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(A) :: Seguro conquista Belém. Ventura conquista espaço 

Seguro conquista Belém. Ventura conquista espaço 

Está a normalizar-se o voto em políticos e em partidos de extrema-direita. É como diz o povo: primeiro estranha-se, depois entranha-se… 

Jorge Costa Rosa
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No seguimento do resultado eleitoral de 18 de janeiro – e para surpresa de (absolutamente) ninguém – os eleitores portugueses serão novamente chamados às urnas no próximo domingo, para uma segunda volta das Eleições Presidenciais.

E, como era de esperar, a segunda volta será protagonizada por um candidato que representa o establishment; e por André Ventura – o populista antissistema que vive de o desafiar.

Quanto ao primeiro – por muito que possa ter sido inesperado para alguns – é a consequência natural de uma conjugação de dois fatores: a teimosia pífia (e até mesmo ridícula) dos partidos à esquerda do Partido Socialista de marcar presença, custe o que custar, só para poderem realizar uma prova de vida – mesmo que isso signifique, disputarem a noite eleitoral com Manuel João Vieira; e o ego desmedido de Cotrim de Figueiredo, que – na convicção ingénua e risível de que tinha perfil e estatuto para se candidatar a Belém – fragmentou o eleitorado da direita moderada, que já tinha o seu voto destinado a Marques Mendes. Juntando estes ingredientes, ao canibalismo político e à baixaria protagonizada por muitos destes candidatos – sobretudo por Cotrim e Gouveia e Melo – o resultado só poderia ser um: António José Seguro. O candidato que se absteve de realizar quaisquer tipo de ataques pessoais, e que se afirmou – com toda a propriedade, diga-se – como o candidato da decência, da elevação e do sentido de Estado.

Quanto ao segundo – o anti- – não existiu, de facto, nenhuma surpresa. Era, pois, para todos, óbvio que André Ventura tinha já lugar cativo na segunda volta. Como bem sabemos, concentra em si mesmo as angústias, as frustrações, os ódios e os rancores da percentagem dos portugueses que se sente esquecida, preterida e excluída, e que opta pelo caminho mais fácil: culpar o outro. E é precisamente isso que Ventura cavalga e procura capitalizar. Mais fácil do que arranjar soluções para os problemas complexos das pessoas – isso, convenhamos, dava uma trabalheira – é construir uma narrativa simplista de que existem grupos de pessoas (políticos corruptos, ciganos, imigrantes e subsidiodependentes) que são responsáveis pela miséria dos demais. Para os que têm boa memória, este é – e sempre foi – um método experimentado e (infelizmente) bastante frutífero junto das massas.

Mas não foram só esses portugueses, que se sentem eclipsados e relegados para segundo plano, que garantiram o lugar cativo de Ventura na segunda volta. Nem foram só os ignorantes, racistas, xenófobos e iletrados que preenchem algumas das fileiras do partido presidido por ele, que contribuíram para a sua ascensão sustentada. Foram, outrossim, também um (vasto) grupo de eleitores da direita tradicional – intrinsecamente avessos ao despesismo da esquerda, ao progressismo e ao wokismo, e com uma aversão pavloviana ao socialismo (mais instintiva, do que informada) – que, eleição após eleição, se têm vindo a aproximar silenciosamente da possibilidade (dantes remota) de colocar a cruz em André Ventura.

É precisamente esse Período de Normalização Em Curso (PNEC) que marcará o tempo em que vivemos. Sem darmos por isso – por estar a suceder de forma discreta, mas galopante – está a instalar-se em Portugal (a par, aliás, do que tem sucedido no resto do mundo) uma normalização cada vez maior do discurso populista de extrema-direita. Mas pior do que isso: está a normalizar-se o voto em políticos e em partidos de extrema-direita. É como diz o povo: primeiro estranha-se, depois entranha-se…

O voto que outrora se dizia “envergonhado”, hoje é exercido de forma quase orgulhosa, acompanhado de um comentário justificativo, que orgulharia qualquer taberneiro com a quarta classe deste país. Isso já se nota nas conversas que ouvimos, nas caixas de comentários que evitamos ler, e em estudos de opinião que nos demonstram que o eleitorado da direita tradicional (PSD/CDS) está, de forma progressiva e sorrateira, a perder os pruridos de ceder ao radicalismo à sua direita.

De facto, por muito que as taxas de rejeição a André Ventura sejam suficientemente altas para afirmar – como afirmei no artigo que, há pouco tempo, aqui escrevi: “Belém: entre o Ruído e o Perfil” – que (ainda) perderá no próximo dia 8 contra Seguro (como perderia, fosse contra quem fosse), elas estão cada vez mais baixas no que ao eleitorado da AD diz respeito.

Mas porquê? Como é que mesmo depois da direita moderada vencer duas legislativas, umas autárquicas, e depois de se consolidar – ainda que de forma fragmentada – na primeira volta das presidenciais, a taxa de rejeição ao CHEGA (junto do eleitorado da direita tradicional, leia-se) continua a diminuir?

