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(A) :: Produtores de arroz do Sado terão de começar "do zero". Prejuízos podem chegar "às dezenas de milhões de euros" e vão chegar aos preços

Produtores de arroz do Sado terão de começar "do zero". Prejuízos podem chegar "às dezenas de milhões de euros" e vão chegar aos preços

Com 1.200 hectares de arrozais, a Aparroz é o maior agrupamento de produtores de arroz no Sado. Danos das cheias são inéditos e terão repercussões: nos preços para os clientes.

Madalena Moreira
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Nos extensos arrozais do Sado, fevereiro é mês de dar “o tiro de partida” para a produção de arroz. Ao longo dos meses de inverno, prepara-se a terra para, chegada a primavera, se cumprir a sementeira. Este ano, não será assim. “Com esta cheia, é impossível fazer o que quer que seja“, afirma Rodrigo Capela, engenheiro agrónomo e produtor na região, ao Observador. As chuvas trazidas pela tempestade Kristin e Leonardo e as águas que resultam das descargas das barragens inundaram os campos que se estendem a perder de vista em frente à sede da Aparroz, o maior agrupamento de produtores de arroz no Vale do Sado.

As cheias não destruíram apenas a colheita de 2026, mas toda a “infraestrutura fundiária”, seja máquinas ou terrenos, necessários para a produção. “Isto vai dar um prejuízo de uma dimensão tão grande que é impossível descrever”, declara o produtor que é também um de doze funcionários da Aparroz, que conta com 30 agricultores associados e cerca de 150 clientes, que detêm, ao todo, 1.200 hectares de terras na região. Ainda que seja muito cedo para apresentar um número exato, Rodrigo Capela estima que os prejuízos do agrupamento podem chegar às “dezenas de milhões de euros”.

O maior prejuízo, e que mais preocupa a associação, não é apenas a produção de 2026, mas as infraestruturas necessárias para a produção. Os campos de arroz são delimitados por muros de maré feitos de terra, que os protegem do leito normal do rio, enquanto a entrada de água é feita através de valas, condutas e caixas de derivação. Os campos têm ainda caminhos de circulação delimitados que são construídos de raiz e depois são apenas alvo de trabalhos de manutenção pontuais quando necessário. Tudo isto “desapareceu” com a força da água.

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São milhares de metros cúbicos de terra que aqui estão a movimentar-se. Quando isto desaparecer, quando esta água sair daqui, os muros estão arrasados completamente”, explica indicando as águas do Sado, visíveis do portão da sede da Aparroz, que subiram vários metros e cobriram por completo os arrozais. Apesar de os muros de maré terem vários metros de altura, é difícil encontrar pontos de referência na água para perceber onde se erguiam há apenas duas semanas. Rodrigo Capela acaba por recorrer a imagens de satélite no telefone, de antes das cheias, que permitem fazer a comparação entre o leito normal e o leito atual do rio Sado.

Ciclo de produção de arroz

Janeiro – Fevereiro — Época de preparação dos solos. Incorporam-se na terra os restolhos da colheita anterior, palhas e ervas daninhas para aumentar a matéria orgânica no solo. Nivelam-se os campos e refazem-se caminhos se necessário

Março – Abril — Época da sementeira. Planta-se o arroz, com táticas que podem variar segundo as condições locais e os níveis de mecanização utilizado pelos produtores

Maio – Setembro — Época de crescimento. Durante o ciclo vegetativo do arroz, o arrozal requer uma manutenção atenta

Setembro – Outubro — Época da colheita. Deve ser feita no momento correto do ciclo vegetativo e depois de os campos terem sido drenados

Perante esta realidade, passadas as cheias, “vai ser [preciso] fazer uma exploração agrícola do zero”, lamenta. A isto somam-se ainda equipamentos essenciais como tratores. “Eu conheço um agricultor, que é nosso colega, que tem dois tratores submersos, desapareceram na cheia”, partilha. Só o custo de equipamentos novos pode chegar aos 60 ou 70 mil euros.

Onde antes se viam campos de arroz boiam agora bidons e cadeiras. Rodrigo impressionou-se com a força da água que até um contentor trouxe ao terreno que antes explorava, e que podia ter levado animais a um colega, não os tivesse ele retirado antes da cheia. Apesar da longa lista de prejuízos, os valores só poderão ser precisados depois de a água escoar e os produtores conseguirem regressar aos campos para fazer um levantamento mais detalhado dos danos. “Esta água não vai sair daqui num dia“, salienta o produtor. A partir da sede da Aparroz, no centro de Alcácer do Sal, os 14 hectares da lavra de Rodrigo Capela não são campos trabalhados, mas apenas uma mancha de água que se confunde com a corrente do outro lado do rio.

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Numa estimativa “grosseira”, aponta que esse levantamento só poderá ser feito dentro de um mês. E só a partir daí é que poderão ser feitas estimativas sobre uma redução na produção ou avançar com pedidos de ajuda ao Estado, que já disponibilizou algumas medidas aplicáveis ao concelho de Alcácer do Sal. Neste cenário, a “época normal” de cultivo, em maio, é um prazo praticamente impossível de cumprir. Contudo, o representante da Aparroz tem “esperança” que os pedidos de apoios públicos, apresentados ao Instituto Financeiro de Agricultura e Pescas (IFAP) e ao Ministério da Agricultura terão uma resposta célere. “O Ministério já demonstrou abertura para ajudar, por exemplo, os agricultores do Oeste e da zona da Leiria”, exemplifica. “Com certeza que nós, como agricultores de arroz, não somos diferentes dos outros”, remata.

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A produção do arroz ocupa mais de 6 mil hectares no vale do Sado, uma dimensão que só é suplantada pelas lezírias do Tejo — a terceira grande região de arrozais em Portugal fica no Mondego. Apesar da dimensão, “a rentabilidade da cultura tem sido esmagada completamente” devido a uma crise completamente diferente: a das secas que, ano após ano, afetam a produção. Apesar de esta se manter estável, os agricultores são obrigados a vender o arroz a preços cada vez mais baixos: na última colheita, alguns colegas chegaram a vendê-lo a 28 cêntimos por quilo, detalha.

Uma semana depois da primeira tempestade, ainda é cedo para adiantar detalhes e o sentimento que toma conta dos produtores do Sado ainda é principalmente “a impotência”. Rodrigo Capela não duvida que as consequências serão sentidas a vários níveis: num aumento dos preços para os consumidores e numa redução no número de produtores pois, feitas as contas, “há pessoas que vão desistir, que não têm idade, vontade, capacidade, força para se recompor em relação a uma coisa destas”.

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