Ao fundo do palco, abre-se um pórtico de luz onde surge uma figura. Escuta-se a Partita em Lá menor para flauta solo, de Bach, à qual se juntam elementos de percussão, e logo regressamos à escuridão total. É assim que se inicia WonderLandi, a mais recente criação sonora e coreográfica de Lander Patrick, que sobe esta semana ao palco da Culturgest, em Lisboa, de 5 a 7 de fevereiro. Nela, submergimos num imaginário mapeado pela música e por aquilo que “este fenómeno misterioso que assombra seres humanos e animais” carrega desde o primórdio dos tempos. Existiríamos sem ela? É a questão lançada pelo coreógrafo.
No meio de um cenário marcado por um conjunto de cilindros, que fazem lembrar um órgão ou instrumentos de sopro, um grupo de oito intérpretes – incluindo o próprio Lander Patrick – traduz em movimento aquilo que a batida sugere. No centro desta experiência performativa está uma investigação, mas também uma homenagem à música enquanto fenómeno universal, presente tanto na história da humanidade como no mundo natural. Tal como os tubos do cenário, também a flauta que se escuta logo no início faz jus a essa reflexão. “A flauta em osso é um dos primeiros instrumentos criados pelo ser humano, feita com o intuito de reproduzir o som dos pássaros. É uma ideia primordial que desde logo associa a procura do homem em estar ligado à natureza”, explica Lander Patrick ao Observador.
Mas há mais referências a reter em WonderLandi. Para o efeito, o coreógrafo – que, juntamente com Jonas Lopes, forma a dupla Jonas&Lander – rodeou-se de referências culturais, históricas e sensoriais para refletir sobre a forma como este património imaterial molda comportamentos, memórias e estados de espírito. A música, desde tempos antigos, acompanha ritos sociais e religiosos, momentos de celebração e de tragédia, sendo usada como senha de revoluções ou em instantes de exaltação heroica. “São manifestações tão diferentes e heterogéneas, mas que me levavam sempre à mesma questão: porque é que fazemos música?”

Entre as muitas possibilidades de resposta, o coreógrafo nascido no Brasil destaca duas que foram, desde logo, essenciais na composição do espetáculo: “por um lado, coordenamos movimentos com uma batida externa, o que é uma característica particular e um processo de antecipação natural; assim que conhecemos o ritmo, o nosso corpo já antecipa o próximo beat; por outro, a nossa relação com o pitch, isto é, seja mais grave ou mais aguda, conseguimos reconhecer uma música pela melodia”.
Agarrado pelo poder magnético que a música transporta, Lander Patrick começou a imaginar como seria uma sociedade sem música e que impacto isso teria, sobretudo nas sociedades ocidentais. Embora não seja possível responder de forma definitiva a essa interrogação, o coreógrafo reflete sobre a sua dimensão universal e sobre aquilo que historicamente explica a busca pelo som por parte dos humanos.
“Se formos mais atrás no tempo, vamos chegar a um ponto – e a outras geografias – em que a música é uma forma de comunicação. Tem o poder de exaltação do espírito, de coordenação em massa e de encontro, mas é, acima de tudo, um processo de comunicação. No fundo, uma forma de linguagem”, realça. Tal como os recém-nascidos produzem sons que ainda não são palavras, mas já constituem uma forma de comunicação, acrescenta.
Regressamos ao palco. Num misto de cores, fumo e géneros musicais diversos, da música clássica ao funk brasileiro e à eletrónica, o coletivo vai gradualmente ganhando um espírito de união, enquanto se delineiam objetivos comuns. Como cantou Madonna, “Music makes people come together”. É precisamente esse efeito agregador que Lander Patrick procura replicar, assumindo em WonderLandi um papel de anfitrião e maestro num ritual que vai ganhando novos contornos.
Uma dança de operários
Entre a natureza e o mundo moldado pelos humanos, a música está quase sempre presente, seja nos rituais de acasalamento das aves, na comunicação das baleias, na memória dos elefantes ou na atividade humana. No desenrolar da peça, os intérpretes assumem progressivamente uma posição participativa. São, a certa altura, operários munidos de capacetes que deslocam e reposicionam os tubos presentes em palco.
“Muita da história da música cruza-se com momentos de construção e de esforço comum”, sintetiza Lander Patrick. Era habitual entoarem-se canções entre operários de fábrica ou entre trabalhadores do campo. São referências que, explica, servem não só para pensar o efeito agregador da música, mas também a importância que esta teve na formação das classes sociais e na forma como as concebemos. “O subtítulo da peça seria ‘Ópera do operário’. Procurei estabelecer uma ligação aos trabalhadores, onde tantas vezes, ao assumir uma função, se trabalha a um ritmo e com uma batida própria”, sublinha.

Neste contexto de coordenação coletiva, entoado em coro através de uma versão renovada de The Cold Song, de Henry Purcell, instala-se um movimento uníssono. “A música alterou o processo histórico do trabalho, nomeadamente a nossa capacidade de nos coordenarmos”, acrescenta. O caminho escolhido funciona também como forma de desconstruir a “ideia ocidental da música como algo estudado apenas por especialistas”, devolvendo-lhe o seu carácter sociológico.
“Quando há oportunidades, as pessoas querem cantar ao vivo. Continua a ser fundamental na construção de identidades e de lugares. Há nessa dimensão uma forma de enraizamento que nem sempre encontramos noutras formas de expressão artística”, sintetiza Lander Patrick. No reverso da medalha, observa, surgem também os mecanismos de fixação identitária. Os hinos nacionais, por exemplo, reforçam sentimentos de pertença, mas transformam-se com o tempo e com novas formas de pensar a identidade. “É por isso que não são intocáveis. Os hinos podem ser repensados ou até desligados do seu sentido original. Não é algo que não se possa mudar.”
Apesar de todas as reflexões e questionamentos sobre o património musical e aquilo que este representa, WonderLandi é também uma resposta à forma como a música é hoje recebida, maioritariamente, como produto de fruição e entretenimento. Neste universo de movimento e som, Lander Patrick procura restabelecer a importância do seu carácter participativo. “Mais do que nunca, somos recetáculos, e esse lado de participação parece perder-se. A música está hoje compartimentalizada, engavetada em géneros, mas pertence às nossas vidas. É urgente trazer de volta essa dimensão que nos une a todos”, diz.
Nunca deixando de lado o seu lado experimental, WonderLandi recorre à música e aos ensinamentos de Iannis Xenakis, visionário na forma como explorou as mais diversas possibilidades de criação sonora, mas também na forma como nos ensinou a escutar música: muito para lá de um simples gesto de audição, é uma forma de encontro e de experiência partilhada. Em palco, WonderLandi faz desse princípio o seu motor, evidenciando como, num tempo de divisões, a música une e convoca a participação, sendo também por isso que continuamos a fazê-la e a ouvi-la.