Lisboa, Porto e Açores com estadias em hotéis de luxo em junho de 2018. Este terá sido o trajeto feito pelo menos por duas pessoas muito próximas a Jeffrey Epstein, o homem acusado de montar uma rede sexual e que morreu na prisão em 2019. A viagem a território nacional aparece na última tranche de ficheiros divulgados pelo Departamento de Justiça norte-americano na última semana, levantando várias dúvidas sobre qual foi o objetivo e o que vieram fazer a Portugal.
As menções à viagem a Portugal começam no início de junho de 2018. Num email a que o Observador teve acesso e que entretanto foi apagado da base de dados do Departamento de Justiça, vê-se um e-mail nos ficheiros que terá sido trocado entre uma mulher chamada Elina e outra pessoa que não é possível saber quem é, uma vez que o documento está rasurado: “Olá Elina. Precisamos reservar um bilhete para ir a algum sítio no dia 5 de junho. Já tomaste uma decisão? Gostavas de ir a Paris no mesmo voo do que [xxx — rasurado pelo Departamento de Justiça]? Voltar para Rostov [cidade russa]? Preciso de saber. Eu vou tratar disso hoje se possível. O Jeffrey disse que podias fazer aquilo que quisesses. Falei com ele agora mesmo.”
A decisão terá sido uma viagem a Portugal. No mesmo email, a resposta surge logo a seguir: “Gostava de ir a Lisboa e esperar aí por [nome rasurado]. Ela deve juntar-se a mim no dia 7 e vamos planear uma viagem a Portugal. Se o Jeffrey concordar com Portugal?”O milionário concordou mesmo com que as duas mulheres viajassem para território nacional. E esta mensagem foi enviada por iPhone com a língua predefinida em russo.

Sobram poucas dúvidas de que as duas mulheres terão estado em Portugal. Uma delas terá sido a referida Elina. A outra terá sido uma cidadã francesa cuja identidade o Observador não conseguiu apurar. Nos ficheiros do caso Epstein, existem várias cópias de bilhetes de avião para alguém que tinha nacionalidade francesa.
Spa no Sheraton no Porto, o Altis Lisboa e os mil euros pagos num Hotel em Ponta Delgada
A viagem foi programada diretamente por Lesley Groff, a assistente pessoal de Jeffrey Epstein, juntamente com Natalia Molotkova, uma consultora financeira russa contratada pelo homem acusado de pedofilia. A passagem por Portugal foi feita com o conhecimento total de Epstein, que parecia bastante interessado em rastrear e monitorizar a estadia da russa e da francesa em território nacional — a viagem aparece mesmo na sua agenda preparada todos os dias por Lesley Groff.
A 8 de junho de 2018, por exemplo, na agenda de Jeffrey Epstein lê-se que duas pessoas (com o nome rasurado) iriam “fazer check-out do Hotel Altis em Lisboa” e iam alugar “um carro na empresa de aluguer de carros Hertz de forma a conduzir para o Porto para ficar no Hotel Sheraton entre 8 e 10 de junho”. Natalia Molotkova era quem reservava diretamente voos e hotéis e esses documentos estão nos ficheiros do caso Epstein, como este de 6 de junho: “Reserve dois quartos no Sheraton entre 8 a 10 de junho com o nome das raparigas”.

O itinerário consegue definir-se com bastante precisão. Lisboa terá sido a primeira paragem desta passagem por Portugal. A cidadã russa terá viajado desde o aeroporto de Malpensa, na cidade italiana de Milão, rumo à capital portuguesa no dia 5 de junho de 2018, mostram os bilhetes de avião incluídos nos ficheiros. O voo foi operado pela TAP e terá custado, por pessoa, 226,70 euros. Por sua vez, a francesa terá viajado desde o aeroporto Charles De Gaulle, em Paris, para o aeroporto Humberto Delgado a 7 de junho de 2018.
A estadia destas duas pessoas terá sido no Altis Avenida Lisboa, de 5 estrelas, ao lado da estação do Rossio, bem no coração da capital portuguesa. Cada noite naquele hotel terá custado 272 euros, conforme revelam os documentos. No total, como mostra a prova do pagamento enviado pela russa, a estadia terá ficado por cerca de mil euros. O que está ainda por responder é o motivo da viagem e o que as duas raparigas terão feito — se foi apenas férias ou se houve outro intuito. Sabe-se também que a russa também terá passado por Sintra no dia 6 de junho.
Desde Lisboa, a 8 de junho, as duas terão viajado de carro alugado para o Porto (com o preço de 281,72 euros). Terão ficado hospedadas no Hotel Sheraton — de cinco estrelas —, localizado na zona da Boavista. Segundo uma fatura do hotel divulgada nos e-mails, consegue perceber-se quanto é que as duas mulheres terão gastado: 504 euros. A estadia das duas noites terá custado 220 euros por pessoa e até terá havido uma ida ao spa do estabelecimento hoteleiro, que custou 60 euros.

