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(A) :: A tempestade levou o cais palafítico da Carrasqueira aos pescadores. Mas mal haja madeira querem voltar a erguê-lo

A tempestade levou o cais palafítico da Carrasqueira aos pescadores. Mas mal haja madeira querem voltar a erguê-lo

Pescadores querem madeira para reconstruir passadiços históricos que ficaram destruídos. Autoridades alertam para consequências na economia local se ninguém puder sair para o mar.

Madalena Moreira
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Há quase cem anos, surgiam os primeiros pontões rudimentares de madeira na Carrasqueira, em plena reserva natural do Estuário do Sado, para permitir aos barcos dos pescadores o acesso ao mar independentemente das marés, muito acentuadas naquela zona. Na década de 1960, começou a construção, alguns metros ao lado dos pontões originais, dos passadiços que compõem hoje o famoso cais palafítico da Carrasqueira. Agora, a única coisa que sobra da maior parte dos passadiços são os pilares que os sustinham: a tempestade Kristin, no final da semana passada, e agora a Leonardo, levou todo o resto.

“Isto vai levar algumas pessoas a ir embora. Ou seja, se os custos forem demasiado altos para pôr isto de pé, algumas pessoas podem desistir de pescar aqui”, lamenta Jorge, pescador na Carrasqueira, ao Observador. Uma semana depois da Kristin, os pescadores tentam fazer contas aos estragos, mas a segunda tempestade, a Leonardo, dificulta o trabalho. A maior parte da destruição deve-se à primeira: o vento forte e chuva, trazidos pela Kristin, coincidiram com a maré alta da madrugada.

A maior parte dos pescadores tomou precauções: os barcos foram levados para terra, algumas partes do cais reforçadas. Mas na grande maioria dos passadiços, a força da natureza superou o esforço humano: no lodo exposto pela maré baixa da manhã desta quinta-feira, acumulam-se tábuas e madeiras partidas, redes emaranhadas e até cadeiras que voaram dos pontões. Apesar de a situação já ter acalmado, os esforços de reparação preveem-se longos — o que pode dificultar o regresso ao mar. “Como isto está agora, não estamos a ver quanto é que vamos [voltar] a ganhar um cêntimo”, admite Maria, de 62 anos, com a roupa manchada da lama que passou a manhã a tirar das redes.

Um negócio de família com mulheres “desenrascadas” e criado pelos pescadores

“Nasci aqui dentro de um barquito”, relata Maria, natural da Carrasqueira, entre Alcácer e a agora famosa Comporta, em tom de brincadeira. “Quase. Os meus pais eram pescadores”, explica. Hoje, com 45 anos de experiência, Maria é uma de apenas três ou quatro mulheres que continuam a trabalhar entre as poucas dezenas de pescadores que ocupam os cais da localidade. Porém, quando nasceu, há 62 anos, homens e mulheres pescavam lado a lado. As mulheres pescadoras, que “não havia em mais lado nenhum”, alimentaram a fama da Carrasqueira, realidade que está retratada na praça antes da estrada de terra batida que segue para o cais. No meio da praça, ergue-se uma estátua de um casal, um homem lado a lado de uma mulher, dentro de um barco de pesca.

A realidade das mulheres pescadoras, de estatuto igual ao dos homens, é fruto da mera necessidade, garantem vários moradores, nascidos e criados na Carrasqueira. Com a pesca como principal fonte de subsistência, marido e mulher saíam juntos para o mar para alimentar a família. “Elas adaptaram-se. Há mulheres que são mais desenrascadas que os homens. Temos que ser realistas”, argumenta, aos 72 anos, Leonardo, que partilha o nome com a última tempestade e também foi pescador durante um breve período da juventude.

Noutros casos, em vez da mãe, iam os filhos. É o caso de Jorge, que cresceu a ver os pais a saírem para o mar e mais tarde se juntou a eles. Em qualquer um dos cenários, a pesca na Carrasqueira é um negócio de família, asseguram os pescadores. Porém, as condições difíceis têm afastado cada vez mais pessoas da profissão, sem que haja uma renovação geracional.

