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(A) :: A assistente, a RP, a confiável, a "tenente", a mentora, a escrava e a namorada. As mulheres que faziam funcionar a rede de Epstein

A assistente, a RP, a confiável, a "tenente", a mentora, a escrava e a namorada. As mulheres que faziam funcionar a rede de Epstein

Quatro delas foram consideradas "potenciais co-conspiradoras" pelas autoridades norte-americanas, enquanto outras ajudaram o criminoso sexual a circular entre Hollywood e a aristocracia europeia.

Sâmia Fiates
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Inês Correia
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Algumas mudaram de nome, outras tentaram apagar qualquer rasto digital, há quem se diga vítima, e ainda há as que continuam a circular pela alta sociedade nova iorquina e a defender que “não sabiam de nada”. A divulgação da mais recente leva de ficheiros Epstein, com mais de três milhões de páginas, revela a profundidade de algumas relações do criminoso sexual que até agora não tinham sido totalmente escrutinadas e desvendam o modus operandi do homem acusado de tráfico sexual. Fica mais que evidente que Jeffrey Epstein não agia sozinho — e as autoridades norte-americanas sabiam disso. Além da condenação de Ghislaine Maxwell em 2021, outras quatro mulheres estiveram na mira do FBI durante anos, assistentes que terão contactado e recrutado outras mulheres, agendado massagens, bilhetes de avião e encontros, ou até participado de atos sexuais. Para montar a sua rede de influência, que foi de milionários do mundo tech às aristocracias europeias, enquanto continuava a atrair jovens mulheres “inteligentes e sexies” para o seu círculo mais próximo, Epstein também contou com a amizade especial de outras mulheres com poder suficiente para lhe abrir as portas. Estas são algumas das mulheres que faziam a rede de Epstein funcionar.

Lesley Groff, a assistente

Quem é?

Trabalhou como assistente executiva de Epstein por 20 anos. Em 2008, num depoimento à polícia, Groff informou que havia sido contratada pelo milionário em fevereiro de 2001, quando tinha aproximadamente 25 anos, depois de uma entrevista conduzida na companhia de Ghislaine Maxwell, e que as suas funções incluíam organizar a agenda de Epstein, marcar compromissos pessoais e profissionais e responder emails.

Num artigo publicado no New York Times em 2005, Jeffrey Epstein afirmava pagar mais de 200 mil dólares por ano às suas assistentes, além de benefícios como acesso direto ao cabeleireiro da alta sociedade nova iorquina (um recibo de 2017 revela que Groff gastou 815 dólares no salão Frederic Fekkai), viagens no seu jato privado e takeaway do estrelado Le Cirque. Mas no artigo, Epstein revela também que quando Lesley Groff ficou grávida, aos 38 anos, ofereceu-lhe um carro Mercedes-Benz e pagou-lhe uma ama a tempo inteiro para que ela continuasse a trabalhar para ele. “Não há hipótese de eu perder Lesley para a maternidade”, disse.

Qual a ligação à rede de Jeffrey Epstein?

Groff é citada centenas de milhares de vezes nos ficheiros recentemente divulgados. Isto porque era ela que agendava a maioria dos compromissos de Epstein e correspondia-se com os principais contactos do milionário para combinar datas e locais, além de organizar documentos e às vezes pagamentos. Em 2013, numa troca de emails, uma pessoa que teve o nome rasurado questiona Groff: “Olá! Queria apresentar Jeffrey a uma amiga. Pode pedir que me ligue, por favor?” A assistente responde: “Sim, claro”. Dias mais tarde, é Groff a marcar o encontro. “Jeffrey está a perguntar se pode ser às 14h”. Também é Lesley que marca os encontros de Epstein com a princesa Mette-Marit da Noruega, por exemplo, quando a mulher de Haakon esteve com o milionário em 2013.

Entretanto, a assistente também aparece em vários documentos da investigação que resultou na prisão de Epstein em 2008. Groff é listada como “suspeita de co-conspiração” — no acordo assinado em 2007, a polícia concordou em não apresentar queixas criminais contra a assistente e outras potenciais conspiradoras no caso. Algumas alegadas vítimas da rede de tráfico de Epstein também chegaram a afirmar que Groff agendou massagens em nome do condenado sexual, entretanto, as autoridades norte-americanas nunca avançaram com acusações formais.