O último ponto desta viagem a solo nacional terão sido os Açores. As duas mulheres terão viajado no dia 10 de junho desde o aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, até à ilha de São Miguel, num voo em classe executiva operado pela TAP e que custou aproximadamente 400 euros para as duas, conforme mostram os documentos.
O hotel em que terão ficado hospedadas foi um dos mais conhecidos em São Miguel: o Terra Nostra Garden Hotel, na freguesia das Furnas, de 4 estrelas. As duas mulheres terão ficado no mesmo quarto do estabelecimento hoteleiro de 10 a 14 de junho e Jeffrey Epstein terá pagado, pela estadia, 1.031 euros. O milionário terá estado sempre interessado, a questionar onde estariam; aliás, a 13 de junho, envia-lhes uma mensagem a perguntar quando é que “iriam para Milão”.
Milão terá sido o local para onde as duas mulheres viajaram desde Ponta Delgada a 14 de junho de 2018, tendo feito escala antes em Lisboa. Porém, este não seria o fim da viagem para a russa e a francesa — apenas terá marcado o término da visita a Portugal. Depois disso, na cidade italiana, terão ficado hospedadas no hotel de cinco estrelas Milan Il Duca, numa estadia que ficou por 1.044 euros.

E ainda é possível perceber para onde foram as duas mulheres depois de Milão, de acordo com os documentos. Depois da passagem por Portugal, terão ficado em Itália de 14 a 17 de junho no Milan Il Duca, outro hotel de cinco estrelas. Neste dia, terão viajado para Nova Iorque — a cidade onde Jeffrey Epstein tinha uma casa e onde vivia grande parte do tempo.
Através da análise dos documentos, o Observador não conseguiu decifrar quem era a cidadã francesa que fez esta viagem: não existe nenhuma referência ao seu nome na marcação da viagem. Quanto à cidadã russa, é bastante provável que se trate da modelo russa Elina Arsenyveva, que aparece outras vezes nos ficheiros Epstein.
Dinheiro, prendas e revistas. As outras modelos que fazem referência a Portugal
Nos ficheiros divulgadas pelo Departamento de Justiça, há algumas menções de passagens por Portugal de modelos e mulheres ligadas a Jeffrey Epstein, que mantinha uma rede de recrutadores em vários países para aliciar jovens — muitas delas menores — que mais tarde se tornariam vítimas de abuso sexual. Algumas delas falam sobre o país, mas de forma descontextualizada e nunca direta.

Por exemplo, uma dessas modelos é a neerlandesa Sylvia Geersen. Jeffrey Epstein envia-lhe um e-mail a queixar-se de ingratidão que sentia por a mulher “nunca lhe dizer obrigado”. A reação da mulher deduz uma elevada proximidade entre os dois: “Claro que quero fazer alguma coisa por ti, mas se tu pedes alguma coisa que é difícil, como é que eu o posso fazer? Tu és muito esquisito e não conheço muitas raparigas, mas, se me pedires algumas coisa, fá-lo-ei”.
Datada de abril de 2010 (a modelo neerlandesa tinha 25 anos), a sequência de e-mails mostra Jeffrey Epstein a reiterar a queixa de ingratidão em relação ao comportamento de Sylvia Geersen. Esta que depois se lamenta sobre a sua vida — e menciona que “Portugal lhe deve cinco mil euros”, 20% em impostos. “Estou à espera do dinheiro, mas está a demorar tanto”, desabafou. Não é claro a que dívida é que a neerlandesa se referia.
Em declarações à imprensa neerlandesa, Sylvia Geersen confirmou que mantinha contactos regulares com Jeffrey Epstein. Conheceram-se quando a modelo tinha 21 anos. “Estava completamente sobrecarregada com o que estava a vivenciar [enquanto modelo]. Conheci Epstein em festas. Ele mandava-me e-mails ou mensagens de texto regularmente pelo seu BlackBerry”, relatou, denunciando que o milionário se masturbou em frente dela, ainda que realce que nunca lhe “tenha tocado”.

