A popularidade do anime, do manga e de outras expressões da cultura pop japonesa entre os jovens portugueses, a proliferação de restaurantes japoneses e de sushi bars e o embevecimento de alguma classe média-alta com a “espiritualidade” japonesa e as (alegadas) propriedades terapêuticas do reiki podem sugerir que o português médio está bem informado sobre o Japão passado e presente. Na verdade, o conhecimento geral sobre o Japão em Portugal é tão diáfano quanto o dos outros países ocidentais em que também paira o “fascínio pelo Japão” – e mais diáfano ainda será o conhecimento do japonês médio sobre Portugal, que, na maioria dos casos, se resumirá a duas palavras: Kurisutiāno Ronaudo.
Este desconhecimento entre os cidadãos comuns não resulta da falta de livros em português sobre o assunto, pois, para nos ficarmos só pelos tempos mais recentes, em 2022 foi por cá publicado o clássico O crisântemo e a espada: Padrões da cultura japonesa (1946), de Ruth Benedict, pela Guerra & Paz (ver Dos samurai aos pokémon: De que é feita a identidade japonesa?); no ano seguinte foi republicada a História do Japão (1999, revisto em 2004), de Kenneth G. Henshall, pelas Edições 70 (ver Uma história do Japão: A ilha do ouro que deveria estar logo para lá do horizonte); e acaba de chegar às livrarias A mais breve história do Japão (2025), de Lesley Downer, por iniciativa da Presença.
O livro em apreço neste artigo é Uma breve história do Japão, de Christopher Harding, pela mão da Casa das Letras e com tradução de Fernanda Oliveira, cuja versão portuguesa surgiu em Novembro de 2025, apenas dois meses depois da edição original (A short history of Japan), que, por sua vez, é apenas três meses posterior à edição original de A mais breve história do Japão (The shortest history of Japan).
Uma vez que Uma breve história do Japão, embora corresponda à promessa de concisão expressa no título (menos de 200 páginas de texto), é extremamente denso e aborda muitos assuntos diferentes, este artigo focar-se-á apenas nalguns deles e dará particular relevo aos desenvolvimentos na história do Japão que decorreram nos últimos meses e que, inevitavelmente, ficaram fora do livro.

A história, vista de cima e de baixo
No topo da capa da edição portuguesa, o livro é descrito como “um mergulho na vida quotidiana dos japoneses ao longo do tempo”. A história do quotidiano é um ramo relativamente recente da história, que se confunde com os ramos da história social e da “história vista a partir de baixo”. Ao contrário da história tradicional, ou mainstream, a história do quotidiano não se foca nas figuras excepcionais, nas grandes convulsões políticas, nas batalhas decisivas e nas obras-primas das artes e das letras, dando antes a ver como era a vida das pessoas comuns noutros tempos. Quando Uma breve história do Japão entra no século XX e, em particular, no período posterior a 1945, Harding desce, por vezes, ao nível do cidadão comum, mas o grosso do livro oferece a perspectiva da história tradicional, vista a partir de cima; e mesmo quando, pontualmente, aflora a vida quotidiana em tempos pretéritos, a perspectiva circunscreve-se às elites políticas e intelectuais.
O livro não é diminuído por isso, já que a compreensão do passado tanto requer o conhecimento das datas dos decretos imperiais e dos nomes dos generais, como o da dieta usual dos camponeses e das disposições regulando o funcionamento dos prostíbulos; estas linhas servem apenas para alertar que o conteúdo não corresponde ao anúncio na capa.

A desordem dos nomes
Christopher Harding (n.1978) é um historiador cultural britânico especializado na Ásia, é professor de história asiática na Universidade de Edinburgh e é um prolífico produtor de conteúdos, sob a forma de documentários, programas de rádio, podcasts, blogs, palestras, artigos na imprensa, intervenções em programas televisivos, etc., sobre a história da Ásia e das relações Oriente-Ocidente. Dentro do vasto tema “Ásia”, o Japão ocupa um lugar de eleição na vida e na carreira de Harding: a sua esposa é japonesa, os seus filhos falam inglês e japonês, a sua bibliografia inclui títulos como Japan story: In search of a nation, 1850 to the present (2018) e The Japanese: A history in twenty lives (2022) e é responsável pelo podcast Japan and the World.
Estas credenciais fazem com que seja inexplicável a displicência com que os nomes japoneses são tratados neste livro. No Japão, tal como noutros países da Ásia Oriental, como China, Coreia e Vietnam, em que a comunidade se sobrepõe ao indivíduo e em que (apesar das mudanças vertiginosas trazidas pela modernidade) prevalecem o respeito pelos mais velhos e a veneração pelos antepassados, convenciona-se que o apelido precede o nome próprio. Embora no Ocidente esteja instituído o uso de rearranjar os nomes japoneses segundo a norma ocidental, os nomes de algumas figuras proeminentes de épocas mais recuadas costumam ser mantidos na forma japonesa: é o caso, por exemplo, dos governantes Oda Nobunaga (1534-1582), Toyotomi Hideyoshi (1537-1598) e Tokugawa Ieyasu (1543-1616), das escritoras Sei Shōnagon (c.966-1017) e Murasaki Shikibu (c.973-1014) e dos poetas Ihara Saikaku (1642-1693) e Matsuo Bashō (1644-1694).