Onde anda agora?

Depois da morte de Epstein, em agosto de 2019, o FBI chegou a enviar um memorando ao promotor principal de Nova Iorque, Geoffrey Berman, a sugerir uma investigação mais detalhada a Ghislaine Maxwell e Lesley Groff. Maxwell acabou presa em 2020, e agora cumpre 20 anos de prisão, mas Groff não foi indiciada. De acordo com o advogado da antiga assistente de Epstein, em declarações à ABC, Groff ” nunca reservou viagens conscientemente para menores de 18 anos e não tinha conhecimento algum da alegada atividade ilegal. Ela, que também é mãe, está extremamente chocada e profundamente perturbada com as supostas irregularidades do Sr. Epstein.” As notícias mais recentes de Lesley Groff são de 2020, quando a mulher vivia com a família na cidade de New Canaan, no Connecticut.

Sarah Kellen, a “tenente”

Quem é?

Também conhecida por Sarah Kensington, foi modelo na adolescência e começou a trabalhar como assistente de Epstein aos 20 anos, no início dos anos 2000. Apresentava-se em emails como designer de interiores e é proprietária de uma empresa chamada SLK Designs. Sarah casou-se com o piloto da NASCAR Brian Vickers em 2015 — os dois divorciaram-se em 2025.

Qual a ligação à rede de Jeffrey Epstein?

Sarah é descrita por algumas vítimas como a “tenente”, ou a “número dois”, abaixo apenas da própria Ghislaine Maxwell. Nos ficheiros, Sarah aparece a enviar e responder emails acerca de passagens aéreas e pedidos de peças de decoração para as casas de Epstein, além de ser citada em vários registos de voos no jato privado do milionário, incluindo viagens na companhia do ex-príncipe André.

Contudo, as alegadas vítimas ouvidas pela polícia na investigação que decorreu entre 2005 e 2007 afirmam que a mulher era responsável por marcar as massagens na casa de Epstein em Palm Beach, e mantinha uma agenda com os números das raparigas, para as quais ligava a verificar as que estavam “disponíveis para encontros” na mansão. Algumas relataram que foram levadas até o segundo andar, onde ficava a infame sala de massagens de Epstein, por uma mulher chamada Sarah, que ainda arranjava a mesa de massagem e os óleos disponíveis. Num artigo do New York Times, duas alegadas vítimas, Haley Robson e Sarah Ransome, contam como Kellen “ensinava” as jovens a satisfazer Epstein. A assistente é também listada no acordo de 2007 como “potencial co-conspiradora” que ficou livre de acusações criminais.

Também o marido de Sarah, o antigo piloto da NASCAR Brian Vickers, aparece nos ficheiros divulgados recentemente. O homem troca emails com o próprio Epstein pelo menos desde 2012, alguns com piadas de cunho sexual, outros sobre negócios ou viagens. Um dos emails mais recentes é de 2019, quando Brian Vickers deseja a Epstein um feliz dia de São Valentim — poucos meses antes do milionário ser preso.

 Onde anda agora?

Apesar das autoridades a consideraram uma potencial co-conspiradora, Kellen não foi acusada de nenhum crime. A SLK Designs, a empresa na qual presta o serviço de designer de interiores desde pelo menos 2013, ainda existe, mas Sarah não aparece nas publicações nas redes sociais. A empresa já chegou a operar a partir de um edifício em Manhattan que pertence ao irmão de Epstein, Mark. Em 2020 Sarah Kellen vivia em Nova Iorque, numa mansão de mais de 4 milhões de dólares. Abordada pelo The Sun na altura, afirmou: “Fui retratada como um monstro, mas não é verdade. Sou uma vítima de Jeffrey Epstein. Fui violada e abusada semanalmente”, disse. Durante a audiência de condenação de Ghislaine Maxwell, em 2022, o juiz Alison Nathan disse que Kellen é “uma participante conhecida de uma conspiração criminal”, e que a mulher é “uma participante criminalmente responsável”. De acordo com o The Guardian, num artigo publicado em 2021, Kellen mudou de nome. A equipa de defesa de Maxwell sustenta que Sarah é uma das muitas potenciais testemunhas que “o Governo poderia ter acusado, criminalmente, com base nos depoimentos ouvidos”.