Também natural dos Países Baixos, uma das mais reputadas modelos do país, Yfke Sturm, também trocou e-mails com Jeffrey Epstein em que mencionava Portugal. Em 2012, a neerlandesa estaria a trabalhar em território nacional, sendo que o milionário destacava que queria “que ela gozasse de tempos divertidos com ele ou sem ele”. Os dois tentaram arranjar uma data para se encontrarem, de acordo com os documentos.
Yfke Sturm sugeriu até encontrar-se em Paris com o milionário, caso conseguisse arranjar um “voo tardio de Faro” para a capital francesa em meados de março de 2012. Na conversa entre os dois, há ainda a referência a um “homem português muito sortudo”, e que terá tido, depreende-se, algum tipo de relação com a modelo neerlandesa. “Alguém em Portugal não sabe o quão sortudo é”, escreveu Jeffrey Epstein.
Confrontada com a sua ligação a Jeffrey Epstein, a modelo neerlandesa confirmou que trocou mensagens e que se encontrou com ele. Porém, Yfke Sturm lamentou tê-lo feito: “Com o que sei agora, percebo que o meu envolvimento anterior foi um erro sério de julgamento”. “Durante esse tempo, era ingénua e não entendia totalmente quem era Epstein ou os danos que causou. Arrependo-me profundamente disso”, justificou.

Nos milhões de ficheiros divulgados, existem também ligações de modelos estrangeiras que fizeram produções para revistas portuguesas. Uma delas foi a eslovaca Zuzana Gregorová, que fez um ensaio para a GQ Portugal em maio de 2016. Aliás, a modelo enviou as fotografias que tirou para a publicação diretamente para Jeffrey Epstein, como se lê num email: “Estou em Estocolmo neste momento para trabalhar e voltarei a Nova Iorque este fim de semana. Devíamos encontrar-nos em breve… tenho muitas boas notícias. E não, não estou grávida. Aqui está a minha produção da GQ Portugal para maio“.
Outra das modelos que fez produções para a GQ Portugal foi a eslovaca Adriana Čerňanová, que tirou fotografias para a revista em janeiro de 2016. A modelo é, no entanto, apenas mencionada nos ficheiros Epstein num email trocado entre Jeffrey Epstein e Ramsey Elkholy, um dos seus associados que procurava aliciar jovens para a rede sexual.
Dos e-mails, é possível inferir que o padrão de Jeffrey Epstein era quase sempre o mesmo: oferecia presentes, dinheiro e viagens às modelos que concordavam em encontrar-se com ele. Em vários países, o milionário tinha redes montadas para conseguir entrar em contacto e posteriormente aliciar jovens que considerava atraentes. Por exemplo, numa conversa de 2019 (ano em que foi preso e em que acabou por morrer), o empresário pediu fotografias a uma modelo que esteve em Lisboa em fevereiro de 2019.

No dia 20 de janeiro, data de aniversário de Jeffrey Epstein, a modelo (cuja identidade o Observador não conseguiu apurar) enviou uma mensagem a dar-lhe os parabéns. A reação do empresário foi apenas uma: “Photo [fotografia]”. A jovem envia depois uma fotografia em que está totalmente nua. “Fantástico”, reagiu o homem. Ao longo da conversa, revelada nos ficheiros, Epstein sugeriu um encontro que depois é cancelado por ele. No dia seguinte, envia à jovem 2.500 euros, sem justificar bem porquê. “Muito obrigado, senhor! Aprecio muito a sua ajuda. Espero vê-lo antes de me ir embora”, reagiu a modelo.