É legítimo que um texto destinado a leitores ocidentais opte por qualquer das formas de apresentar os nomes, japonesa ou ocidental, desde que a opção seja aplicada consistentemente e o autor ou o editor explicitem a opção, até porque a maioria dos leitores não estará a par das particularidades da onomástica japonesa (neste artigo adoptou-se a prática largamente dominante no Ocidente: nomes na ordem ocidental, excepto para figuras históricas em que está consagrado o uso da ordem japonesa).
Em Uma breve história do Japão reina a total arbitrariedade: os nomes de Oda Nobunaga, Toyotomi Hideyoshi e Tokugawa Ieyasu surgem nesta forma, mas os de Sei Shōnagon, Murasaki Shikibu, Ihara Saikaku e Matsuo Bashō são invertidos.

Os três mestres do ukiyo-e conhecidos no Ocidente como Utagawa Kuniyoshi, Katsushika Hokusai e Andō (ou Utagawa) Hiroshige são apresentados por Harding na ordem japonesa, ao contrário do que é prática no Ocidente. O artista de manga Ozamu Tezuka surge na ordem ocidental, mas o realizador de anime Hayao Miyazaki surge na ordem japonesa. Os escritores Haruki Murakami e Yasunari Kawabata surgem na ordem ocidental, mas Kenzaburō Ōe surge na ordem japonesa e Yukio Mishima é designado na ordem japonesa na pg.166 e na ordem ocidental na página seguinte. O pintor e escultor Takashi Murakami e o músico e compositor Riuichi Sakamoto surgem na ordem ocidental, mas os estilistas Issey Miyake e Rei Kawakubo (Comme des Garçons) surgem na ordem japonesa. No que respeita a primeiros-ministros, Hideki Tōjō e Shinzō Abe surgem na ordem ocidental, Yukio Hatoyama surge na ordem japonesa e Fumimaro Konoe surge na ordem ocidental na pg. 142, na ordem japonesa duas páginas depois e na ordem ocidental na pg. 159. Na pg. 164, a estudante e activista comunista Michiko Kanba muda de género, mas é provável que, neste caso, se trate de um equívoco de tradução (a língua inglesa nem sempre é explícita quanto ao género e, aos olhos/ouvidos portugueses, o nome próprio Michiko soa a masculino).
A balbúrdia na ordem dos nomes acaba por ser ofuscada por uma falha ainda mais grave: o livro não inclui índice remissivo, nem sequer o índice onomástico simplificado que, nalgumas edições portuguesas, funciona como sucedâneo. Num livro em que cada página está polvilhada por nomes, topónimos, títulos de livros e de obras de arte e termos japoneses, a inexistência de índice inutiliza-o como obra de consulta – tudo leva a crer que, para muitas editoras, uma biblioteca não é uma entidade viva e interactiva, mas um cemitério de papel, um lúgubre depósito onde, depois de lidos, os livros são entregues ao olvido, ao pó e aos peixinhos-de-prata. Resta saber se o pecado é original ou se foi a edição portuguesa que suprimiu o índice.

O vento divino
Em duas ou três ocasiões, o vento terá desempenhado um papel relevante – senão mesmo decisivo – na história do Japão.
Quanto à primeira ocasião, que data de 1274, não é hoje possível separar os factos da lenda tecida em torno dela. Tudo terá começado em 1268, quando, segundo Harding, o imperador mongol Kublai Khan (reinado: 1260-1294) enviou emissários “com o pedido de estabelecer relações amigáveis entre o Japão e o Império Mongol”, que os governantes japoneses “decidiram ignorar simplesmente” (pg. 62). O que se passou foi um pouco diferente: por um lado, a relação que Kublai Khan pretendia estabelecer com o Japão não era de amizade, mas de vassalagem. Esta atitude estava em consonância com a política de Kublai Khan, que, após o fraccionamento, em 1259, do império mongol em quatro canatos autónomos – Eurásia Ocidental (Horda Dourada), Ásia Central (Chagatai), Irão (Ilcanato) e China (dinastia Yuan, formalmente inaugurada por Kublai em 1271) –, desenvolveu esforços para consolidar o poder na China e obter a vassalagem de vários reinos limítrofes, nomeadamente os que dominavam territórios que hoje correspondem à Birmânia, ao Vietnam e à Indonésia.

O vizinho mais próximo do Japão, o reino de Goreyo, na Península Coreana, que tinha sido alvo de nove invasões mongóis num período de 30 anos, acabara por capitular perante Kublai Khan em 1259, tornando-se, em 1270, numa entidade semi-autónoma dentro do império Yuan. Após a capitulação da Coreia, Kublai Khan começou a cobiçar as ilhas que lhe eram fronteiras e, em 1266, enviou uma primeira embaixada ao Japão. Esta foi ostensivamente desrespeitada e humilhada e, após meses de espera, regressou a casa sem qualquer resposta. A embaixada de 1268, que é a que Harding menciona, foi, portanto, a segunda e não conseguiu resultados melhores. As embaixadas seguintes também não obtiveram qualquer resposta dos governantes japoneses à carta do Khan, o que levou Kublai, em 1274, a concluir que a via diplomática não o levaria a lado algum e a ordenar a invasão do Japão.

