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Na rotunda antes da ponte metálica na baixa de Alcácer do Sal estão estacionados três barcos. São botes de borracha disponibilizados pela Marinha para as autoridades circularem na parte baixa da localidade, completamente inundada, em missões de patrulhamento para retirar pessoas de casa nestas zonas. Ao final da noite desta quarta-feira, as autoridades retiraram pelo menos duas famílias, incluindo uma com duas crianças, cuja operação foi dificultada pela força do caudal do rio Sado.
Porém, ao todo, ao longo desta quarta-feira, foram retiradas mais de 50 pessoas, avançou António Grilo, vereador da proteção Civil da Câmara Municipal de Alcácer do Sal, ao Observador. Muitas outras já tinham abandonado as casas no início da semana, depois dos alertas da autarquia nesse sentido. Mas o Sado não tomou conta desta localidade apenas na noite de quarta-feira. Primeiro, o rio transbordou com a tempestade Kristin, alagou o comércio e encheu as ruas. Ao Observador, na segunda-feira, os moradores diziam acreditar que “nada poderá ser pior”.
Depois, chegou a tempestade Leonardo. Esta quarta-feira chegou com chuva, que se intensificou ao longo do dia e ainda mais durante a noite. A água continuou a subir de forma constante, independente dos movimentos das marés, tendo chegando ainda antes da meia-noite aos dois metros de altura em algumas zonas e o Sado ameaça agora chegar onde nunca chegou — pelo menos, desde que há registo ou memória popular.

Os relatos, as fotografias e a memória das cheias de 1963
A poucos metros de distância dos botes da Marinha, Anastácio e José Filipe discutem memórias das cheias. Anastácio nasceu e cresceu em Lisboa e mudou-se para Alcácer do Sal há 30 anos. Nesse período, nunca viu nada assim. José Filipe também nunca viu com os próprios olhos, mas garante que já aconteceu. “Em 1963 não era nascido, mas vi as fotografias lá em casa”, relata o natural do concelho de Setúbal. Outros homens juntam-se à conversa e fazem contas à memória: lembram outros eventos de cheias, com destaque para umas a meio da década de 1980. Numa terra construída à beira do estuário da Sado, inundações e cheias não são um tema desconhecido.
No entanto, as cheias desta quarta-feira são, ainda assim, inéditas, pois são as primeiras grandes cheias do século XXI, depois de a zona baixa da cidade ter sido reconfigurada, argumentam. O vereador António Grilo destaca outra diferença. “Há relatos de nos anos 60 do século passado ter havido aqui uma cheia enorme, mas numa altura em que as barragens não eram controladas e teoricamente, nesta altura, devia haver um controlo diferente”, destaca.
Badina tinha 11 anos em 1963. Nova demais para se lembrar bem dessas cheias com clareza, mas crescida o suficiente para ter a certeza que a água chegou mais longe. Numa rua paralela ao rio, debruça-se à janela de casa. Ficou sem luz pouco antes das 22h desta quarta-feira — como o resto da rua, já tinha ficado brevemente sem eletricidade por volta das 19h — e aproveita para ver a agitação pouco característica na rua onde mora há 47 anos.
Um grupo de pessoas circula com uma carrinha de caixa aberta onde coloca arcas frigoríficas, que tentam salvar da água que não esperavam que subisse tanto. Outro grupo coloca lonas e sacos de areia na soleira das portas, num frenesim animado, apesar da chuva que não pára de cair. Do outro lado da rua, o lado mais próximo do rio, ouve-se uma pergunta dirigida a Badina: “Acha que chega aí, vizinha?”. Se chegar, as cheias desta quarta-feira tornam-se as maiores de que há registo entre os habitantes.
A subida inesperada das águas que pode obrigar a realojar pessoas pela segunda vez
Na verdade, Beatriz, a voz que interpelou Badina, não é sua vizinha. A jovem de 21 anos está alojada num hotel na mesma rua com o marido, a cunhada e o sobrinho pequeno depois de a sua casa, do outro lado da Avenida dos Aviadores, ter ficado inundada. Mas a família já está no hotel há mais tempo. Saíram de casa há quase uma semana, depois de as autoridades terem deixado os primeiros apelos à evacuação das zonas baixas e têm regressado a casa regularmente para retirar alguns bens.
A última vez que foi a casa foi na quarta-feira, por volta das 14h. “A água estava pelos joelhos”, mas conseguiu salvar a maior parte dos bens e até o animal de estimação da família, relata ao Observador. No mesmo hotel estão pelo menos outras duas famílias realojadas com quem tem falado. Uma delas não teve a mesma sorte e perdeu quase tudo nas cheias, tal como aconteceu com a maior parte dos estabelecimentos comerciais na zona. Em poucos dias, foram criadas angariações de fundos para ajudar estes negócios, os primeiros a sofrer com as cheias, partilha Beatriz, impressionada com a solidariedade.
Agora, teme que o rio a obrigue a mudar-se uma segunda vez. “Temos um guarda chuva lá atrás que utilizamos como referência e dá para ver a água a subir”, explica. Caso as autoridades aconselhem os moradores a abandonar a rua, Beatriz irá para casa dos avós. António Grilo admite que essa é uma possibilidade. Para aqueles que não tiverem casas de familiares ou amigos onde ficar, a autarquia organizou o seu acolhimento no edifício da Santa Casa da Misericórdia de Alcácer do Sal, detalha.

“Começámos a ter informação não favorável por volta das 7 da manhã, equacionávamos um cenário muito desfavorável mas não este cenário, [que] é efetivamente muito acima daquilo que seria expectável“, relata. Apesar de a noite desta quarta-feira ter sido de maré vazia, a água não recuou. Pelo contrário, a chuva foi de tal forma intensa que a água continuou a subir ao longo dessas horas.
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O levantamento porta a porta e as missões de patrulhamento noite fora
A bordo do bote seguem alguns bombeiros, membros da proteção civil, da Marinha e funcionários dos serviços de ação social da Câmara Municipal. Seguem também três adultos e duas crianças, que contactaram as autoridades a pedir ajuda para sair de casa. Quase a chegar a “terra”, o barco fica preso na corrente. Várias pessoas que esperavam na margem entram na água, quase até à cintura, para ajuda os tripulantes na reta final do percurso.
O vaivém de barcos repetiu-se toda a noite, em missões de patrulhamento pelas ruas — mesmo que os barcos regressem sem mais pessoas a bordo do que quando partiram. “Estamos a tentar tirar pessoas, que nos solicitam que sejam retiradas das suas casas, uma vez que optaram por ficar inicialmente. Nós tínhamos aqui uma referência, porque fizemos um levantamento porta a porta com todos os nossos técnicos, avisámos as pessoas, solicitámos que, se pudessem, fossem para a casa de familiares”, elaborou.
Beatriz foi uma das pessoas que respondeu ao primeiro apelo feito pelas autoridades e saiu de casa ainda antes de a água lhe bater à porta. E elogia o trabalho que tem sido feito, do contacto direto com a população e da prevenção às atualizações frequentes e aos pontos de situação feitos nas redes sociais. Os elogios fazem eco pelas ruas da freguesia de Santiago, a freguesia “mais afetada” pelas cheias, segundo o presidente da junta, Duarte Dimas.
“Nunca houve um executivo como este”, elogia Badina, que acrescenta que a presença constante das autoridades a reconforta e a acalma. Porém, mesmo esta presença e a solidariedade que despontou entre os salacianos não é suficiente para resolver todos os problemas. Ao fundo da rua, a água impede o acesso às duas únicas farmácias da localidade. Para obter medicação, é preciso sair de Alcácer do Sal, entrar na autoestrada e ir a Grândola, uma viagem de cerca de 20 minutos para cada lado — os restantes acessos entre as duas localidades estão intransitáveis. O trajeto é mais desafiante para aqueles que precisam de medicações urgentes.
Além das farmácias, também as escolas do conselho não irão abrir portas até à próxima semana. Ainda assim, uma outra preocupação ocupa mais espaço aos políticos locais ouvidos pelo Observador: “As populações isoladas e envelhecidas” nas aldeias à volta de Alcácer do Sal. “Algumas localidades já estão isoladas e temos estado a fazer um acompanhamento telefónico com entidades que estão no local”, afirma António Grilo.