Adriana Ross, a confiável

Quem é?

Também conhecida por Adriana Mucinska, é uma modelo polaca que se mudou para a Florida em 2002, aos 19 anos. Nesta altura fez alguns editoriais de moda e chegou a aparecer na capa da Vanidades, revista social norte-americana publicada em língua espanhola. Terá sido também neste ano que começou a trabalhar na mansão de Epstein em Palm Beach. A jovem aparece ao lado de Epstein e Maer Roshan, o agora editor chefe da Hollywood Reporter, numa fotografia de 2005 — um dos poucos registos em imagem da mulher depois de ter entrado para a rede do milionário.

Qual a ligação à rede de Jeffrey Epstein?

O nome de Adriana é mais citado em documentos relacionados aos casos que foram a tribunal. Quando a polícia investigou Epstein em 2005, o funcionário responsável pela administração da casa disse num depoimento que Ross terá removido três computadores da mansão de Palm Beach — equipamentos eletrónicos que as autoridades acreditam que guardavam fotografias de jovens nuas. Adriana também aparece com frequência nos registos de vôos do avião privado de Epstein, inclusive nas mesmas viagens em que seguiu o ex-Presidente norte-americano Bill Clinton.

Onde está agora?

Apesar de também ter o nome citado como possível “co-conspiradora” no acordo de 2007, Ross é provavelmente a mais silenciosa participante da teia de Epstein. Contatada por veículos como o New York Times, o Politico ou o Palm Beach Post, sempre recusou-se a responder. Quando foi chamada para depor em 2010, alegou o seu direito à quinta emenda. Alegadamente, depois da prisão de Epstein, Adriana foi estudar contabilidade em Miami, onde reside atualmente.

Nadia Marcinkova, a escrava

Quem é?

Uma modelo eslovaca que se tornou piloto de avião, e em 2011 abriu uma empresa de aviação, a Aviloop. Nas redes sociais descreve-se como alguém que teve “uma carreira de sucesso como modelo de alta moda e porta-voz”, e que depois trocou as passerelles para ser “piloto licenciada de transporte aéreo, instrutora de voo e piloto acrobática”. Nadia também chegou a ter uma página nas redes sociais como influencer, na qual assinava como Global Girl, entretanto o perfil foi desativado.

Qual a ligação à rede de Epstein?

Nadia é descrita em alguns documentos da investigação como “escrava sexual” de Epstein, apesar de não haver nenhuma evidência de que tenha de facto sido escravizada. A história que muitos órgãos de comunicação social publicaram em 2008, na altura em que o milionário foi preso por solicitar a prostituição de uma menor, era a de que Nadia havia sido “comprada” por Epstein aos pais eslovacos e trazida para os Estados Unidos da América ainda adolescente. Alegadas vítimas relatam nos seus depoimentos que teriam sido obrigadas a realizar atos sexuais com a mulher. Num dos relatórios da polícia uma vítima diz que foi forçada a fazer sexo com Marcinkova e que Epstein gabava-se de ter “comprado” a mulher para ser a sua “escrava sexual jugoslava”.

Contudo, para as autoridades, Marcinkova era a quarta possível co-conspiradora — o seu nome também está no acordo de 2007 que livrou Epstein de uma pena mais dura pelo crime sexual. Entre as evidências que sustentam esse entendimento estão registos de voos em que a eslovaca é uma das passageiras, e os depoimentos das alegadas vítimas, que para a polícia significam que Marcinkova “satisfazia os desejos criminosos ao participar diretamente no abuso sexual e na prostituição de menores”. Quando Epstein esteve preso em 2008, Nadia visitou-o 67 vezes, e continuou a viver na mansão até pelo menos 2010. A investigação em Palm Beach também revelou que a mulher recebia pacotes da Armani Exchange na mansão de Epstein em Palm Beach, cita a CNN.