O exército mongol de 30.000 homens, transportados em 500 a 900 navios, conquistou as ilhas de Tsushima e Iki e desembarcou na Baía de Hakata onde obteve algum sucesso, forçando os defensores japoneses a recuarem. Porém, os generais da força invasora, em vez de consolidarem a testa-de-ponte, optaram por reagrupar as suas tropas exaustas a bordo da frota que os tinha desembarcado e, de acordo com fontes japonesas, durante a noite uma tempestade terá dispersado os navios e afundado e encalhado alguns deles. Levando a armada a regressar ao continente.
Kublai Khan não desistiu e em 1281 enviou nova armada, mais poderosa, com 100.000 homens (140.000 segundo outras estimativas) e 4400 navios; desta vez os japoneses estavam mais bem preparados e as tentativas de desembarque dos mongóis foram sistematicamente repelidas. Estabeleceu-se um impasse, que foi desfeito quando um tufão arrasou a armada mongol e os navios restantes regressaram precipitadamente à China, abandonando boa parte dos soldados, que acabaram por sucumbir aos elementos ou a ser alvo da vingança dos japoneses.

Harding não o menciona mas as várias expedições enviadas por Kublai Kahn para submeter à vassalagem os estados do Sudeste Asiático também tiveram desfechos improfícuos e saldaram-se em pesadas baixas do lado mongol. As duas derrotas mongóis no Japão ganharam um lugar mais saliente na história por os japoneses as terem associado a intervenções sobrenaturais: os ventos divinos, ou kamikaze. Este conceito seria reconfigurado no final da II Guerra Mundial, quando o Japão enfrentava a derrota iminente e o termo kamikaze foi apropriado para baptizar uma campanha de ataques suicidas contra a marinha de guerra dos EUA e dos seus aliados, que Harding trata nas pg. 146-47. Como é sabido, desta vez os deuses não intervieram para salvar o Japão – e a história do país e a natureza da sua sociedade sofreram uma inflexão dramática.
Entretanto, em 1543, os ventos tinham desempenhado outro papel significativo na história do Japão e das suas relações internacionais, “quando uma tempestade impeliu [uma] embarcação chinesa [com comerciantes portugueses a bordo] em direcção às margens da ilha de Tanegashima” (pg. 78). Este episódio marcou o primeiro contacto directo europeu com o Japão e alterou o rumo da história do Japão (ver capítulo “Nagasaki, 1580: Bárbaros do Sul no Império do Sol Nascente” em Cinco séculos de comércio livre e proteccionismo, parte 1: 1498-1580).

Uma visão muito distorcida e parcelar da estampa japonesa
É compreensível que, necessitando de cobrir tantos e tão variados aspectos da cultura japonesa e um período temporal tão longo, Harding tenha dedicado apenas duas páginas (119-20) à estampagem com blocos de madeira (ukiyo-e), uma das facetas mais admiráveis, originais e mundialmente difundidas da arte japonesa e um excelente exemplo de “polinização cultural cruzada”, uma vez que o ukiyo-e é, na origem, devedor de influências chinesas; assimilou, a partir do final do século XVIII, elementos da pintura ocidental; e acabou, no final do século XIX, por exercer influência sobre vários pintores ocidentais (ver capítulo “Ukiyo-e: Tradição, exotismo e contaminação” em Martin Puchner: Uma nova história da cultura, mas muito remendada).
O que não se percebe é que, dada a abundância, neste domínio, de figuras de génio, muitas delas dignas de figurar nos compêndios de história da arte com o mesmo relevo que se atribui a Rembrandt ou a Van Gogh, Harding tenha escolhido destacar Kyōsai.

Kyōsai Kawanabe (1831-1889), que adoptou como nome artístico o seu nome próprio, Kyōsai (e que assim é designado usualmente), é uma escolha muito discutível, uma vez que:
1) É um artista de segundo plano, de forma que algumas obras de referência sobre a estampa japonesa, como Ukiyo-e (2005), de Gian Carlo Calza, nem sequer mencionam o seu nome;
2) Repartiu-se entre o registo fantástico (com ênfase no bizarro e no grotesco) e a sátira (política e de costumes), pelo que as obras por que é conhecido estão (independentemente do seu indiscutível mérito) muito longe de serem representativas das principais correntes do ukiyo-e;
3) A sua carreira decorreu, na maior parte, durante a era Meiji (1868-1912), no qual a arte da estampa, que teve o apogeu entre o final do século XVIII e meados do século XIX, foi decaindo em qualidade artística média e em popularidade junto do público japonês, atingindo o seu nadir na viragem dos séculos XIX-XX (ver capítulo “O ukiyo-e depois das ‘Trinta e seis vistas do Monte Fuji’” em Martin Puchner: Uma nova história da cultura, mas muito remendada).
É desconcertante que Kuniyoshi (de quem Kyōsai terá sido aluno entre os seis e os nove anos de idade) seja aviado em dez linhas; que Hokusai seja reduzido a cinco linhas sobre a famosa estampa A grande onda ao largo de Kanagawa; que de Hiroshige, tão genial e prolífico quanto Hokusai e que suscitou tal admiração em Van Gogh que este fez cópias a óleo das suas estampas, se mencione apenas o nome e as datas de nascimento e de morte; que Utagawa Toyoharu (fundador da escola Utagawa), Utamaro, Kunisada e Yoshitoshi (contemporâneo quase exacto de Kyōsai e, quiçá, o nome cimeiro dessa geração) nem sequer sejam nomeados, e que, em contrapartida, se promova Kyōsai, nome que apenas os especialistas da área reconhecerão, como figura emblemática da estampa japonesa.

