A Iniciativa Liberal omitiu durante mais de vinte dias a existência de queixas de assédio dentro do partido, inclusive uma da própria Inês Bichão. Na fase final da campanha eleitoral para a primeira volta das presidenciais, quando João Cotrim Figueiredo ainda era candidato, a direção da IL e vários dirigentes liberais foram questionados diversas vezes por jornalistas, mas optaram sempre por omitir deliberadamente estes casos — mesmo quando foi perguntado diretamente se havia outros visados que não Cotrim Figueiredo. Agora, exatamente 22 dias depois da primeira resposta oficial, a direção da IL vem admitir a existência de dois casos, dos quais não dá informações detalhadas, a não ser para os desvalorizar e para dizer que não visam Cotrim.
A cronologia mostra que a a IL ocultou outros casos de assédio de que teria conhecimento desde os primeiros dias da polémica — sendo que um deles envolvia Inês Bichão. Logo a 13 de janeiro, um dia depois de a publicação de Inês Bichão sobre Cotrim num contexto restrito ser tornada pública, o candidato foi confrontado pelo Observador com o facto de as denúncias de assédio já circularem na IL há dois anos, ao que o respondeu, de forma lacónica: “Então circulou e ninguém me ia dizer nada?”.
Nesse mesmo dia, a direção do partido, após ser contactada pelo Observador, acabaria por responder (também a outros órgãos de comunicação, como o Diário de Notícias) o seguinte: “A Iniciativa Liberal não vai alimentar uma campanha suja que decorre neste momento por via das eleições presidenciais.”
Nessa manhã, 30 mulheres divulgaram uma carta a defender João Cotrim Figueiredo, mas onde se afirmava que “situações desta natureza devem ser analisadas com seriedade, justiça e respeito por todas as partes envolvidas.” Pelo menos uma dirigente da Comissão Executiva — órgão que já tinha, sabe-se agora, sido “confrontada duas vezes com situações desta natureza” — assinava a carta.
Mariana Leitão não assinou essa missiva, mas surgiu no dia seguinte à noite, no Porto, a atacar os jornalistas no comício de Cotrim: “É lamentável que a comunicação social se tenha demitido de fazer o seu trabalho mais básico, ao ponto em que a calúnia fácil sobre matérias graves sem denúncias ou provas passa a ser dada como facto consumado”. A líder do partido sabia que já tinham existido duas queixas internas, uma delas de Inês Bichão (embora não contra Cotrim), mas optou por atacar o trabalho dos jornalistas sem contribuir para esclarecer o que chamou de “matérias graves“.
A 15 de janeiro, três dias depois das primeiras notícias, a própria Inês Bichão fez um comunicado público sobre o assunto. João Cotrim Figueiredo deixou publicamente no ar a hipótese de existirem queixas, mas não contra ele: “Como me perguntaram antes, como me perguntaram ontem, hoje já me perguntaram duas vezes. Eu não tinha conhecimento das situações de assédio sexual. Eu só posso interpretar que não era visado, senão ter-me-ia dito. Conheço bem a Mariana Leitão, é uma pessoa íntegra”.
As afirmações de Cotrim podem dar a entender que essas queixas ocorreram já durante o mandato de Mariana Leitão, embora os casos tenham chegado ao Observador durante o mandato de Rui Rocha — Inês Bichão também fala em 2023. Mas a direção atual, liderada por Mariana Leitão, continua a fazer uso da semântica para evitar dar informações relevantes sobre o caso, como por exemplo a data. No comunicado desta quarta-feira fala em duas denúncias “desde a fundação”, sugerindo que podem ser mais antigas. Continua sem explicar quando foram feitas as queixas, o que não revelaria a identidade das queixosas.
A 15 de janeiro, quando é divulgado o comunicado de Inês Bichão, e após dias de silêncio, a Iniciativa Liberal decidiu emitir finalmente um comunicado próprio a dizer: “É completamente falso que tenha havido qualquer queixa interna ou reporte, formal ou informal, sobre o candidato presidencial João Cotrim Figueiredo. A Iniciativa Liberal rejeita visceralmente uma campanha suja que lança acusações muito graves sem qualquer evidência ou prova.” Mais uma vez, a IL teve oportunidade de referir os casos internos que visavam outros membros, mas não o fez — apesar de um deles envolver Inês Bichão.
Rui Rocha também sentiu necessidade de falar publicamente e, numa nota à Agência Lusa nesse dia, afirmou: “As acusações que têm sido discutidas nos últimos dias são aparentemente imputadas ao período em que fui presidente da Iniciativa Liberal. É minha obrigação cívica esclarecer publicamente que nunca recebi qualquer queixa sobre o João Cotrim de Figueiredo, seja de que natureza for, referente a esse momento temporal ou a qualquer outro”. Também Rui Rocha optou por não referir outras queixas, que não sobre Cotrim, envolvendo Inês Bichão.
A pergunta direta do Observador que teve como resposta uma omissão
O Observador questionou então diretamente a direção da IL com a seguinte pergunta: “Houve alguma queixa de assédio sexual da pessoa em questão ou de outra sobre outro elemento da IL que não João Cotrim Figueiredo?” Fonte oficial da IL limitou-se a responder: “Este assunto neste momento é para ser tratado em tribunal, onde tudo será esclarecido, de forma inequívoca. Todos os que, sem evidência ou qualquer fundamento, participaram nesta campanha coordenada de difamação terão de por ela responder.” Ou seja: questionada diretamente sobre queixas visando outro elemento da IL, a direção optou por uma omissão deliberada.
Agora, quase três semanas depois, a IL vem finalmente admitir no comunicado divulgado esta quarta-feira que, “desde a sua fundação, a Iniciativa Liberal foi confrontada por duas vezes com situações desta natureza“. Na mesma nota, a direção da IL esclarece que “a primeira delas deu lugar a um processo formal que seguiu todos os trâmites que se exigiam, tanto legais como internos, tendo sido arquivado.” Neste primeiro caso, nem esclarece as razões do arquivamento — não refere, por exemplo, se foi por ausência de provas, como diz no segundo caso.
O comunicado fala depois de uma segunda situação que “não identificava quaisquer factos e não indicava evidências, tendo a IL desenvolvido tentativas para que a mesma fosse desenvolvida ou concretizada, sem nunca ter obtido qualquer resposta por parte da sua autora”. Neste caso, explica o comunicado, a IL terá tentado saber mais, mas foi alegadamente a queixosa que não quis falar sobre o assunto. Apesar disso, garante o comunicado, “foi dado seguimento a uma averiguação independente, recorrendo a suporte jurídico externo, que envolveu toda a informação que foi possível reunir e da qual saiu a conclusão de que não havia quaisquer evidências da veracidade da situação relatada.” Neste caso, que o Observador sabe que se trata de uma denúncia de Inês Bichão, a IL não esclarece como garantiu a “independência” da averiguação que fez, nem a que tipo de “suporte jurídico externo” recorreu. No entanto, diz ter concluído que não há provas da situação relatada.
A IL anunciou ainda que nomeou o advogado Paulo Saragoça da Matta para agir judicialmente presume-se que contra Inês Bichão. Isto porque a antiga assessora da IL foi quem sugeriu que houve encobrimento da situação por parte do partido quando disse no comunicado enviado à agência Lusa que os “factos em causa foram reportados em sede interna no decurso de 2023”. A IL insiste que foi alvo de “suspeitas infundadas e danosas”, ameaçando com “reações judiciais que se impõem”.
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