A resposta não é simples. Mas um dos principais culpados é, indubitavelmente, Luís Montenegro e a sua estratégia curtoprazista de não tomar partidos, abrindo a possibilidade de se poder aliar com o PS e com o CHEGA, casuisticamente, e conforme as matérias a legislar. Montenegro fê-lo tão-só com um único objetivo egoísta: o de sobreviver, o máximo tempo possível, na cadeira de Primeiro-Ministro, custe o que custar. E, não haja dúvida, vai custar-nos caro… Mas a todos.

Porém, para além de suicida a longo prazo para o partido que lidera, essa tática tacanha e imediatista de Montenegro transacionou (ao desbarato) os valores fundadores da democracia liberal, pela conveniência da gestão do dia-a-dia. Demonstrando uma visão de merceeiro, ao invés de uma mundividência estadista – como seria de esperar por parte de um Primeiro-Ministro responsável, e determinado a defender os valores fundadores da nossa Constituição e da nossa democracia.

Com efeito, depois de percebermos que seria dessa forma que Montenegro pretendia governar o país, não poderíamos esperar outra coisa na noite de 18 de janeiro diferente do que aconteceu: entre um democrata decente e moderado, e um populista de extrema-direita, Montenegro não conseguiu – uma vez mais – escolher um lado. Entre a esquerda moderada e a direita radical, o líder do partido de charneira do centro-direita não consegue optar. O que, uma vez mais, legitima e normaliza Ventura e as suas ideias.

Como se pudesse, alguma vez na vida, existir alguma dúvida – na cabeça de um democrata – entre a esquerda socialista e a extrema-direita. Ainda para mais, quando o candidato “socialista” de que estamos a falar é, nada mais nada menos, do que António José Seguro: um social-democrata moderado, sério e decente, muito mais próximo de Sá Carneiro e de Adelino Amaro da Costa, do que qualquer eleitor (ou simpatizante) do partido CHEGA alguma vez poderá almejar.

A realidade é que em Portugal – ao contrário do que sucedeu com outros exemplos pelo mundo fora – a direita moderada, assim que chegou ao poder, nunca teve coragem sequer para estabelecer, num primeiro momento, um cordão sanitário com a extrema-direita. Muito se fala nas linhas vermelhas, mas a realidade é que em Portugal elas nunca chegaram a existir. E o sinal que o PSD de Montenegro deu ao país foi que: um voto no CHEGA é tão válido como um voto na AD, porque no fim de contas, eles lá se entenderão se necessário e conveniente for. Ora, com este modus operandi, qualquer pessoa com dois dedos de testa percebia que a banalização do discurso de Ventura seria uma consequência inelutável. E importa não esquecer que, no que toca a votar em partidos como o CHEGA, só custa a primeira vez.

Contudo, e justiça lhe seja feita, não foi só Montenegro que – nos últimos tempos – veio legitimar Ventura e o seu partido. Cotrim de Figueiredo – como não poderia deixar de ser – foi o único candidato destas Eleições Presidenciais, que entre apelar ao voto num democrata e num populista, não escolheu Seguro. Isto para não falar das declarações desconcertantes do deputado do CDS, Paulo Núncio, a defender Ventura e a afirmar que nunca seria capaz de votar num candidato oriundo da esquerda. A boa notícia para todos nós é que, com as declarações de Núncio, Seguro deve ter perdido apenas os dez votos que o CDS vale, de facto, aos dias de hoje.

É certo, portanto, que para qualquer moderado não existe margem para dúvidas em quem votar no próximo domingo. Não só pelo perfil presidencial e talhado para o cargo de António José Seguro, mas por tudo o que ele representa hoje e sempre. Por um lado, pelos valores que personifica e que ativamente tem vindo a defender; e por outro, pelo facto de, do outro lado do boletim de voto, termos André Ventura.

Ademais, verdade seja dita, não restam dúvidas que Seguro vencerá no dia 8 de fevereiro.

Todavia, e pese embora termos – todos os defensores do Estado de Direito Democrático e do sistema constitucional como o conhecemos – razões para celebrar no próximo domingo, é bom que não sejamos imediatistas como Montenegro, e que saibamos ver para lá desta eleição.

Não nos enganemos, nem nos deixemos levar pelas emoções do curto prazo. Não é tempo de deitar foguetes, mas sim de pensar em mudar de estratégia. Porque enquanto o PS respira fundo das derrotas sucessivas que tem sofrido, e os democratas suspiram de alívio por Ventura sair derrotado, o CHEGA vai-se normalizando e vai conquistando o seu lugar.

Seguro conquistará Belém, é certo. Mas Ventura vai mais longe: vai conquistando espaço, até ao ponto de se tornar no elefante que já não cabe na sala a que chamamos democracia.