Harding refere que uma das obras mais famosas de Kyōsai, “Escola de fantasmas” (1874), “mostra os descendentes de demónios e espíritos de água sentados numa escola ocidental, com bancos, secretárias, quadros e professores de fato” (pg. 120), mas não providencia o contexto para a obra. Esta só é compreensível se se souber que surgiu como reacção a um decreto de 1872 do Governo Meiji que tornou a educação das crianças compulsiva e sujeita a um sistema educativo centralizado e padronizado, decalcado de modelos franceses e americanos. Também seria oportuno esclarecer que os “espíritos de água” são kappa, criaturas lendárias do folclore japonês, de aspecto monstruoso e intenções malévolas, que habitavam o meio aquático.

Curiosamente, nos elementos que Harding fornece sobre Kyōsai não figuram dois muito relevantes: é considerado o pioneiro da caricatura no Japão e foi co-fundador e co-autor da Eshinbun Nipponchi, uma (efémera) publicação satírica, surgida em 1874, que é considerada a primeira revista de manga ou, pelo menos, como a primeira revista satírica feita por japoneses – mas não a primeira revista satírica publicada no Japão, distinção que cabe a The Japan Punch, quase integralmente feita pelo cartoonista britânico Charles Wirgman, que começou a ser publicada em 1862 e serviu de modelo à Eshinbun Nipponchi.

Polémicas à volta do Trono do Crisântemo
Harding dá conta, na pg. 175, que pela morte do imperador Hirohito, em 1989, o Trono do Crisântemo foi ocupado pelo seu filho Akihito. Na pg. 190, Harding menciona a subida ao trono, em 2019, do imperador Naruhito, filho de Akihito, mas, embora gaste página e meia com elementos biográficos sobre o novo imperador e a sua esposa, Masako Owada, e as reservas com que os funcionários da corte e alguma opinião pública lidaram com a ideia de ter uma “plebeia” como imperatriz, nada diz sobre as circunstâncias excepcionais desta sucessão: pela primeira vez desde 1817, um imperador – Akihito – decidiu abdicar e dar lugar ao seu sucessor, uma possibilidade que nem sequer estava prevista no regimento da casa imperial (ver 2679 anos de solidão: De onde vem a dinastia mais antiga do mundo).

Também se estranha que Harding dê grande relevo ao facto de Naruhito se ter casado, em 1993, com uma plebeia, mas nada diga sobre o facto de Akihito ter feito o mesmo em 1959, ao casar-se com Michiko Shōda, com a “agravante” (do ponto de vista dos tradicionalistas nipónicos) de Shōda provir de uma família católica e ter recebido uma educação católica (ainda que não fosse baptizada). O casamento de Akihito causou reacções mais intensas do que o de Naruhito, umas mais discretas, como a reprovação da mãe de Akihito, a imperatriz Kōjun, e outras mais sonoras, como sejam ameaças de morte à família Shōda e uma proclamação inflamada do escritor Yukio Mishima, um intransigente defensor dos valores tradicionais japoneses, que acusava a casa imperial de “se ter tornado ‘tablóide’, na sua operação de democratização. É absolutamente errada a ideia de que [a família imperial] perca a sua dignidade unindo-se ao povo”.

As pontas soltas da história do imperialismo japonês
A rendição formal do Japão, a 2 de Setembro de 1945, pôs termo à II Guerra Mundial, mas deixou muitos problemas por resolver, que não foram adequadamente solucionados durante o período em que o país esteve sob ocupação e administração dos EUA, nem pela nova Constituição que os EUA “ofereceram” (ou impuseram) ao Japão em 1946, nem pelo Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente (informalmente conhecido como “Julgamentos de Tóquio”), nem sequer pelo Tratado de São Francisco, assinado em 1951, que pôs termo, no ano seguinte, à tutela americana.
O Tratado de São Francisco envolveu 49 nações, mas as conferências que a ele conduziram não incluíram as nações mais próximas do Japão e que com ele tinham relações mais antigas e intensas e também as que mais tinham sofrido com as aventuras imperiais do Japão, ou seja, a República Popular da China, Taiwan e as duas Coreias. O motivo formal para exclusão destes países foi não ter sido possível chegar a consenso sobre qual das entidades seria a legítima representante do povo chinês e do povo coreano, para mais, as duas Coreias travavam, à data, uma guerra sem quartel, que só terminaria em 1953 e na qual a China também estava directamente envolvida, tal como os EUA. A URSS, que tivera conflitos fronteiriços com o Japão em 1932-39 e que declarara guerra ao Japão a 8 de Agosto de 1945 (dois dias após a detonação da primeira bomba atómica sobre Hiroshima) e invadira os territórios sob ocupação japonesa junto às suas fronteiras – Manchúria, Mongólia, Península da Coreia, Ilha de Sacalina e Ilhas Curilhas – participou nas conferências, mas decidiu não assinar o tratado por não ter sido atendida a sua exigência de que todas as potências estrangeiras (entenda-se: os EUA) retirassem as forças militares em território japonês.

O Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente (TMIEO), cujas sessões decorreram entre 1946 e 1948, também deixou por fechar muitas das feridas abertas durante as guerras expansionistas empreendidas pelo Japão a partir de 1931 – ano em que invadiu a Manchúria. Os aliados ocidentais, ou melhor, os EUA e, em particular, o general Douglas MacArthur, comandante supremo das Forças Aliadas no Japão, decidiram que a função do TMIEO não seria apurar a verdade dos factos e identificar os responsáveis pelos crimes de guerra, mas sim reescrever a história recente de uma forma que fosse conveniente ao desígnio americano de suprimir o nacionalismo militarista japonês e a reconfigurar a sociedade e a organização política do Japão em moldes americanos, ou aceitáveis para os americanos (ver capítulo “Os últimos cem anos” em (ver 2679 anos de solidão: De onde vem a dinastia mais antiga do mundo).

