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(A) :: 2000 pedras por ano, o mesmo fabricante desde o século XIX e uma exploração por década: Ailsa Craig, a ilha sem a qual o curling não existia

2000 pedras por ano, o mesmo fabricante desde o século XIX e uma exploração por década: Ailsa Craig, a ilha sem a qual o curling não existia

Tem um farol, um castelo em ruínas e quatro casas, mas é fulcral para uma modalidade inteira. Todas as pedras de curling usadas nos Jogos Olímpicos vêm de Ailsa Craig, a pequena ilha perto da Escócia.

Mariana Fernandes
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São 2.190 quilómetros quadrados absolutamente imprescindíveis para os Jogos Olímpicos de inverno. A ilha Ailsa Craig, a cerca de 16 quilómetros da costa da Escócia e a meio caminho entre Belfast e Glasgow, é uma daquelas respostas que só mesmo os experts em geografia conseguem acertar nos quizzes mais complicados. Ainda assim, está muito longe de ser a protagonista de uma história recente.

Atualmente inabitada, a pequena ilha que se eleva a 335 metros acima do nível das águas chegou a ser um porto de abrigo para os católicos que fugiam da Escócia durante as batalhas da Reforma no século XVI. Tornou-se depois um autêntico santuário para aves em vias de extinção, sendo oficialmente protegida pela Real Sociedade Britânica para a Proteção das Aves, contando com a maior colónia de alcatrazes da Europa. O horizonte revela apenas um castelo medieval em ruínas, um farol e quatro casas de campo. Mas esconde o bem mais precioso de Ailsa Craig.

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A partir do século XIX e principalmente no século XX, as expedições realizadas na ilha vulcânica descobriram que esta contava com jazidas de um microgranito, entretanto conhecido como ailsite, que serve agora para construir praticamente todas as pedras de curling utilizadas no mundo inteiro. A empresa escocesa Kays of Scotland é responsável pela produção das pedras há mais de 150 anos e fabrica cerca de 1.800 a duas mil pedras por ano, sendo o fornecedor oficial da Federação Mundial de Curling e também dos Jogos Olímpicos de inverno que arrancam esta sexta-feira em Milão-Cortina.

Cada pedra custa cerca de 840 euros — o que significa que cada jogo de curling, que utiliza 16 pedras, fica a 13.455 euros. A Kays of Scotland vende a produção anual sem excedente, essencialmente ao Canadá, sendo que China, Japão e Coreia do Sul também são bons clientes. As pedras de Ailsa Craig foram utilizadas pela primeira vez nos Jogos Olímpicos em Chamonix, logo em 1924, e tornaram-se oficiais em 1998, quando o curling também se tornou modalidade permanente em Nagano. Os responsáveis da empresa deslocam-se à ilha para recolher o microgranito apenas uma vez a cada dez anos, sendo que transportam cerca de duas mil toneladas.

A ilha de Ailsa Craig, porém, tem dono. Pertence à família Kennedy, aristocratas britânicos, desde o século XVI, sendo que o varão tem atualmente o título de marquês de Ailsa. O atual marquês é David Kennedy, que a herdou do irmão mais velho, Charles, que morreu em 2015 — e que tentou vender a ilha. Em 2013, Charles Kennedy colocou Ailsa Craig à venda por cerca de três milhões de euros. Vários milionários chegaram a demonstrar interesse, mas o negócio nunca se fez. E existe um motivo.

Fascinados com a história das pedras de curling, todos os potenciais compradores recuavam nas intenções assim que descobriam que, na verdade, as jazidas do microgranito não estavam à venda. A exploração das pedras pertence de maneira exclusiva e vitalícia à Kays of Scotland e o contrato tem de ser respeitado por qualquer proprietário de Ailsa Craig, atual ou futuro. Assim, mesmo que a ilha deixe de ser da família Kennedy, as pedras de curling vão continuar nas mãos do mesmo dono.