Nas noites de Inverno, podados os embondeiros e as rainhas-cláudias, ouvindo os barulhos suaves do mau tempo, e olhando de vez em quando pela janela sem grandes resultados, as pessoas satisfazem a curiosidade que sentem acerca daquilo que se estará a passar nas outras partes do mundo. É ainda cedo para se preocuparem com as tarefas de Primavera. Se não fosse a satisfação da curiosidade as noites seriam todas iguais, e desde logo iguais aos dias, que são interessantes à luz do dia, mas que não podem interessar uma pessoa durante todo o dia.
Na televisão, que satisfaz a curiosidade ver à noite, as coisas estão organizadas. O outro lado do mundo combina prazer e dor; mas combina as suas emoções de uma maneira diferente das nossas. Não é o caso que as emoções remotas sejam irreconhecíveis: afinal o outro lado do mundo é povoado por pessoas como nós; e por toda a parte este vale de lágrimas provoca inundações. Mas as dores dos outros parecem-se com um rancho folclórico de uma aldeia vizinha, que, podendo nós reconhecê-lo, tem um aspecto diferente do nosso.
Os nossos prazeres são também locais, e sazonais: no Verão comove-nos as nossas areias familiares a perder de vista, os castelos dos Templários, e os pratos a escorrer, mas também um certo disparate manso nos nevões dos antípodas. No Inverno agradam-nos os areais dos outros, e certas coisas deles que fazem lembrar castelos de Templários no meio da selva; é outro disparate seu que nos sorri e comove; mas sempre como nos comovem os nossos próprios nevões, e os disparates que fazemos no Inverno.
No entanto, o repertório das ocorrências sazonais não está completamente fixado. Com uma certa regularidade aparecem motivos de informação novos, que reforçam em nós a certeza de que o outro lado do mundo está ocupado a ocupar-nos. É nisto essencial o género ‘Como o Anticristo passou o dia’. Nenhuma serata televisiva fica completa sem ele, e não há informação digna que possa passar sem esse género. Quando à noite se manifesta não é tarde nem é cedo: famílias inteiras tinham-se vindo a interrogar energicamente à lareira sobre aquilo que o Anticristo teria feito nesse dia.
Dia após dia o Anticristo nunca nos decepciona, e espanta sempre. Diz-nos em voz alta aquilo que mais tememos em voz baixa; e faz-nos o favor de fazer aquilo que estávamos a precisar que alguém fizesse, para podermos odiar pelo menos um outro membro da nossa espécie sem ter de contar calorias. Torna-nos em suma parecidos consigo. Lá vai ele outra vez, dizemos nós, com os seus solecismos, com a gravata a arrastar, e com um tom de voz displicente e detestável, a fazer mil cabriolas. E não é que esta manhã comeu inteiro um castelo dos Templários? E não é que nos quer podar os embondeiros?