MacArthur entendeu que esta delicada operação requereria que o imperador Hirohito não fosse levado a julgamento no TMIEO, uma vez que ele seria indispensável para assegurar a cooperação do povo japonês. Hirohito não só não fui julgado, como se manteve como imperador, ainda que destituído do seu estatuto divino. Ainda hoje se discutem acesamente as reais responsabilidades de Hirohito na expansão militarista japonesa e, em particular, nas suas facetas mais brutais e iníquas, mas é pouco plausível que a sua actuação tenha correspondido à imagem que MacArthur, o TMIEO e a propaganda americana fizeram passar: a de uma criatura ingénua e alheada da realidade, que se limitava a assinar sem ler os decretos que os Governos militaristas lhe enviavam e que estava mais interessado nas suas pesquisas como biólogo marinho amador (a sua especialidade eram os hidrozoários) do que nas movimentações da Marinha Imperial.

MacArthur terá talvez pensado que esta seria a solução que geraria menos atrito e contestação no Japão, num contexto geopolítico em que, à medida que a tensão entre URSS e EUA crescia e se tornava vital para os americanos fazer do Japão um baluarte anticomunista. Em consonância com este objectivo, a ocupação americana assumiu, a partir de 1947, uma feição mais suave (que, ficou conhecida como “Reverse Course”: a punição tornou-se secundária face à necessidade de reerguer rapidamente o Japão dos escombros.
Nunca saberemos como teria reagido o povo japonês se Hirohito tivesse sido forçado a abdicar e se tivesse sido julgado pelo TMIEO, e se a selecção dos réus levados ao TMIEO tivesse usado uma rede maior e de malha mais fina. Na prática, o TMIEO focou-se no “peixe graúdo”: deste grupo, sete foram condenados à morte (entre eles o antigo primeiro-ministro Hideki Tōjō) e 16 a prisão perpétua. As execuções foram levadas a cabo, mas as penas de prisão foram alvo de sucessivas reduções, de forma que todos os condenados foram libertados entre 1952 e 1958, com excepção de três que faleceram na prisão antes de receberem o eventual perdão.

Nem todos os juízes do tribunal aprovaram estes castigos relativamente lenientes. As duas principais dissensões vieram de dois dos três representantes de nações orientais no colectivo de 11 juízes (uma clara sub-representação, atendendo a que estavam em julgamento crimes ocorridos no Extremo Oriente, maioritariamente contra nações e povos do Extremo Oriente). O juiz chinês Mei Ju-ao viu nas condenações “uma estratégia de bode expiatório: limitar a responsabilidade a um pequeno ‘grupo de culpados malévolos’, na esperança de recrutar toda a gente para ajudar a construir um novo Japão” (Harding, pg. 155). Em sentido contrário manifestou-se o juiz indiano Radhabinod Pal, que 1) entendeu que nenhum dos réus era culpado e que muito menos o seriam os militares que tinham cumprido as suas ordens, 2) justificou a agressão japonesa como uma reacção às provocações dos EUA, 3) insinuou que alguns relatos de atrocidades cometidas pelos japoneses poderiam ser exagerados, 4) declarou que o TMIEO, ao ter excluído do seu âmbito o colonialismo ocidental na Ásia e os bombardeamentos atómicos de Hiroshima e Nagasaki, “não era mais do que uma oportunidade dos vencedores para exercerem retaliação” e 5) descreveu os julgamentos como “um uso fraudulento dos meios legais de forma a satisfazer uma sede por vingança”. Pal fundamentou o seu voto de vencido com uma detalhada argumentação que se estendeu por 1235 páginas. As motivações de Pal para esta tomada de posição tornaram-se mais claras em 1966, quando, numa visita ao Japão, declarou a sua admiração pelo Japão por ter sido a primeira nação asiática a fazer frente ao imperialismo ocidental.

O passado vem à superfície
As relações sino-nipónicas no pós-II Guerra Mundial nunca foram muito calorosas e sofreram, recentemente, um arrefecimento quando, a 7 de Novembro de 2025, Sanae Takaichi, a recém-eleita primeira-ministra japonesa, do Partido Liberal Democrata, declarou, no parlamento japonês, que o uso de força militar pela República Popular da China em Taiwan constituiria uma ameaça ao Japão e se enquadraria, inequivocamente, na “situação de crise existencial”, prevista na Legislação para a Paz e Segurança. Esta lei, promovida pelo Governo de Shinzō Abe e aprovada pelo parlamento em 2015, introduziu excepções ao disposto no Artigo 9.º da Constituição, que interdita o recurso à guerra como meio para resolver conflitos internacionais, e legitimou uma resposta das Forças de Auto-Defesa japonesas no caso de o país enfrentar uma ameaça existencial, ainda que o Japão não seja o alvo directo da agressão.