“Quanto a alguma situação de pais para filhos, ainda devem estar aí dois ou três. Mas agora jovens a meter-se numa vida destas, a começar do zero, a comprar barcos, a comprar redes e coisas, é muito investimento…”, considera Alexandre Neto, pescador há quase 60 anos. Ao longo dos anos, foi vendo as pessoas a partir — e também sentiu os custos. Nos últimos anos reduziu os sete barcos que tinha, incluindo uma pequena traineira, a um único barco de pesca simples, de casco azul e vermelho, que agora analisa atentamente para perceber se ficou danificado na tempestade — conclui que está em boas condições, mais ainda precisa de secar.

"[Os pescadores] 'acasalavam' dois a dois, a ponte de um lado era de um e do outro lado era de outro. E depois mantinham aquilo. Foi sempre sendo assim. E vai crescendo pelas mãos dos pescadores. Os pescadores é que fizeram depois aquilo tudo."
Leonardo, 72 anos

Para além da história familiar da Carrasqueira, o lugar é famoso pela sua dimensão: é o maior cais palafítico — ou seja, construído sobre estacas ou palafitas — da Europa, como gabam os moradores com orgulho a qualquer oportunidade. Apesar da dimensão, o cais foi nascendo de forma espontânea, motivado pela necessidade e com a madeira a separar os dois barcos vizinhos que a ele se atracavam. “[Os pescadores] ‘acasalavam’ dois a dois, a ponte de um lado era de um e do outro lado era de outro. E depois mantinham aquilo”, ilustra Leonardo, que apesar de não ser pescador, tem a cédula náutica e ocupa um dos cais. “Foi sempre sendo assim. E vai crescendo pelas mãos dos pescadores. Os pescadores é que fizeram depois aquilo tudo”, afirma. Assim, a responsabilidade da manutenção recai sobre os pescadores — mesmo no cenário inédito do pós-tempestade.

Sorte e solidariedade. O balanço da “calamidade” e as consequências para a Carrasqueira

Na segunda-feira de manhã, o executivo de Alcácer do Sal, liderado por Clarisse Campos, visitou o cais palafítico para avaliar os estragos da passagem da Kristin. A presença do presidente da junta da Comporta tem sido ainda mais frequente, partilham os moradores, que elogiam a presença. Com a maior parte dos cais dos pescadores destruídos, o cais principal permanece circulável, assim como a via pedonal, paralela ao caminho de terra batida. São dois projetos aprovados e financiados pela Câmara Municipal.

“E ainda bem. Porque agora se a Câmara não tivesse feito aquela reparação e a ponte principal estivesse em condições como está, as pessoas não tinham acesso às embarcações”, nota Leonardo, que classifica, ainda assim, o cenário atual como uma “calamidade”. No entanto, depois de o pior ter passado, os pescadores reconhecem que o foco da Câmara está na situação muito mais complexa na zona ribeirinha de Alcácer do Sal. “A nossa sorte é que os nossos terrenos não são barrentos [o que evita deslizamentos de terra]. Chove muito, mas as areias bebem muita água“, declara Alexandre Neto.

Neste contexto, a principal ajuda é a solidariedade entre moradores. Nas redes sociais, partilha-se uma angariação de fundos para reconstruir o cais. A maior necessidade, aponta-se de forma unânime, é madeira para fazer o trabalho — o capital humano há-de se arranjar, acreditam os moradores. Atrás do balcão de uma loja de material de construção civil — que pertenceu inicialmente à mulher e onde começou a trabalhar depois da reforma —, Leonardo mostra-se disponível para ajudar os vizinhos do cais. “Sou capaz de dar tábuas e barrotes. Dou dentro das minhas possibilidades”, sublinha.

