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Portugal e a (falta de) produtividade 

Se descontarmos o aumento de horas trabalhadas, a produtividade do trabalho encontra-se praticamente estagnada desde 2002. E esta é a grande causa do crescimento anémico e da estagnação perpétua.

Paulo Martins Fernandes
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Foi pela pena do poeta maior da história lusa que se imortalizaram os versos “Mudam-se os tempos / Mudam-se as vontades / Muda-se o ser, muda-se a confiança”. E não tivesse Luís Vaz de Camões reservado “inveja” para última palavra da sua magnum opus, Os Lusíadas, que este poema serviria de igual modo para atestar um conhecimento profundo e intrínseco da natureza portuguesa. Mudam-se os tempos, as vontades, os séculos, as políticas e os governos. Só não muda uma coisa. A aversão à mudança e a incapacidade estrutural de implementar reformas e transformar o país para melhor.

Foram recentemente divulgados pelo Governo os dados relativos à execução orçamental, dívida pública e crescimento económico do país no último ano. A estratégia levada a cabo pelo Ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, foi positiva na execução orçamental onde se verificou um excedente acima dos 800 milhões de euros, superando o valor registado no ano de 2024 e todas as expetativas. Incluindo as do próprio Governo, do Banco de Portugal e do BCE. Um resultado assente essencialmente num extraordinário aumento de receitas, nomeadamente na segurança social e nos serviços e fundos autónomos. Este é um poderoso trunfo que o Governo de Luís Montenegro saberá capitalizar para valorizar a sua estratégia orçamental e esvaziar a oposição.

Já relativamente à dívida pública, esta encontra-se agora abaixo dos 90% do PIB, realidade que não se registava desde 2010 e antecipando em um ano o objetivo do Governo. Também aqui a dupla Montenegro-Morais Sarmento logra uma vitória política.

No que ao crescimento económico diz respeito, o desfecho é outro. Ainda que, à primeira vista, possa não parecer. O crescimento do PIB nacional em 2025 cifrou-se nos 1,9%, assente essencialmente no contributo positivo do consumo privado. Registou-se, no entanto, um abrandamento do crescimento pelo terceiro ano consecutivo, com o baixo nível de exportações a penalizar o desempenho da economia portuguesa. Este valor ficou ligeiramente aquém da previsão do Governo, de 2%, e significativamente abaixo da promessa eleitoral da AD, onde acenava com 2,5%. Apesar de se verificar um contexto altamente favorável assente no expansionismo de fundos europeus, num boom turístico e numa dinâmica demográfica impulsionada pela imigração, a verdade é que Portugal continua amarrado a um crescimento anémico e a uma aversão intrínseca à transformação. Há quem veja o copo meio cheio e diga que ficamos acima da média europeia. Isso deve-se ao facto de os países de leste – que tiveram no passado crescimentos médios de 3,1%, enquanto Portugal rondou o 1% – fruto da proximidade, terem sido muitíssimo afetados pela guerra na Ucrânia e os motores económicos europeus – França, Alemanha e Itália – encontrarem-se em fase de ajustamento às novas realidades geopolíticas.

No entanto, existe um indicador central que não pode ser descurado. Um indicador do qual o crescimento dos salários e a diminuição dos níveis de pobreza depende: a produtividade do trabalho. Este é um indicador que, em Portugal, cresceu cerca de 20% nos últimos 10 anos. No entanto, este crescimento assentou essencialmente no aumento das horas de trabalho. Se descontarmos o aumento de horas trabalhadas, a produtividade do trabalho encontra-se praticamente estagnada desde 2002. E esta é a grande causa do crescimento anémico e estagnação perpétua a que o país está condenado.

O país. As empresas. O tecido industrial. Portugal precisa de uma transformação. De uma transformação assente numa efetiva transição digital. Não simplesmente na digitalização de processos, mas numa verdadeira mudança de paradigma. Incorporar a inovação e a tecnologia na indústria e serviços, tornando as empresas mais competitivas e os serviços mais simples. Uma verdadeira migração para uma Indústria 4.0. Não é preciso trabalhar mais horas. É preciso trabalhar melhor, em menos horas.

Apenas promovendo medidas que elevem a produtividade será possível acelerar a convergência. Só assim será possível elevar o perfil produtivo da economia portuguesa, criar valor, dinamizar capital privado e captar investimento estrangeiro. Enquanto a economia nacional não sofrer esta transformação continuaremos condenados a um sistema de educação débil, a um SNS fragilizado e a uma justiça morosa. Tudo isto tendo sempre por base a dinamização da economia, o aumento dos salários e, como objetivo maior de qualquer política económica: a melhoria da qualidade de vida das populações.