Estas declarações suscitaram reacções indignadas pela parte da RPC: o cônsul chinês em Osaka foi ao ponto de propor, na redes social X, a decapitação de Sanae Takaichi, e o governo chinês recomendou aos seus cidadãos que evitassem viajar para o Japão, impôs limitações a alguma importações do Japão, cancelou eventos culturais envolvendo os dois países ou vinculados à cultura japonesa (incluindo concertos de artistas japoneses na China e um torneio de Pokemon em Shanghai) e exigiu a devolução dos dois pandas-gigantes emprestados ao jardim zoológico de Ueno, em Tóquio (a “diplomacia do panda” é um indicador fidedigno da política externa da RPC: os pandas são emprestados – não oferecidos – a países que conquistaram as boas graças da RPC e chamados de volta quando as relações bilaterais azedam).
As declarações de Takaichi – que manteve a sua posição, apesar dos protestos vindos da China e do seu próprio país – não são inéditas nos círculos do Partido Liberal Democrata (PLD), partido que orientação conservadora que, salvo breves interregnos, tem governado o Japão desde a sua fundação, em 1955. Em 2024, Tarō Asō, então vice-primeiro-ministro (e hoje vice-presidente do PLD), declarara que se a RPC invadisse Taiwan, o Japão teria de intervir em sua defesa, em coligação com os EUA e, em 2021, Shinzō Abe, que foi primeiro-ministro em 2006-07 e 2012-20, afirmara que “uma contingência em Taiwan é uma contingência para o Japão. E é também uma contingência para a aliança Japão-EUA. Os decisores de Pequim, e, em particular, o presidente Xi Jinping, não deverão equivocar-se quanto a isso”.
Abe (assassinado em 2022), que é frequentemente classificado como ultranacionalista, já tinha suscitado a reprovação de vários países asiáticos (sobretudo da RPC e da Coreia) ao visitar o Santuário Yasukuni, em Tóquio, um memorial aos militares japoneses caídos em combate e que conta com alguns criminosos de guerra entre os homenageados. Abe fez várias visitas ao santuário a título pessoal, mas o que desencadeou a polémica foi a visita que fez em 2013, quando exercia o cargo de primeiro-ministro.

A atitude de Abe não foi inesperada, uma vez que, ao longo da sua carreira, tinha deixado evidente a sua relutância em reconhecer os crimes de guerra cometidos pelos japoneses entre 1931 e 1945. Abe causou polémica ao negar que o imperialismo japonês tivesse natureza agressiva e que Manchukuo, a entidade política criada pelo Japão na Manchúria ocupada, fosse um Estado-fantoche, apostado no extractivismo e apoiado na repressão e no uso de trabalho escravo. Por trás desta negação, talvez estivesse também a intenção de Abe de salvaguardar a imagem da sua família: Nobusuke Kishi, seu avô (e sua figura de referência), fora o responsável pela exploração desapiedada da Manchúria e do seu povo entre 1932 e 1939, antes de ingressar no Governo de Hideki Tōjō, em 1941, como ministro do Comércio e, no período 1943-44, como vice-ministro das Munições. Não há prova mais flagrante de que os Julgamentos de Tóquio pouco fizeram para punir os próceres do imperialismo japonês do que o facto de este curriculum infame não ter impedido Kishi de desempenhar papel proeminente na política do Japão do pós-guerra: foi preso em 1945 e arrolado no “peixe graúdo”, mas acabou por ser libertado em 1948 sem ser levado a julgamento e foi membro do Parlamento (1953-79), ministro dos Negócios Estrangeiros (1956-57) e primeiro-ministro (1957-60).

Abe também foi alvo de reprovação pelas suas posições sobre as “mulheres de conforto” – o uso de mulheres de outros países asiáticos como escravas sexuais dos militares japoneses durante a II Guerra Mundial – que oscilaram entre a negação, o reconhecimento parcial e a ambiguidade.
O Japão no limiar do segundo quartel do século XXI
Abe resignou ao cargo em 2020, por razões de saúde, e teve três sucessores, todos do PLD – Yoshihide Suga (2020-21), Fumio Kishida (2021-24) e Shigeru Ishiba (2024-25) – que evitaram atitudes e palavras polémicas sobre a história do Japão no século XX (quando colocados perante a possibilidade do uso da força pela RPC contra Taiwan, Kishida e Ishiba deram respostas evasivas e vagas). Estes três primeiros-ministros, vistos como pertencentes à ala moderada do PLD, revelaram-se hesitantes e sem capacidade para se impor e Harding nem sequer os menciona, ainda que o seu livro date de Setembro de 2025.
Um mês depois da sua publicação, Ishiba demitiu-se, enfraquecido pelos decepcionantes resultados obtidos pelo PLD durante o seu mandato (nas eleições de Outubro de 2024 para o Parlamento e nas eleições de Julho de 2025 para o Senado), e o partido escolheu para o substituir Sanae Takaichi, uma “discípula” de Abe e uma admiradora de Margaret Thatcher, que ocupou cargos ministeriais nos Governos de Abe e Kishida e, na juventude, foi baterista numa banda de heavy metal. Na verdade, aos 64 anos, continua a praticar bateria e a ser fã de Iron Maiden, de Judas Priest e de bandas e músicos japoneses com escassa difusão no Ocidente, como Demon Kakka e X Japan.
Takaichi tem, ao longo da sua carreira política, assumido posições próximas das de Abe no que respeita à política internacional e à história do Japão na primeira metade do século XX: considerou que os crimes de guerra japoneses foram exagerados; criticou as ocasiões em que governantes japoneses pediram desculpa por esses crimes, nomeadamente as desculpas respeitantes às “mulheres de conforto” (tema a que RPC e Coreia do Sul são particularmente sensíveis); classificou a invasão japonesa da Manchúria em 1931 como uma acção destinada a garantir a segurança do Japão; denunciou o tratamento da história do Japão no século XX nos manuais escolares como sendo excessivamente autoflageladora; e tem sido visitante assídua do Santuário Yasukuni, embora não o tenha ainda feito desde que é primeira-ministra.

