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(A) :: Remodelação do Governo atirada para depois da crise

Remodelação do Governo atirada para depois da crise

Saída de Maria Lúcia Amaral é um dado praticamente adquirido. Ainda que lhe reconheçam muitos méritos profissionais e académicos, paciência para gafes esgotou-se. Mudança de outras peças não afastada.

Miguel Santos Carrapatoso
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Parece ser o fim de linha para Maria Lúcia Amaral. Ultrapassada a resposta à intempérie que se abateu sobre o país, o mais certo é que a ministra da Administração Interna deixe o cargo numa futura remodelação. A cúpula social-democrata não poupa elogios à preparação académica e jurídica, mas já ficou para todos evidente que a ex-provedora de Justiça e antiga vice-presidente do Tribunal Constitucional não tem outras qualidades políticas igualmente necessárias para lidar com um cargo de grande pressão e de alta intensidade como é o da Administração Interna.

Ninguém, ainda assim, se compromete com um prazo para a saída de Maria Lúcia Amaral. A ministra esteve por estes dias reunida com Luís Montenegro, o que avolumou os rumores sobre a sua saída iminente, mas o tema não terá sido esse. Aliás, ao Observador, elementos do núcleo duro do primeiro-ministro apontam o óbvio: Maria Lúcia Amaral nunca sairá enquanto a situação no país, pelo menos, não estabilizar. Depois disso serão outros quinhentos — a própria ministra terá percebido há muito que não tem as condições necessárias, sobretudo comunicacionais, para fazer um bom lugar.

E tudo porque, ao contrário do que acontece nos Conselhos de Ministros (os seus pares elogiam-lhe as intervenções de fundo), a ministra tem-se eclipsado quando surge a falar em público ou a responder aos jornalistas. Essa fragilidade já a tinha deixado numa posição muito delicada do ponto de vista político durante os incêndios de 2025 e voltou a acontecer no arranque de 2026.

No verão, foi a aparição tardia, foram as declarações sobre os meios aéreos, foi o inusitado episódio do “vamos embora” e foi também um pequeno aviso público de Marcelo Rebelo de Sousa. Desta vez, perante a intempérie, repetiu-se o padrão: apareceu tarde e quando apareceu complicou. Primeiro, foi a história da “aprendizagem coletiva”, depois o desabafo de como o “sistema da Proteção Civil é complexo” e, por fim, o reconhecimento de que “não sabe o que falhou“.

A questão aqui é mesmo o padrão e a ideia que existe de que Maria Lúcia Amaral não consegue dominar aspetos básicos de comunicação em política. Uma coisa é cometer gafes — e, por estes dias, não faltaram ministros a dar tiros nos pés. É grave, mas acontece. Outra coisa muito diferente é não conseguir não cometer gafes, como parece ser o caso da ministra da Administração Interna.

A própria parece cada vez mais consciente das suas limitações nesse aspeto muito concreto, como o Observador pôde testemunhar quando, a 28 de outubro de 2025, no Parlamento, e depois de um curtíssima declaração sem direito a perguntas da comunicação social a propósito da morte de um militar da GNR numa operação de combate ao tráfico, a ministra se afastou rapidamente dos jornalistas e perguntou discreta mas nervosamente a um dos assessores se tinha corrido “bem”.

O destino da ministra parece estar, por isso, traçado. “Não dá mesmo“, desabafa com o Observador um elemento do núcleo mais próximo de Montenegro, sem nunca deixar de elogiar a ministra pelas suas competências técnicas. Aliás, foi reveladora a forma como António Leitão Amaro, ministro da Presidência e também ele protagonista de uma das gafes da crise, em entrevista à CNN Portugal, teve dificuldades em defender em toda a linha a forma como Maria Lúcia Amaral se apresentou em público, repetindo várias vezes que não estava ali, naquela entrevista, para “comentar a comunicação” — ao mesmo tempo que reconhecia que a comunicação é um aspeto fundamental da relação entre o Governo e os portugueses.

A questão aqui é mesmo o padrão e a ideia que existe de que Maria Lúcia Amaral não consegue dominar aspetos básicos de comunicação em política. Uma coisa é cometer gafes — e, por estes dias, não faltaram ministros a dar tiros nos pés. É grave, mas acontece. Outra coisa muito diferente é não conseguir não cometer gafes, como parece ser o caso da ministra da Administração Interna

Inventam-se sucessores

Nos bastidores, de resto, já começou o rodopio de candidatos à sucessão da ministra da Administração Interna, com dois, três e quatro nomes a serem atirados para o ar como possíveis hipóteses. Continuam, apesar de tudo, a valer três regras clássicas do montenegrismo: quem controla os tempos é o primeiro-ministro; quanto mais se sente pressionado pela oposição e pela comunicação social a ir num determinado caminho, mais resistência demonstra; e qualquer eventual sucessor de Maria Lúcia Amaral só estará na cabeça do próprio primeiro-ministro.

Existe, apesar de tudo, um dado difícil de ignorar: Luís Montenegro está altamente pressionado para encontrar uma solução vencedora para o Ministério da Administração Interna — uma pasta muito quente em qualquer Governo. Na primeira equipa que apresentou, a escolha recaiu sobre Margarida Blasco e não correu nada bem. À segunda, Montenegro optou por uma personalidade com mais experiência política, mas, mesmo assim, sem capacidade para demonstrar sangue frio nos momentos publicamente mais exigentes. Dois erros de casting difíceis de esquecer e que não dão grande margem para voltar a falhar.

Outra discussão diferente é se haverá ou não uma remodelação mais alargada. A pressão interna para que Luís Montenegro dê um impulso diferente ao Executivo arrasta-se desde a derrota humilhante de Marques Mendes nas eleições presidenciais. Os argumentos repetiam-se: o crescimento de André Ventura e o balão de oxigénio do PS vão fragilizar a AD, será preciso retomar a iniciativa e introduzir sangue novo. Tudo isto era dito no PSD ainda antes da tempestade Kristin. O que aconteceu nos últimos 15 dias atirou o Governo para uma crise de onde dificilmente sairá com a popularidade em alta. A necessidade de dar um sinal é cada vez mais premente.

Uma crise que se junta a outra crise, a da Saúde, que condicionou muito a primeira volta das eleições presidenciais. A ministra Ana Paula Martins, que, em novembro, como escreveu o Observador, estava “cansada“, “farta” dos “interesses instalados” e com vontade de reavaliar a sua continuidade no cargo, mantém-se à frente do Ministério da Saúde graças às reiteradas demonstrações de confiança do primeiro-ministro. Mas não consta que tenha recuperado o ânimo para continuar. Se saísse numa eventual remodelação mais alargada, não seria necessariamente surpreendente.

Apesar de tudo, elementos do núcleo mais restrito do Governo ouvidos pelo Observador lembram que este Executivo em concreto tem formalmente apenas seis meses (ainda que, para efeitos práticos, leve já quase dois anos de grande desgaste). Não seria prudente gastar um torpedo como o da remodelação alargada de forma tão prematura. Além disso, não é esse o padrão estratégico de Luís Montenegro. Seja como for, as coisas só ficarão mais claras o mau tempo der alguma trégua. Até lá, a prioridade máxima é responder à crise.

https://observador.pt/especiais/o-momento-de-acao-a-previsao-que-falhou-e-as-gafes-por-dentro-da-resposta-do-governo-a-crise-kristin/

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