Num vídeo partilhado nas redes sociais e entretanto já retirado, mas visto pela Paris Match, Larry Visoski, o piloto de Epstein, ensina a Nadia algumas manobras — ambos sorriem e imitam atrás dos controlos a dança coreana “Gangnam Style”, lançada em 2012, num avião similar ao de Epstein. Em 2018 Epstein ainda enviava emails a ordenar pagamentos para a Aviloop — em novembro, por exemplo, escreve para o seu contabilista, Richard Kahn, a pedir que envie 45 mil à empresa.

Já o advogado de Marcinkova diz que a mulher é, na verdade, uma sobrevivente aos abusos de Epstein. “Nadia quer falar sobre a sua vitimização e ajudar as outras vítimas de Epstein”, disse o advogado ao Politico em 2021. “Infelizmente, ela não está pronta para comentar o tema publicamente ainda”.

Onde está agora?

Com a divulgação de novos ficheiros do caso, Marcinkova voltou às manchetes. A mulher ainda é CEO da Aviloop, empresa de branding e marketing em aviação, mas agora atua sob um nome ligeiramente diferente. A empresa está registada na mesma morada de Manhattan onde o irmão de Epstein possuía apartamentos, e onde Kellen também já teve o registo da própria empresa. A eslovaca continua também com quatro licenças de piloto válidas na Administração Federal de Aviação norte-americana: de transporte aéreo, de instrutora de voo, de solo e de piloto remoto. Entretanto, parece ter tentado apagar o seu rasto digital, tendo eliminado o seu perfil no Instagram, vídeos de voos que tinha publicados no Youtube e até um artigo da Forbes em que era citada.

Peggy Siegal, a relações públicas

Quem é?

Num perfil escrito em 2016, o New York Times descreve-a como a “arma secreta” de Hollywood para entrar na alta sociedade nova iorquina. “Como uma princesa judia de Nova Jérsia, sempre quis ser rainha”, diz Peggy Siegal, que fez o seu nome como relações públicas no meio do cinema com campanhas para os Óscares que incluíam exibições privadas, festas exclusivas e sessões de perguntas com os realizadores. Por 30 anos Siegal circulou entre as principais celebridades norte-americanas e a realeza internacional, seja em jantares privados ou grandes festas beneficentes, enquanto, pelo meio, fazia viagens para destinos de luxo e glamour. “Saio sete noites por semana. Tenho um apartamento no Upper East Side. Não tenho família. A minha vida é o meu trabalho, sempre foi assim”, afirma à Vanity Fair em 2020, já depois da sua ligação a Epstein se ter tornado pública.

Qual a ligação à rede de Jeffrey Epstein?

A primeira vez que o mundo ficou a saber da relação de Peggy Siegal com Jeffrey Epstein foi em 2019, num artigo publicado pelo New York Times: Jeffrey Epstein era um criminoso sexual. Os poderosos recebiam-no mesmo assim. O texto descrevia o papel de Siegal na rede de Epstein. Como relações públicas poderosa em Nova Iorque, incluía o criminoso sexual em eventos com A-listers, e nas próprias exibições de filmes privadas que organizava. Ao jornal, Siegal disse que ajudava Epstein mesmo depois da sua condenação por solicitar a prostituição de uma menor porque “ele disse que cumpriu a sua pena e assegurou-me que havia mudado”. À Vanity Fair, já depois de ter “caído em desgraça” devido à ligação com Epstein, afirmou que nunca trabalhou para o milionário, nem teve um salário ou um contrato. Os dois apenas “trocavam favores”.

Mas os milhões de ficheiros divulgados na última semana revelam que a relação era mais do que uma troca de favores. Peggy Siegal é citada mais de sete mil vezes. Em dezembro de 2009, cerca de cinco meses depois de Epstein sair da prisão, a relações públicas dá detalhes sobre uma viagem ao Quénia. “Não te podemos agradecer o suficiente por outra experiência de vida”, escreve Siegal, que depois sugere “levar um ou dois bebés. Menino ou menina? Tão Madonna!” No mesmo email, Peggy Siegal também comenta uma participação de Sarah Ferguson no programa Today Show. “Muito charmosa na televisão”. Em dezembro de 2010, foi a relações públicas a organizar um “jantar casual de última hora para o príncipe André, que está em Nova Iorque numa visita privada não oficial”. Siegal enviou emails a convidar personalidades importantes para o encontro na casa de Epstein, numa das visitas polémicas do filho de Isabel II — que em 2019 afirmava à BBC ter ido à residência do milionário em Nova Iorque para colocar um ponto final na amizade.