Para quem creia que o Santuário Yasukuni tem por único propósito homenagear quem deu a vida pela pátria e não tem associadas quaisquer conotações políticas ou interpretações da história, é relevante acrescentar que ele inclui, desde 2005, um monumento de homenagem a Radhabinod Pal, o juiz indiano que entendeu que os Julgamentos de Tóquio foram um lamentável exemplo de “justiça dos vencedores”. Pal é uma das figuras estrangeiras mais veneradas pelos nacionalistas japoneses, como comprova o facto de, em 1966, ter sido condecorado com a Ordem do Tesouro Sagrado de 1.ª classe pelo imperador Hirohito, e de, em 2007, em visita oficial à Índia, o primeiro-ministro Shinzō Abe se ter encontrado, em privado, com Prasanta Pal, filho de Radhabinod.
Não é possível prever se Takaichi irá ser primeira-ministra durante mais tempo do que os seus três antecessores, nem se, caso permaneça no cargo, irá promover uma nova revisão do Artigo 9.º da Constituição, de forma a expandir e aprofundar as excepções introduzidas pela Legislação para a Paz e Segurança de 2015.
Há dois factores – para além das inclinações ideológicas de Takaichi – que poderão favorecer esse curso dos eventos: um é a conjuntura internacional, com os EUA de Donald Trump a recentrarem-se na “gestão” do continente americano e ilhas adjacentes e a afrouxarem o compromisso com alianças de segurança noutras partes do mundo, o que poderá deixar o Japão e a Coreia do Sul a enfrentar sozinhos eventuais intimidações ou agressões vindas dos seus vizinhos. Acontece que os três vizinhos mais próximos e poderosos dispõem de fartura de ogivas nucleares e de mísseis apropriados para as lançar e 1) têm vindo a fazer assertivas e insistentes reivindicações territoriais no Pacífico Ocidental (caso da RPC); 2) a revelar ambições imperiais concretizadas em intervenções militares (Rússia); e 3) a dar mostras de belicosidade gratuita e ostensiva (Coreia do Norte).

O outro factor favorável a uma deriva em direcção ao nacionalismo militarista é a conjuntura interna japonesa, com a rápida ascensão do partido de extrema-direita Sanseitō, cuja retórica estridente aliciou eleitores suficientes para, nas eleições para o Senado (a câmara alta da Dieta Nacional), em 2025, subtrair vários lugares ao PLD e privar este da maioria que aí detinha – desaire que veio somar-se à perda da maioria que o PLD detinha no Parlamento ou Câmara dos Representantes (a câmara baixa da Dieta) nas eleições de 2024 (ver capítulo “Imigrantes: Anjos e vilões” em Civilização ocidental: Um ambicioso plano de regressão pt. 4: Liberdades).
Ora, como se tem visto na Europa, a reacção usual dos partidos de direita perante a deserção dos seus simpatizantes para partidos de extrema-direita é a deslocação da sua matriz ideológica em direcção à extrema direita. Atendendo a que a radicalização do eleitorado costuma ser favorecida pela frustração dos eleitores com a situação económica e com a impotência dos governantes para melhorar o seu nível de vida, o Japão oferece terreno propício ao fortalecimento do Sanseitō, uma vez que a economia japonesa está estagnada desde o início da década de 1990.

O espectro da “invasão gaijin”
O estoiro da bolha financeira e imobiliária japonesa, que teve os seus primeiros prenúncios na segunda metade de 1990 e se tornou evidente no início de 1992, foi seguido por dez anos de crescimento económico anémico, que a imprensa rotulou, no início do século XXI, como “Década Perdida”. Hoje, beneficiando da visão retrospectiva, pode concluir-se que tal designação era optimista, uma vez que a economia japonesa já vai a meio da quarta Década Perdida.
O Japão continua a ser um paradigma de ordem, segurança, disciplina, rigor, pontualidade, cortesia e convivência pacífica, é etnicamente muito homogéneo e os imigrantes, um dos “espantalhos” favoritos da extrema-direita, estão longe de representar o factor de disrupção que representam nos países ocidentais. Os imigrantes ilegais são residuais – 71.000 em Julho de 2025, ou seja 0.06% da população, contra 15.8 milhões nos EUA, ou seja 4.6% da população – e o número de estrangeiros residentes, cerca de 4 milhões numa população de 123 milhões (ou seja, 3.2%), também é reduzido por comparação com os EUA (53.3 milhões, i.e. 15.8%), a Alemanha (16.9 milhões, i.e. 20.2%) ou Portugal (1.5 milhões, i.e. 15%).
Apesar destes números, cresce o receio de que a identidade nacional japonesa seja diluída pelo afluxo crescente de estrangeiros, um temor que é potenciado pelo forte aumento do turismo estrangeiro. Este resulta, em parte, da debilidade da economia japonesa, associada ao decréscimo dos salários reais, à deflação que se instalou no final da década de 1990 e à desvalorização do yen (que só recentemente deu lugar a um surto inflacionista, que tem vindo a erodir o já debilitado poder de compra do japonês médio). Estes factores fazem com que visitar o Japão se tenha tornado muito menos dispendioso e que, logo, o afluxo de visitantes estrangeiros tenha vindo a aumentar ao longo do século XXI: em 2019 foi atingido um recorde de 32 milhões de visitantes, que, após a quebra associada à pandemia de covid-19, em 2020-22, foi superado em 2024 (37 milhões) e em 2025 (43 milhões). Estas massas de turistas (maioritariamente provenientes da Coreia do Sul, RPC, de Taiwan e dos EUA, por esta ordem) tendem a concentrar-se nos locais mais “pitorescos” e “instagramáveis”, a ignorarem as regras de urbanidade e a comportarem-se de forma ruidosa e extrovertida (para os padrões nipónicos), o que gera no japonês médio a percepção de que o seu país está a ser “invadido”. Esta percepção contribui, provavelmente, para o facto de 66% da população (78% segundo outra sondagem) aprovar as medidas de restrição da imigração implementadas pelo Governo de Takaichi.

