Sem grande surpresa, constatamos que o Estado continua a falhar numa das suas funções mais nobres: proteger pessoas e bens em situações de emergência, nomeadamente as que resultam de fenómenos naturais.
Ao contrário do que acontece com os fogos florestais, onde a prevenção deve assumir um papel fundamental, desta vez não havia muito a fazer. Mas mesmo o pouco que podia ser feito antes da tempestade chegar não resultou. Os avisos às populações foram feitos, mas o carácter burocrático que assumiram nos últimos anos fez com que ninguém levasse muito a sério a gravidade do que haveria de ocorrer.
Nem o Estado acreditou nos alertas que estava a fazer. Dois sintomas disso: o Comandante nacional da Proteção Civil não sentiu necessidade de cancelar uma formação rotineira e ausentou-se para Bruxelas durante a depressão Joseph e a tempestade Kristin; e ninguém cuidou de retirar para local seguro os F16 da Força Aérea que ficaram no hangar de Monte Real que viria a ser destruído. Podem ser detalhes no meio de todos os danos e das vidas que se perderam, mas que mostram a indiferença com que tudo estava a ser encarado.
Depois da devastação, cumpriu-se o roteiro que já todos conhecemos de cor. Dificuldades de coordenação entre os vários organismos que devem intervir, demora na integração de militares e das suas competências, as falhas habituais atribuídas ao SIRESP, erros na comunicação do governo, discussão sobre o momento em que os políticos devem deslocar-se às zonas da ocorrência, populações a 150 kms de Lisboa a queixarem-se de falta de assistência nos dias seguintes e a generosidade de milhares de anónimos que tentam ajudar como podem.
O guião habitual vai continuar a cumprir-se. Ministros serão chamados ao Parlamento, porque a oposição vai querer demonstrar que não estiveram à altura e o governo quer jurar que sim. O SIRESP vai voltar a ser discutido, reforçado, reformulado, na lógica do “desta vez é que é”. Deveremos ter mais uma comissão técnica independente para avaliar o que se passou, sugerida na primeira hora por Marcelo Rebelo de Sousa. Os apoios já anunciados pelo governo poderão chegar tarde e ser escassos. E vamos voltar a discutir se as redes eléctrica e de telecomunicações devem ser enterradas nalgumas zonas para evitar os apagões que inevitavelmente ocorrem nestas situações.
Cumpridos estes rituais, daqui a poucos meses o país esquecerá estes assuntos. Todo o país? Não. As pessoas afectadas estarão ainda a recompor-se, a recuperar e consertar o que perderam.
Muitas empresas vão passar por dificuldades que ultrapassam a reconstrução dos danos materiais. Vão perder clientes que não podem parar à espera dos componentes, equipamentos ou maquinaria que são fabricados ali. Algumas podem não sobreviver e vão perder-se postos de trabalho.