“A cada três horas e vinte e cinco minutos, no México, uma mulher morre esquartejada, asfixiada, violada, espancada, queimada viva, mutilada, esfaqueada, com os ossos partidos e a pele roxa.” No México, matam sete mulheres todos os dias. No México, “ser mulher é um estado de emergência”.
A informação é-nos atirada sem dó nem piedade, da mesma forma que, todos os dias, o corpo de uma mulher — de “uma mulher qualquer, uma mulher sem nome” — é descartado numa esquina ou num canal de uma cidade mexicana. Os dados não enganam, e são corroborados pelas histórias que chegam aos jornais ou que circulam entre conhecidos e familiares. São essas histórias que preenchem as páginas de Cadelas Vadias, de Dahlia de la Cerda, escritora e ativista mexicana, que se tem dedicado a ajudar e a dar voz às vítimas da violência contra às mulheres no México. Publicado em espanhol em 2022, numa versão aumentada, o livro chegou ao Reino Unido em 2024, tendo sido semifinalista, no ano seguinte, do International Booker Prize, que premeia o melhor da ficção estrangeira traduzida para a língua inglesa. Foi recentemente lançado em Portugal pela livraria feminista Greta, que se quer consolidar como editora no panorama literário nacional, publicando obras estrangeiras que, muitas vezes, não chegam ao país.
Cadelas Vadias reúne 14 narrativas curtas sobre 13 mulheres que se recusam a aceitar passivamente o papel de vítimas. Oriundas de contextos sociais diferentes, as suas vidas estão interligadas por uma história comum de violência, que afeta de forma endémica a sociedade mexicana e, sobretudo, as mulheres. De acordo com um relatório de 2025 do Global Peace Index, do Institute for Economic and Peace (IEP), por casa homem que é vítima de violência sexual, nove crimes sexuais são cometidos contra mulheres no México. Segundo o mesmo relatório, na última década, a violência contra as mulheres aumentou mais do dobro. O assédio sexual e a violência familiar foram os crimes que mais cresceram. As estatísticas nacionais revelam que a maioria das mulheres mexicanas foi alvo de algum tipo de violência de género em algum ponto das suas vidas, geralmente de caráter sexual.

Título: “Cadelas Vadias”
Autora: Dahlia de la Cerda
Tradução: Rita Custódio
Editora: Greta Edições
Páginas: 151
Os números são alarmantes e são indício de uma sociedade em que o machismo e a discriminação contra as mulheres estão profundamente enraizados, refere o relatório do Global Peace Index, salientando que a impunidade (que atinge os 98%) e a resposta ineficaz por parte das autoridades representam um sério desafio na prevenção e punição dos crimes de género no México, uma situação que leva a que as vítimas, ou aqueles que lhes são próximos, procurem justiça pelas próprias mãos. Como referiu Dahlia de la Cerda numa entrevista concedida a propósito da nomeação de Cadelas Vadias para o Internacional Booker Prize, “face à violência, fazemos o que temos de fazer para sobreviver, o que muitas vezes recai numa zona que é moralmente cinzenta”.
Narrado na primeira pessoa, numa linguagem coloquial e contemporânea, Cadelas Vadias traça o retrato de diferentes mulheres, de diferentes contextos, e dá-lhes voz, permitindo-lhes dominar a sua própria história. Cruzando histórias e personagens, o livro revela a complexidade da sociedade mexicana, as várias matizes da violência que a assola e do preconceito contra as mulheres, o terror que inspira e como afeta o dia a dia. É um retrato nu e cru, que se sente como um murro no estômago, logo desde o primeiro conto, “Salsa e coca-cola”, que descreve a violência de um aborto realizado num cenário de solidão e precariedade. Numa outra história, a filha mimada de um poderoso narcotraficante sente, pela primeira vez, os efeitos da violência desmedida quando a melhor amiga é assassinada pelo namorado violento, que ela própria lhe tinha apresentado. Um outro conto fala sobre uma mulher de boas famílias que pinta o cabelo loiro de preto e que assume uma identidade indígena para ajudar o marido a subir na carreira política. A história final, “La Huesera”, sobre uma adolescente que toma consciência da violência contra as mulheres no México quando a melhor amiga é brutalmente violada e assassinada depois de uma saída à noite, alarga o espetro e mostra, como nenhuma outra, a realidade do contexto mexicano.
Em Cadelas Vadias, não há personagens iguais. Há mulheres pobres e ricas, de boas e más famílias, loiras e morenas, velhas e jovens. Vivas e mortas. Todas têm em comum um passado, muito presente, marcado pela violência. Para sobreviverem numa sociedade que as nega, usam as armas que têm ao seu dispor. Essas armas podem ser a Internet, a bruxaria e o pacto com o Diabo (Deus não está disponível para ajudar) ou a violência de sempre, a única resposta aparentemente possível quando o medo e o assédio fazem parte da realidade quotidiana e a justiça tarda em chegar. Apesar do sofrimento, recusam-se a baixar os braços. Recusam-se a ser vítimas passivas e silenciosas.
“O México é um monstro gigante que devora mulheres”, declara a narradora da última história. Em Cadelas Vadias, Dahlia de la Cerda, dá voz a essas mulheres devoradas, misturando factos com ficção e acrescentando, aqui e ali, uma pitada de humor, bóia salva-vidas nos momentos mais difíceis. Livro atual e urgente, Cadelas Vadias é um valioso e franco contributo para a discussão em torno do preconceito contra as mulheres e outras minorias, num tempo de extremismo, radicalismo e violência. A belíssima e cuidada edição da Greta, a livraria que agora se faz editora, e a maravilhosa tradução de Rita Custódio, são apenas uma mais valia.