Em 2011, Peggy aconselhou Epstein sobre a jornalista Alexandra Wolfe, que preparava um artigo sobre ele para a Newsweek. Em março a jornalista envia uma lista de perguntas à relações públicas, e depois pergunta se poderia falar por telefone com Epstein. “Aborrecida… Assumo que não tenha interesse em falar com ela”, escreveu Peggy ao milionário, que a seguir responde: “Dê-me o número de telefone dela”.

Os documentos provam ainda que a relação continuou próxima ao longo de muitos anos. Numa troca de emails em 2014, por exemplo, a assistente de Epstein informa que o milionário estará em Nova Iorque e pergunta o que há para ele fazer, ao que a relações públicas orienta os assistentes para enviarem convites para todos os eventos organizados pela sua empresa naquela semana: “Dêem-no tudo o que quiser”. Já num cheque de 2018, Jeffrey Epstein oferece 30 mil dólares à relações públicas como “presente de aniversário”.

Onde anda agora?

Siegal afirma que a partir de 2017, após o crescimento do movimento #MeToo, começou a distanciar-se de Epstein. Porém, quando em 2019 a sua ligação ao criminoso sexual chegou às manchetes, a sua empresa de relações públicas perdeu todos os clientes, incluindo gigantes como a Netflix e a FX, obrigando-a a uma “aposentadoria forçada”. Em 2023, Peggy Siegal celebrou os seus 76 anos com uma festa de aniversário nos Hamptons, na companhia de amigas da alta sociedade nova iorquina, como a consultora de arte Barbara Guggenheim. “Fui crucificada por conhecê-lo”, disse a antiga relações públicas ao Page Six. Entretanto, o tempo livre deu-lhe a chance de passar mais tempo com os amigos, menciona o artigo, que termina a revelar que Siegal preparava-se para viajar à Grécia para uma segunda festa de anos. A antiga relações públicas continua a ser presença assídua em eventos beneficentes da alta sociedade de Nova Iorque, Palm Beach e Hamptons. Em dezembro, por exemplo, foi a um jantar de Natal onde posou ao lado de empresários e socialites.

Barbro Ehnbom, a mentora sueca

Quem é?

A empresária sueca mudou-se para os EUA nos anos 1970 para perseguir uma carreira em Wall Street. Entretanto, nos anos 2000 passou a desenvolver programas de incentivo à jovens empreendedoras suecas, fazendo a ponte com empresários norte-americanos. Criou em 2001 uma bolsa de estudos para mulheres na Escola de Economia de Estocolmo e o Barbro’s Best & Brightest, uma espécie de rede de contactos para jovens mulheres suecas “ambiciosas”, de acordo com o site da própria empresária. O programa levava as estudantes de várias universidades suecas para estágios em Nova Iorque. Além disso, Barbro tornou-se numa personalidade mediática na Suécia, também por ser considerada uma mentora para a princesa Sofia, mulher do príncipe Carl Philip.

Qual a ligação à rede de Jeffrey Epstein?

Barbro Ehnbom é citada mais de duas mil vezes nos ficheiros Epstein, em vários emails para o empresário e as suas assistentes, a dar detalhes sobre jovens mulheres suecas, além de organizar encontros. “Será que ele quer que eu leve ao congresso uma mulher para que ele conheça?”, questiona Barbro, numa das mensagens de 2014. Entretanto os contactos vem de muito antes. “Conheci Jeffrey Epstein numa conferência de ciências em 2001 onde consegui convencê-lo a doar dinheiro para a minha fundação”, diz a empresária ao jornal sueco Dagens ETC em 2022.

