Depois de 2022, depois dos Jogos Olímpicos de inverno de Pequim, Gus Kenworthy retirou-se da neve. Tinha três edições olímpicas no currículo, uma medalha de prata guardada no armário e queria ter mais tempo para ser ator, símbolo de uma comunidade inteira e protagonista de passadeiras vermelhas. Quatro anos depois, porém, percebeu que só se encontra na neve.
“Estava em festas e alguém perguntava: ‘O que é que fazes agora?’. E nem sequer sabia responder. Parecia-me errado responder qualquer outra coisa que não ‘sou esquiador profissional. Senti que estava a perder a minha identidade”, confessa agora à ESPN. Aos 34 anos, Gus Kenworthy decidiu interromper a reforma e lançar-se para os quartos Jogos Olímpicos da carreira, em Milão-Cortina, que arrancam esta sexta-feira.
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Natural de Chelmsford, Inglaterra, é filho de mãe inglesa e pai norte-americano e foi precisamente para os EUA que se mudou quando tinha apenas dois anos, em 1993. Viveu e cresceu em Telluride, no Colorado, e foi por lá que começou a dar nas vistas no esqui, principalmente nas categorias de slopestyle, em que os atletas descem uma colina com obstáculos de vários tipos, e halfpipe. Tirou um ano ainda durante o ensino secundário para se dedicar exclusivamente ao desporto e conquistou medalhas nos Mundiais em 2011, 2012 e 2013.
A estreia olímpica apareceu em 2014 e nos Jogos Olímpicos de Sochi, alcançando desde logo a medalha de prata em slopestyle. No ano seguinte, enquanto continuava a acumular distinções em Mundiais, nos X Games e na Taça do Mundo, deu uma entrevista que lhe mudou a vida: à ESPN, revelou ser homossexual e confessou ainda estar numa relação com Robin Macdonald, um fotógrafo que também trabalhava na indústria dos desportos de inverno.
A partir daqui, tudo mudou. Medalhado olímpico e considerado o primeiro homem a assumir a homossexualidade no universo dos desportos radicais, Gus Kenworthy rapidamente se tornou um símbolo LGBTQ+ e começou a ser convidado para outros desafios, entre participações especiais em programas de televisão norte-americanos, eventos ligados ao mundo de Hollywood e até a primeira experiência como ator na conhecida série “American Horror Story”. Pelo meio, em 2018, foi aos Jogos Olímpicos de PyeongChang e protagonizou um dos momentos do evento ao beijar publicamente e em direto o namorado antes de uma qualificação.
https://observador.pt/2018/02/27/do-beijo-ao-namorado-em-direto-na-nbc-ao-resgate-de-90-caes-como-gus-kenworthy-se-tornou-heroi-na-sombra/
Em 2019, anunciou que ia deixar de representar os EUA para passar a fazer parte da equipa da Grã-Bretanha, defendendo que sentia ser “mais patriótico” vestir as cores do país em que nasceu — ainda que muitos dos especialistas tenham indicado logo na altura que a decisão tinha sido unicamente motivada pelo facto de ser mais fácil qualificar-se para as vagas britânicas do que para as norte-americanas. Ficou em oitavo lugar na final de slopestyle de Pequim, em 2022, e confirmou que tinha decidido acabar a carreira. Algo que, como já vimos, mudou há pouco tempo.
Na mesma entrevista à ESPN em que explicou que estava a “perder identidade”, Gus Kenworthy também revelou que se sentiu inspirado por Lindsey Vonn, campeã olímpica de esqui que decidiu voltar à competição aos 40 anos e depois de seis anos retirada. “Tudo se torna mais fácil quando vemos outra pessoa a fazê-lo. Tenho a certeza de que a Lindsey passou por todos os pensamentos, emoções e medos por que passei. E ainda assim, apesar de tudo isso, decidiu tentar outra vez. Vê-la fazer isso e ver que compensou, vê-la provar que ainda é aquela pessoa, fez-me pensar ‘eu também ainda sou esta pessoa'”, atirou.
Em Milão-Cortina, na quarta participação olímpica da carreira, Gus Kenworthy sente finalmente que vai competir por ele próprio: em Sochi, estava a esconder a homossexualidade; em PyeongChang, sentia a pressão de representar uma comunidade inteira; em Pequim, queria deixar a mãe inglesa orgulhosa enquanto era questionado sobre ter mudado de país. “Tomei a decisão deliberada de voltar e colocar o meu corpo à prova outra vez. Estou orgulhoso dessa decisão. Estes Jogos Olímpicos são por mim”, termina.