(c) 2023 am|dev

(A) :: "O Último Bolo de Arroz de Lisboa". Projeto quer salvar os cafés tradicionais que estão a desaparecer da capital

"O Último Bolo de Arroz de Lisboa". Projeto quer salvar os cafés tradicionais que estão a desaparecer da capital

Em menos de um mês, o projeto já mapeou 283 cafés, padarias, pastelarias, leitarias e confeitarias tradicionais em Lisboa. Qualquer pessoa pode sugerir um estabelecimento que ainda sobreviva.

Carolina Sobral
text

Tudo começou com o fim da histórica Confeitaria Vitória, a pastelaria tradicional de fabrico próprio tão reconhecida pelas filas na altura do Natal para comprar o clássico bolo-rei, que fechou portas em outubro do ano passado para dar lugar, dois meses depois, a um Burger King. Os pedidos de ajuda surgiram e a associação Vizinhos de Lisboa chegou-se à frente com um projeto que vem mapear estes estabelecimentos na cidade de Lisboa, promovendo os negócios e a sua proteção.

“O Último Bolo de Arroz de Lisboa” nasceu a 11 de janeiro e, em menos de um mês, já registou mais de 280 cafés, padarias, pastelarias, leitarias e confeitarias tradicionais na capital portuguesa. Mas antes de lá chegar começaram por baixo, com foco apenas na freguesia de Arroios e com apenas 20 a 30 estabelecimentos mapeados: “Este projeto começou como uma iniciativa do nosso núcleo de Arroios e hoje já tem um âmbito de Lisboa. Começou em Arroios e hoje já tem toda a cidade”, afirmou Rui Martins, fundador da associação, em conversa com o Observador.

Avançaram com o projeto, fizeram uma publicação nas redes sociais e, pouco depois, a tendência que identificaram continuou a dar provas com o encerramento da Cister, a histórica confeitaria no Príncipe Real onde Eça de Queirós parava para uma bica, e com o risco de também fechar portas a Padaria de São Roque, na mesma zona da cidade. “Já desapareceram depois de nós começarmos o que quer dizer que nós de facto estamos infelizmente um bocadinho certos e que há um problema a acontecer no comércio tradicional”, acrescenta. Mas não é só dos sobreviventes que se faz este projeto: também estes encerramentos — silenciosos ou não — estão a ser assinalados no mapa, que já conta com “23 óbitos” de cafés que fecharam desde 2019.

Ao Observador, Rui Martins explica que “O Último Bolo de Arroz de Lisboa” é apenas um filtro que “permite ter alguma objetividade e identificar se aquele negócio é um comercio tradicional ou não é” através de um critério que não se apresenta como muito rígido: cafés, padarias, pastelarias, leitarias e confeitarias que são negócios familiares, com poucos empregados e cujos donos não têm mais do que um ou dois negócios. “Nós não queremos mapear redes. Nós não queremos Portela Café, embora possam vender bolo de arroz, não queremos Padaria Portuguesa, não queremos Pau de Canela. Queremos negócios de base local reconhecidos pelas pessoas como um polo identitário e de comunidade e não queremos um mapeamento de redes”, esclarece.

Tendo estes fatores claros, começam a mapear. Através das redes sociais ou da página oficial da associação convidam as pessoas que conhecem estabelecimentos tradicionais a enviar um email para geral@vizinhos.org com o nome do café, arruamento e n.º de porta. “Desde que abrimos o projeto recebemos diariamente um, dois, três ou até 10 novas pastelarias para acrescentarmos. É um projeto muito participado”. A outra forma é “a bater pé”. Os voluntários da associação, e o próprio Rui Martins, já percorreram Benfica, Alvalade e o Areeiro à procura destes cafés. “Depois vieram as chuvas” e tiveram de fazer uma pausa. Atualmente, o mapa apresenta uma área já bem demarcada destes cafés mas com zonas ainda em branco.

São essas zonas que, depois das chuvas passarem, o projeto vai perceber se a falta de cafés corresponde a um erro de dados ou ao fenómeno de desaparecimento destes negócios. “O mapa dá a entender que nas freguesias que estão muito habitadas e que não têm Alojamento Local ainda há comércio tradicional deste género e que nas freguesias mais turistificadas, aquelas mais perto do rio, o mapa mostra uma faixa à volta do rio que quase não tem comércio tradicional, que corresponde à zona mais intensamente devorada pela explosão do turismo em Lisboa”, descreve. Apesar de não ser turística, também a zona oriental da cidade apresenta um espaço em branco — mas este ainda será revisto a pé. “Nas últimas semanas temos recebido muitas sugestões da zona de Belém e de Campo de Ourique”, acrescenta, afirmando ainda que raramente recebem sugestões duplicadas.

O objetivo do “O Último Bolo de Arroz de Lisboa” é ter o mapa consolidado até ao final de fevereiro para depois terem dados suficientes para poderem produzir um diagnóstico, e uma proposta através do mesmo: “Uma coisa que falta muito nas decisões sobre a cidade hoje em dia são decisões baseadas em dados. A Câmara Municipal de Lisboa devia ter, por exemplo, um sistema de monitorização permanente quase em tempo real para ver o que é que está a acontecer no tecido comercial em Lisboa e poder agir logo que há uma red flag sobre um negócio”, sugere. No fim do levantamento, “O Último Bolo de Arroz de Lisboa”  pretende ainda falar com proprietários dos estabelecimentos e recolher junto dos mesmos aquilo que se pode fazer para tentar salvar estes negócios, que, na visão de Rui Martins, tendem a encerrar por dois motivos: mudança geracional, na qual o dono morre e o negócio passa para os herdeiros, e a gestão imobiliária, com “os preços especulativos absurdos que se cobram em Lisboa e que afetam também o mercado do arrendamento comercial”.

Quanto à pergunta que não quer calar: Porquê o bolo de arroz para representar os cafés tradicionais? O fundador da associação explicou que, apesar de terem pensado noutro bolos, o bolo de arroz foi o grande eleito por não ser “turistificado” e por ser um “bolo simples, despretensioso, que tem memória, que já existe há muito tempo” e “não ser muito consumido pelas pessoas estrangeiras, não é tipo pastel de nata”.

“O Último Bolo de Arroz de Lisboa tem a função de preservar a memória e a identidade de Lisboa, porque é aqui que está a comunidade, os espaços de proximidade. Contaram-me ontem um caso de um senhor que ia sempre tomar café àquele sítio em Arroios e houve um dia que não foi. No dia seguinte não apareceu e no outro também não. Ao terceiro dia, um vizinho que não o via naquele café há muito tempo foi bater à porta e estava o senhor caído no chão com a perna partida. Estava lá há dois ou três dias, alguma coisa assim. Portanto, este tipo de coisa é um papel que cumprem estes cafés”, defende Rui Martins.

Descubra aqui quais os mais de 280 estabelecimentos que “O Último Bolo de Arroz de Lisboa” já registou: