Como nasce o ódio? E como afeta a saúde mental? 9 perguntas sobre a emoção que provoca sintomas depressivos e ansiosos
Raiva, ressentimento, angústia, vontade de vingança. Para lá do que provoca nos outros, o ódio “corrói por dentro” e traz muito sofrimento. Mas pode ser tratado – em alguns casos.
1 O que é o ódio?
É uma emoção. Não é, em rigor, uma doença ou uma perturbação mental. Segundo o psiquiatra e psicoterapeuta João Carlos Melo, o ódio é, na verdade, “uma emoção bastante complexa porque está associada a outras, como raiva e ressentimento, a pensamentos e memórias, e a sentimentos de vingança”. E é uma emoção secundária, ou seja, evolui a partir de outras como a frustração, a dor, a rejeição e o desamparo.
2 Mas como surge, ao certo?
De várias formas, mas geralmente como reação a uma “ferida narcísica”. Ou seja, todas as experiências em que a pessoa é diminuída, ridicularizada ou humilhada são um ataque ao amor próprio, provocando esta dor a que se chama “ferida narcísica”.
“Em alguns casos a reação é imediata, com uma atitude de raiva. Noutros, a ferida não sara e mantém-se aberta para sempre”, diz João Carlos Melo. Depois acontecem outras coisas: a mágoa e o ressentimento alimentam-se a si próprios e a pessoa vai fazendo crescer dentro de si sentimentos de revolta e vingança que se transformam em ódio. Vai matutando, ficando obcecada com o mal que lhe fizeram, com fantasias de vingança que, por vezes, se manifestam anos depois de maneira violenta, sob a forma da chamada “raiva narcísica”, isto é, com reações agressivas, intensas e desproporcionais a ameaças à sua autoestima. Ou então de forma metódica e calculada como acontece com alguns assassinos em série.
3 E como se manifesta?
De várias maneiras, do silêncio a agressões, de vinganças silenciosas a ameaças veladas, de ataques direcionados nas redes sociais a discursos sem qualquer empatia. Pessoas que foram vítimas de bullying na escola (ou de assédio moral no trabalho), que durante anos pareceram cidadãos exemplares mas que foram alimentando sentimentos de mágoa, ressentimento e vingança, depois, numa oportunidade, geralmente preparada cuidadosamente, vingam-se de forma violenta. É desta forma que o ódio se manifesta. Além disso, os ambientes em que existe uma cultura de medo, repressão, baixa autoestima, ressentimento e mágoa são propícios a que o ódio se manifeste.
4 Que emoções envolve?
Várias emoções. “Pode estar associado a medo, desamparo, sentimentos de menos valia ou inutilidade”, diz o psiquiatra e psicoterapeuta. E não só. Também envolve raiva, ressentimento, sentimentos de vingança ou de defesa de ideais. “É o que acontece com o ódio aos exploradores, prepotentes, poderosos e destruidores dos mais fracos e desfavorecidos.”
5 É passageiro ou é constante?
Pode ser as duas coisas. Enquanto a raiva é uma reação passageira, o ódio tende a prolongar-se e desvanecer-se ao longo do tempo. Ou então, pelo contrário, ir-se alimentando e crescendo. Cada caso é um caso.
Tanto é uma emoção controlável como indomável. “Há pessoas que, se se sentirem compreendidas e validadas nos seus sentimentos de ódio e se forem tratadas com empatia e compaixão, deixam de o sentir.” Por outro lado, segundo o psiquiatra, há outras que mantêm o ódio dentro de si, destruindo-se aos poucos ou, mais tarde, destruindo outros, porque continuam a ser maltratadas, injustiçadas e humilhadas, sem alguém que as compreenda e apoie.
6 Há algum padrão?
Há vários. “Humilhar, ridicularizar, diminuir, rebaixar, em qualquer ambiente ou circunstância, são as armas mais poderosas para criar ódio”, explica João Carlos Melo. E o contexto cultural e o ambiente familiar têm muita importância.
“É muito difícil compreender emocionalmente a razão pela qual certos pais diminuem e humilham os filhos, por exemplo. Se há perguntas para esses pais, as respostas que dão são simplesmente ‘Mas eu disse alguma mentira? Não percebo porque é que ele reage assim. Não tenho culpa que seja sensível. Com a idade dele eu já trabalhava e não me queixava. O meu filho tem de aprender como é a vida’.”
Noutros contextos sociais ou em situações de abuso sexual, guerra ou genocídio, por exemplo, é natural e compreensível que as vítimas sintam ódio pelos predadores e pelos criminosos.
7 Como é que o ódio afeta a saúde mental?
O ódio corrói, aumenta as feridas que o provocaram e torna quem o sente mais frio, seco, ressentido, desencantado, antissocial. Tudo isso traz angústia, tristeza, falta de empatia, frustração ou desejos de vingança, que não dão sossego e atormenta os dias.
“Pode provocar sintomas depressivos, ansiosos, angústia e até contribuir para o desenvolvimento ou exacerbação de doenças psicossomáticas e autoimunes”, diz o psiquiatra.
8 Quem odeia também sofre?
Depende. O ódio é uma reação ao sofrimento e ao mal de que se foi vítima e “consome a pessoa por dentro”. Nestes casos, a pessoa sofre.
Todavia, há outras situações em que a pessoa não sofre. O ódio dá-lhes um sentido e uma missão, que, de certo modo, disfarçam o sofrimento.
E há ainda os casos dos psicopatas (ou indivíduos com traços psicopáticos) que não sentem remorsos, culpa, empatia ou compaixão. E por isso não sofrem. “Podem ter algum tipo de sofrimento físico, mas sem ressonância afetiva.”
9 Há tratamento para o ódio?
Também depende. Em primeiro lugar, é preciso que a pessoa queira tratar-se e esteja disposta a renunciar à parte do ódio que a faz sentir-se, de alguma forma, poderosa.
“Da parte de quem trata, o terapeuta, é fundamental uma atitude compreensiva e empática e a aceitação dos sentimentos hostis da pessoa. É preciso validar e ter a compaixão e a disponibilidade que a pessoa necessita para ser ouvida e aceite na sua singularidade e especificidade.”