Os dias não estão fáceis para os pessimistas. Concedamos: nunca estão – é parte da definição de pessimismo – mas estes que vivemos, em particular, abusam daquela solitária alegria que sobra ao profeta desanimado: ter razão. É que, na verdade, o pessimista tem esse desejo secreto de ser contrariado; tal como o hipocondríaco diante do médico segurando os resultados do terceiro check-up do ano, tudo o que ele quer é descobrir que estava enganado. Que tudo está bem. Até disparar o próximo alerta.
Porém, e mesmo neste atormentado Inverno de 2026, pode surgir, de vez em quando, uma brecha rasgando os nublados sentimentos de apocalipse iminente.
Joga-se nas ruas da cidade norte-americana de Mineápolis mais do nosso futuro do que talvez a nossa atenção venha concedendo. Enquanto os desejos expansionistas da actual administração ameaçam reescrever todos os equilíbrios e alianças desde o pós-Segunda Guerra, é possível que a invasão do Minesota cause mais dano ao Make America Great Again do que as da Venezuela, Gronelândia ou Irão. E não apenas porque ali não há pretextos possíveis de alegados ditadores que urja derrubar, corridas mais ou menos encapotadas aos recursos naturais ou simples trincheira para os debates esquerda vs direita, democracias liberais vs. autocracias populistas. Tudo tem a ver com uma velha palavra fora de moda: a verdade, a nossa capacidade de, nos tempos que correm, a voltarmos ou não conseguir separar do conceito de fé, e a última hipótese de a opinião pública salvar a democracia, antes de cometer harakiri (perdoe o dramatismo típico de pessimista).
Ali, nas margens do Mississipi, forças de segurança há meses invadem de rosto tapado propriedade privada sem mandado judicial, agridem manifestantes, capturam imigrantes legais e sem cadastro e, finalmente, abatem, a sangue frio, cidadãos norte-americanos pelo simples crime de se manifestarem, registarem em vídeo a sua actuação ou transportarem armas legais, para as tinham licença (é estranho, mas, nos Estados Unidos, é assim: ou bem que se podem vender e licenciar armas, ou não. Convém decidir).
Mas as mortes de Renee Gold e Alex Pretti, ambos de 37 anos, ela uma escritora mãe de três filhos, ele um enfermeiro de cuidados intensivos numa unidade para o tratamento de veteranos de guerra, mostraram mais do que a brutalidade policial. Ao contrário de tantos outros episódios na América ou fora dela, não se tratou de momentos trágicos eventualmente explicados por erro humano, precipitação, nervosismo, depois lamentado pelas autoridades, mas frias execuções, legitimadas pelos responsáveis políticos que se apressaram a catalogar as vítimas de terroristas, perigosos activistas de extrema-esquerda, que se preparavam para atentar contra a vida das forças da ordem.
Eis-nos, portanto, neste Inverno do nosso descontentamento, num tempo em que o país outrora “líder do mundo livre”, executa, sem remorsos, concidadãos seus, apressando-se a distorcer os factos, em nome de uma ideologia e da sua manutenção no poder. Mesmo que, para isso, tenha de usar ou dar rédea solta à fabricação e difusão de imagens falsas, geradas por inteligência artificial, capazes de aproximar os comportamentos de Renee Gold e Alex Pretti, nos instantes antes da morte, das suas teses. Não é na China; não é no Irão; é nos Estados Unidos da América.
Onde e como pode, então, surgir qualquer espécie de aberta para o pessimista que já só vê nisto tudo o fim dos tempos, da verdade e o colapso em dominó das democracias e da liberdade, aos pés do fanatismo e dos mestres marionetistas do delírio tecnológico? Aqui mesmo, na outra face da moeda.
Sucede que o mesmo mundo onde as redes sociais e os deepfakes tornam, todos os dias, mais magra a nossa capacidade de distinguir a verdade da mentira, é aquele onde, hoje, cada um de nós carrega no bolso uma câmara de filmar e um meio de comunicação social, capaz de emitir, imediatamente, para o mundo (quase) inteiro. E foi assim que a multiplicidade de câmaras, ângulos, perspectivas, dos homicídios da senhora Gold e do enfermeiro Pretti, permitiu reconstituir, para lá de qualquer dúvida, a verdade, desmentir as teses da Casa Branca e fazê-la recuar em Mineápolis, afastar responsáveis, dialogar com as autoridades (democratas) locais e demover porta-vozes outrora indefectíveis. Para já.
Na semana passada, cientistas concluíram que os ursos polares de Svalbard, um arquipélago na Noruega, estão maiores e mais anafados do que há 30 anos. A proeza deve-se ao aquecimento global, que derrete cada vez mais gelo e tornou as focas mais fáceis de apanhar. A notícia péssima para as focas é óptima para os ursos polares, cuja penúria apresentada noutras partes do mundo nos surge, tantas vezes, como caso exemplar das alterações climáticas e do mundo crepuscular para onde, hipoteticamente, nos dirigimos.
Mas talvez ainda não seja o fim do mundo, afinal. Talvez já não seja simplesmente possível voltar a prender dentro da lâmpada o génio da liberdade, os americanos travem a América, a tecnologia seja a melhor arma contra ela mesma e tenhamos apenas de aprender a remar nestas novas marés de poucas focas e muitas verdades.
No título desta crónica ressoa, é claro, o do livro de Manuel António Pina: “Ainda não é o fim nem o princípio do mundo. Calma. É apenas um pouco tarde”. O facto de o poeta o ter escrito em 1969 e, com efeito, ainda por aqui andarmos, alegra-me, companheiro pessimista.
Mas é preciso remar.