Além disso, o agora comerciante admite disponibilizar o pontão que detém no cais palafítico, uma vez que não o utiliza para pescar, mas apenas para recreio. Será mais importante para alguém que precise dele como ganha-pão, explica. Porém, a reconstrução do cais não é a única coisa que atrasa o regresso dos pescadores ao mar — a abertura das barragens e as cheias também inundaram o estuário do Sado de água doce, afastando das águas o choco que costuma ser apanhado nesta altura do ano.

No início da semana, a presidente da Câmara já tinha alertado para as consequências na economia local de os pescadores não poderem ir para o mar durante esta época. Mas as preocupações dos pescadores vão além do choco e do polvo do Sado. A época alta acontece em abril e maio, mas questionados sobre se a normalidade estará reposta em dois meses, permitindo fazer uma época normal, um grupo de pescadores, entre os quais Alexandre e Jorge, abanam a cabeça, o ceticismo face a essa realidade claro no rosto.

Ainda que atentos aos seus problemas, a solidariedade dos moradores da Carrasqueira estende-se aos munícipes de Alcácer do Sal, mais afetados pelas consequências da tempestade Leonardo. Da loja de Leonardo, saíram mais de uma dezena de “botas com peitilho”, doadas aos bombeiros de Alcácer, que enfrentam as cheias provocadas pela tempestade homónima, a meia hora de distância. Da porta ao lado, do supermercado — também chamado Leonardo — gerido pelo filho e a nora, saem cereais, leite e azeite ou qualquer bem essencial que lhes seja pedido.

“Imigrante” em Setúbal e “desabafos” estivais: o “amor” dos locais à Carrasqueira

A cerca de oito quilómetros do cais da Carrasqueira, uma curta viagem de carro, fica a praia da Comporta, um famoso destino de verão para os “ricos” ou “os famosos”, como classificam os moradores que pertencem à mesma freguesia. A subida de popularidade da Comporta fez-se em paralelo com a subida de popularidade do cais palafítico, aumento que os moradores atribuem à explosão das redes sociais nos últimos 15 anos.

"Quando eu vejo aqui muitos turistas, digo 'gostam muito de vir para aqui, estou farta disto', mas não é. É só um desabafo, eu adoro isto. Os meus pais viveram aqui. Eles deixaram a arte da pesca, nós continuamos a tradição e fomos construindo tudo isto."
Maria, 62 anos

No verão, as pontes, agora praticamente desertas salvo um ou outro pescador, enchem-se de turistas, nacionais e estrangeiros. Jorge vê nesta vaga de turismo uma solução para a falta de financiamento do cais, particularmente necessária depois da tempestade. O pescador relata que já discutiu com a câmara municipal a possibilidade de passar a cobrar entrada no cais. “Se vierem aqui mil pessoas, são mil euros num mês”, simplifica, enquanto os colegas acenam o seu acordo.

Exceção falta a algumas “faltas de respeito” — como tirar fotografias dos pescadores ou entrar nos barcos sem pedirem —, quem lá trabalha relata, contudo, que é principalmente indiferente ao trânsito estival. Ao contrário dos restaurantes e das pequenas lojas mais acima, a pesca não sai a ganhar, nem a perder, com o turismo.

“Quando eu vejo aqui muitos turistas, digo ‘gostam muito de vir para aqui, estou farta disto’, mas não é. É só um desabafo, eu adoro isto”, partilha Maria, rodeada pela tia e o primo, que passaram a manhã a ajudá-la a retirar as redes. Mesmo com tempestades, falta de apoio ou turistas mal-educados, continua a ser pescadora pelo “gosto” que lhe traz. “Os meus pais viveram aqui. Eles deixaram a arte da pesca, nós continuamos a tradição e fomos construindo tudo isto”, acrescenta.

O mesmo gosto pelo Sado e pela Carrasqueira é partilhado por Leonardo, que sorri enquanto lembra os muitos trabalhos que já teve desde os 14 anos, de nadador-salvador a responsável pela lota durante 40 anos. “Quando trabalhava em Setúbal, eu dizia que era imigrante. E eles diziam que eu era imigrante. E é logo do outro lado do rio”, relembra entre risos.