(c) 2023 am|dev

(A) :: Começou no futebol, passeou cães para não largar o sonho e vai aos Jogos: Regina Martínez, a médica que encontrou luz no esqui

Começou no futebol, passeou cães para não largar o sonho e vai aos Jogos: Regina Martínez, a médica que encontrou luz no esqui

Nasceu na Cidade do México, jogou futebol e mudou-se para os EUA para ser médica. Pelo meio, apaixonou-se pelo esqui e chegou a passear cães para continuar a treinar e chegar aos Jogos de inverno.

Mariana Fernandes
text

México e Jogos Olímpicos de inverno são uma combinação pouco usual. Na verdade, o país enviou uma equipa de bobsleigh logo em 1928, em St. Moritz, mas só voltou a ter uma delegação em 1984, em Sarajevo. De lá para cá, somaram-se anos com um, dois ou três participantes, sendo em 1998 e 2006 nenhum mexicano conseguiu qualificar-se. O sonho de Regina Martínez, portanto, não era propriamente habitual. 

Aos 33 anos, natural da Cidade do México, Regina Martínez está prestes a tornar-se a primeira mexicana a competir na modalidade de esqui de fundo nos Jogos Olímpicos de inverno. Qualificou-se já em março do ano passado, nos Mundiais que decorreram em Trondheim, e vai agora estar em Milão-Cortina — e num universo muito distante do que chegou a pisar durante a adolescência.

Na verdade, quando era mais nova, Regina Martínez sonhava ser jogadora de futebol. Chegou a jogar nas camadas jovens do Pumas e na equipa principal de vários clubes da Costa Rica, já que o México não tinha futebol feminino profissional na altura, mas acabou por dar prioridade aos estudos e entrou em Medicina. Onde? Nos EUA. Fez as malas e mudou-se para o Minnesota, o sítio que acabaria por oferecer-lhe uma nova paixão.

https://twitter.com/COM_Mexico/status/2019096058341527728

Pouco habituada ao frio e à neve, aos invernos longos e escuros e cheia de saudades de casa e da família, achou que encontrar um hobby seria a melhor maneira de passar o tempo no meio das aulas e dos estudos. “Os invernos eram extremamente frios. Estava sozinha, não havia luz, foram tempos muito difíceis. Encontrei este desporto quando mais precisava. Deu-me uma escapatória, uma forma de estar na rua, de me mexer, de aproveitar a natureza. Por muito exigente que seja, deixas de sentir o frio muito depressa. Percebi que adoro desafios e adoro trabalhar para algo todos os dias. Depois comecei a perguntar-me: quantos mexicanos é que já estiveram nos Jogos Olímpicos de inverno? E quantas mulheres? Foi aí que percebi o quão raro era”, explicou em entrevista à Reuters.

Inspirada por Germán Madrazo, que em 2018 tinha estado nos Jogos Olímpicos de PyeongChang, conseguiu conhecê-lo e começou mesmo a treinar sob a orientação do compatriota. Quando já levava quatro anos a praticar a modalidade, um novo obstáculo: a carreira profissional obrigava a que se mudasse para Miami para realizar os estágios da especialidade, já que queria ser médica do serviço de urgência. Aparentemente, a vida estava a obrigá-la a escolher um lado. Mas Regina Martínez continuou a escolher os dois.

Mudou-se para Miami, mas viajava constantemente para o Minnesota — uma despesa avultada que acabou por custear a passear cães por dez dólares por hora. E até treinava na rua e sem neve. “Podemos praticar tanto na neve como na rua. Como não há neve durante o ano inteiro, os esquiadores treinam no asfalto com uns ‘rollers’, que são uns patins que se adaptam às botas da neve”, contou em entrevista à Sports Illustrated. As maiores dificuldades, na verdade, foram mesmo os horários.

https://twitter.com/24_morelos/status/2019167975346000359

“Não foi fácil. Durante o estágio trabalhava quase 80 horas por semanas, muitos dos turnos eram noturnos e outros eram de 24 horas. Estou muito orgulhosa do que consegui alcançar desde aí. Treinava seis a dez horas por semana e o foco com o meu treinador era não perder a condição física e manter ou melhorar a técnica. Às vezes tinha turno das 15h às 23h e treinava de manhã, dormia uma sesta, tomava banho, comia e ia para o hospital. Quando saía do turno ia ao único ginásio de Miami que estava aberto 24 horas. No dia seguinte a mesma coisa”, contou.

Certo é que tudo resultou. Regina Martínez concluiu os estágios, tornou-se médica de urgência e atualmente trabalha no Jackson Memorial Hospital de Miami, continuando a treinar com Germán Madrazo e a viajar constantemente para o Minnesota. Reconhece que ser médica pode ajudar a ser atleta de alta competição, mas não esconde que existem dias em que continua a ser difícil conciliar os dois lados.

“É difícil. Por vezes os turnos prolongam-se um bocadinho mais, se tens um paciente crítico, e há muita adrenalina. Às vezes há dias ou momentos difíceis, se morre um paciente ou chega uma paragem cardíaca. A parte emocional de ter de dizer a uma família que um ente querido morreu. É um trabalho muito exigente, fisicamente, emocionalmente e mentalmente, mas isso também me enche de humildade e perspetiva, porque quando estás habituado a ver o quão frágil é a vida ficas com outra perspetiva. Não sabemos quanto tempo temos e temos de aproveitar ao máximo cada momento. Ensina-te a não levar tudo tão a sério”, termina.