Rapidamente Epstein tornou-se o principal financiador das atividades de Ehnbom, que nomeou o milionário “Melhor apoiante masculino em 2002”. Epstein, pelo seu lado, aproveitava a associação do programa da empresária à Escola de Economia de Estocolmo para se apresentar como uma pessoa muito envolvida em filantropia. Ao longo dos anos, a empresária sueca envia vários emails a Epstein ou às suas assistentes com fotografias e informações sobre jovens mulheres suecas. Em 2005 Barbro enviou uma fotografia de Sofia Hellqvist, de 21 anos. “É uma aspirante a atriz que acabou de chegar a Nova Iorque. É a rapariga de quem te falei antes de partir, e achei que gostarias de conhecê-la. Talvez possamos visitá-la antes de partires para o Natal?” Epstein terá estado com a futura princesa Sofia em algumas ocasiões, confirmou a Casa Real sueca, antes de regressar à Suécia e conhecer o príncipe Carl Philip, com quem se casou em 2015. Entretanto, Barbro continuou a falar de Sofia à Epstein. “A sua próxima esposa não regressou ainda. Josefin — a que se parece um pouco com Sofia, tu sabes, a namorada do príncipe… Vou apresentá-los em duas semanas”, escreveu em 2010 ao criminoso sexual. Já em 2012, num email em que Barbro envia a lista de participantes do programa, Epstein pergunta: “Quem é a sua escolha para esposa deste ano?”, ao que a empresária sueca responde com uma fotografia. “É esta!” Depois, Barbro envia outra mensagem: “Que tal a gerente do projeto deste ano? Inteligente e sensual. A fotografia está em anexo”.

De acordo com o Dagens ETC, Barbro levou estudantes do programa BBB à casa de Epstein em Nova Iorque pelo menos três vezes, em 2012, 2013 e 2014. “Fomos convidadas em algumas ocasiões, o que claro foi um privilégio. Não era uma casa comum, era a maior mansão de Manhattan. Era algo grandioso. Ele selecionava-as com base nos seus CV’s, seguido de uma conversa sofisticada e intelectual”, descreve a empresária ao jornal sueco.

A empresária nunca formalmente acusada, e não há registo de que tenha sequer sido investigada pelas autoridades norte-americanas, contudo, o seu nome aparece numa denúncia encaminhada por um escritório de advocacia ao Gabinete do Procurador-Geral dos EUA em 2020. No email, o advogado John Ray afirma que Barbro “repetidamente procurava mulheres suecas para os prazeres de Jeffrey Epstein”, e chega a mencionar que a empresária “também apresentou uma estrela de filmes eróticos ao príncipe sueco Carl Philip, duque da Virgínia e príncipe herdeiro, com quem ele se casou”.

Em 2022, quando a relação da empresária com Epstein tornou-se evidente, Ehbom parecia não dar muita importância às acusações que o milionário enfrentou antes de morrer na prisão em 2019. “Todas essas pessoas importantes que o visitaram, não pode acreditar seriamente que iam fazer coisas sujas com raparigas de 14 anos. Visitavam-no porque ele era brilhante. Ele fez o seu caminho até o topo, algo que poucos são capazes de fazer. Uma história de sucesso americano. É claro que a história da sua queda é horrível, provavelmente a pior”, reagiu. Contudo, a Ehnbom faz a ressalva: “Tráfico é algo terrível. Pegam uma menina de 10 anos, colocam-na num camião e levam-na para um bordel no Queens, onde agridem-na até que faça o que querem. Isso é tráfico. Não sei se sentar-se num avião e beber champagne com o príncipe André é tráfico. Talvez algum outro tipo de tráfico.”

Onde anda agora?

Com a divulgação dos novos ficheiros no final de janeiro, a Escola de Economia de Estocolmo divulgou um comunicado a informar que só soube das ligações de Ehnbom a Epstein em 2015, pelo que até este ano, considerava que a “bolsa de estudos era algo positivo e poderia representar um papel construtivo na igualdade de género”. “Estamos profundamente tristes que jovens mulheres tenham tido contacto com um criminoso sexual através de alguém em quem confiavam. Diante de tudo o que veio a público, é muito claro que os representantes da Escola não deveriam ter confiado em Ehnbom, e é claro, deveríamos ter encerrado a colaboração muito antes”.