Os ultranacionalistas arrogam-se o papel de defensores dos valores ancestrais do Japão, tradicionalmente designados por “Yamato-damashii”, tendo “damashii” o significado de “espírito” ou “alma” e correspondendo “Yamato” à etnia japonesa, também referida como wajin (a partir de “Wa”, o antigo nome do Japão, e “jin”, que significa “gente”, “povo”). Para os ultranacionalistas, as medidas tomadas pelo Governo no domínio das políticas migratórias são insuficientes para defender o Yamato-damashii da ameaça representada pelos gaijin (“estrangeiros”) e reivindicam a redução do número de trabalhadores estrangeiros (embora estes sejam cada vez mais necessários ao funcionamento do país com a estrutura demográfica mais envelhecida do mundo) e a imposição de restrições à aquisição de património imobiliário por não-japoneses; alguns deles sonham, quiçá, com um “vento divino” que varra para longe todos os gaijin.

O Japão, entre a tradição e a ruptura
No passado dia 23 de Janeiro, após meros três meses como primeira-ministra, Sanae Takaichi dissolveu o parlamento e convocou eleições para daí a 16 dias, a 8 de Fevereiro (os japoneses é que têm fama de serem fastidiosamente cerimoniosos e obsessivamente formalistas, mas a legislação portuguesa estipula, para a mesma situação, um intervalo mínimo de 55 dias). O anúncio foi inesperado, mas não terá sido irreflectido: Takaichi espera, provavelmente, que a sua popularidade (a sua taxa de aprovação ronda os 70%, atingindo 80% entre os eleitores mais jovens) seja transferida para o PDL e este consiga recuperar a maioria perdida nas eleições de 2024.
Se este cenário se confirmar e Takaichi reforçar o seu poder, o Japão ver-se-á numa situação paradoxal e inédita na sua história. O Japão é, por larga margem, o mais patriarcal dos países desenvolvidos de modelo ocidental: no indicador “presença feminina no parlamento”, ocupava, em 2019, o 164.º lugar do ranking, bem abaixo de “modelos” da emancipação feminina como os Emirados Árabes Unidos (84.º lugar) ou a Arábia Saudita (105.º lugar), e Takaichi foi a primeira japonesa a alcançar o posto de chefe do Governo. No meio empresarial japonês, a presença feminina em conselhos de administração ronda os 16%, enquanto a média global é de 25% e atinge picos de 45% em França, 40% na Noruega e Islândia e 38% na Bélgica, Itália e Suécia. Esta realidade está em sintonia com uma longa história de subalternidade das mulheres na sociedade japonesa, em que Sei Shōnagon e Murasaki Shikibu, as pioneiras do romance que viveram nos séculos X-XI, são raras excepções.
Haverá quem entenda que o que há de mais disruptivo na provável recondução de Takaichi como primeira-ministra, agora com autoridade reforçada, não será tanto o facto de ser uma mulher, mas o de ser uma “dama de ferro”, determinada a regressar a valores tradicionais e a afastar o Japão da orientação pacifista assumida desde 1945.
Porém, o pragmatismo acaba, frequentemente, por levar a melhor sobre a ideologia, e a mesma Takaichi que abespinhou os coreanos ao minimizar, em mais do que uma ocasião, a brutalidade exercida pelo imperialismo nipónico sobre os povos vizinhos, tem ultimamente, expressado público apreço pela cultura coreana e tem dado mostras de grande cumplicidade com Lee Jae-myung, presidente da Coreia do Sul (desde Junho de 2025), numa relação que tem mesmo extravasado os limites do protocolo de Estado e da circunspecção e formalismo usuais na cultura japonesa. Durante a visita de Lee ao Japão, a 13.01.2026, lembrando-se de que Lee lhe confidenciara, na cimeira da APEC, em Gyeongju, na Coreia do Sul, que um dos seus sonhos era aprender a tocar bateria, Takaichi surpreendeu-o com a proposta de realizar um dueto de bateria, ao som de êxitos da K-pop, um episódio que, se não tivesse sido captado pelas câmaras de televisão e autenticado por fontes oficiais, poderia facilmente ser descartado como um exemplo de um dos muitos “hoaxes” que pululam na Era da Desinformação.
[A K-pop e a J-pop não têm de ser rivais figadais:]
https://www.youtube.com/shorts/uj3t0D-QN9w?feature=share