte tem ainda pela sua frente duas ou três décadas de atividade em velocidade de cruzeiro plenamente estabelecida e cada vez mais premiada em festivais internacionais, e com direitos de tradução adquiridos para um número crescente de países e línguas. Forçou — e não é de somenos — a própria imprensa a dar-lhe atenção e o espaço que raramente teve, ainda que a sua importância para a criação dos leitores do amanhã (até de jornais e revistas…) seja evidente e mereça ser atendida em contínuo. Fez até mais: atraiu ao exercício deste género ou subgénero literário quem suporíamos o mais distante dele, os académicos. Fantasmas, de Clara Rowland, é bom exemplo disso.
Tocando tema de excelência do universo infantil, o livro está carregado de referências diria eruditas das artes e das letras, como se tivesse feito emergir na professora de Literatura de 48 anos a criança — melhor, a jovem — que outrora foi, agora de bolsos e cabeça cheios do que entretanto viu e leu, de filmes a fotografias, de quadros a livros, muitos e variados livros, que projetam um “universo de aparições, ecos, estranhezas, fantasmagorias”. Não temos nas mãos — está fora de dúvida — um livro para miúdos de palmo e meio, mas apontado àqueloutros de metro e meio que, beneficiando de ambiente familiar propiciador (uma raridade em crescendo…), têm já algum contacto com a criação literária e artística; e o mesmo pode ser dito quanto às ilustrações de Madalena Mattoso, de 52 anos, cujas arquiteturas geometrizadas (em 2017 publicou O Livro dos Labirintos, premiado duplamente) e paisagens elaboradas, quase abstratas, se ajustam melhor a leitores de maior entendimento.

Título: “Fantasmas”
Texto: Clara Rowland
Ilustrações: Madalena Mattoso
Editora: Planeta Tangerina
Páginas: 160, capa-dura
Delimitando o âmbito etário a que Fantasmas se dirige, entenderemos melhor que se trata de obra concebida com nítida cautela e finalidade, justificando e esclarecendo os seus leitores do que entende por necessário num aparato final de notas explicativas, que a literatura infantil como género literário dispensa e desconhece. Clara Rowland arriscou dirigir-se a essa estreita faixa de jovens ilustrados, olhando-se ela própria — creio — diante dum espelho pessoal (“Espelhos” é precisamente a primeira secção do seu livro…) em que figuram as suas leituras e pequenas obsessões (João Guimarães Rosa sendo uma delas, seguramente), num estilo coloquial, de quase conversa, sem pedagogias de qualquer tipo ou tutela, sobretudo num discurso livre da afetação académica que tudo corrompe e destrói, pretendendo vivificar. Nesse sentido, poderá dizer-se, arriscando também, que se trata de um livro fundador duma abordagem a — chamemos-lhes assim — leitores de transição.
Com perfeita habilidade, a autora percorre figuras famosas da literatura para crianças, da Alice de Lewis Carroll à dupla Peter Pan e Capitão Gancho, do Pinóquio à Vicky do conto “Os sapatos vermelhos” de Andersen, para passar a Cortázar e Wilde, Poe e Kafka, Drummond e Shakespeare, etc., tudo entrelaçado a histórias pessoais ou imaginárias, a onça e o hipopótamo de Rosa, os gatos de Eliot e o cão de Pina, depois as fotografias de Vivian Maier como as de Helena Almeida (a admirável Pintura Habitada de 1976; pp. 138-39), e ainda os “fantasmas” dos primeiros filmes e quase no fim, para fechar com chave de ouro, a página sobre O estranho caso de Angélica, de Manoel de Oliveira (2011).
Curiosamente, Rowland publicou há pouco Assombrações. A inscrição do fantasma (Documenta, 264 pp., 20 €), em parceria com José Bértolo, apenas alguns meses depois de A Língua dos Filhos (Tinta da China, 368 pp., 18,90 €), duas coletâneas de ensaios que desdobram e percorrem os mesmos temas e autores. Lê-los conjuntamente para esta nota seria tarefa ideal e coerente, mas não se peça a quem isto escreve mais do que pode dar. Em todo o caso, que a novidade e originalidade de Fantasmas venha a receber prémios parece bastante previsível — e seria lúcido reconhecimento de que mais um passo adiante foi dado na literatura juvenil criada em Portugal.