Através do LinkedIn, Ehbom reagiu às notícias mais recentes sobre as citações do seu nome nos ficheiros Epstein. “Sobre viagens e encontros em Nova Iorque: Além das vencedoras do FEOY (prémio Economista Mulher do Ano), que viajaram para iniciar os seus empregos, nenhuma mulher foi levada de avião. As mesas-redondas que organizei em Nova Iorque foram para mulheres que já estavam alocadas lá, principalmente empreendedoras. Para participar, era necessário apresentar um currículo pré-submetido e apresentar a ideia de negócio no local”, escreve a empresária sueca. “Essas mesas-redondas foram organizadas com várias pessoas diferentes, incluindo Bill Gates e o professor de Harvard William A. Haseltine. Uma dessas reuniões também foi realizada com Jeffrey Epstein”, esclarece. “As participantes eram mulheres trabalhadoras estabelecidas de forma consistente, geralmente entre os 35 e os 45 anos”, afirma ainda Ehbom, que acusa a imprensa sueca de “fabricar entrevistas” e diz que a “verdadeira história” virá à tona.

Karyna Shuliak, a namorada

Quem é?

Karyna Shuliak é uma dentista bielorrussa que se mudou para os Estados Unidos em 2009. Entre 2006 e 2010, Shuliak estudou na Universidade Médica do Estado Bielorrusso, para dpeois concluir a licenciatura na Universidade Columbia, em 2015. Mais tarde, Shuliak terá trabalhado como dentista na ilha de St. Thomas, vizinha da ilha de St. James, que era propriedade de Epstein. De acordo com o seu CV, a bielorrussa também trabalhou como assistente executiva na Southern Trust Company, uma das empresas de Epstein.

Qual a ligação à rede de Jeffrey Epstein?

De acordo com as trocas de emails de ambos, Shuliak e Epstein conheceram-se em 2011. “A primeira vez que eu vejo o nome de Karyna no meu calendário do google é a 24 de maio de 2011”, escreve alguém que teve o nome rasurado, numa mensagem direcionada a Epstein em 2013. “Larry vai ligar Universal e ver se conseguem passar um relatório do tempo de 2011”, diz ainda o email, que parece especular sobre o exato dia em que a bielorrussa esteve no apartamento de Epstein em Nova Iorque. O milionário encaminhou a mensagem à própria Shuliak, que respondeu: “Isso é engraçado. Tenho a certeza que podes fazder contactos com naves espaciais no cosmos se for preciso para descobrir quando choveu quando nos conhecemos. Amo-te”. Noutra troca de emails de 2012, Shuliak volta a declarar-se a Epstein. “Amo-te! És o homem mais puro de todos”.

Entretanto, de acordo com a imprensa internacional, Shuliak casou-se com Jennifer Kalin, outra assistente de Epsten, em 2013. A advogada que representa algumas das vítimas de Epstein, SigridMcCawley, disse ao The Sun que o milionário usava “casamentos entre pessoas do mesmo sexo” como uma forma de “conseguir a cidadania para raparigas que ele queria que ficassem no país sem ter de enfrentar um alto nível de escrutínio no processo”. De facto, em 2018 o advogado de imigração baseado em Nova Iorque Arda Beskardes comunicou Epstein que Shuliak já tinha a cidadania norte-americana. “Agora que ela é americana podes dar-lhe uma grande festa com um touro mecânico, balões vermelhos, brancos e azuis, e e barras de Snickers fritas em palitos de dente com a bandeira americana”, escreveu o advogado. Shuliak e Kalin ter-se-ão divorciado em 2019, um pouco antes da prisão de Epstein.

Onde anda agora?

Karyna Shuliak terá sido a última pessoa a falar com Epstein. De acordo com os registos do Departamento Penitenciário, Epstein passou 20 minutos a falar com a sua então namorada na noite anterior à sua morte, através de uma chamada telefónica que não foi gravada. A dentista é também a principal beneficiária de uma espécie de testamento assinado pelo milionário antes da sua morte, entitulado “The 1953 Trust”. O documento previa que Shuliak recebesse 100 milhões de dólares e ficasse com a maior parte das suas propriedades. Nas margens de uma das folhas, anotações à mão revelavam ainda que Jeffrey Epstein planeava pedir Karina Shuliak em casamento e oferecer-lhe um anel com um diamante de 33 quilates. De acordo com o New York Times, a bielorrussa de 36 anos estará a viver em Nova Iorque.