Vários bilhetes de avião. Nos mais de 3,5 milhões de ficheiros do caso Epstein divulgados durante a semana passada, há muitos documentos em que se percebe que o milionário acusado de montar uma rede de tráfico sexual com menores pagou várias viagens a um brasileiro e a uma cidadã com nacionalidade portuguesa. Ao contrário do que acontece com vários nomes, os deles não estavam rasurados pelas autoridades norte-americanas: eram o casal Maria Gomes de Melo e Valdson Vieira Cotrin — este último foi o mordomo de Jeffrey Epstein durante 18 anos, na sua casa em Paris.
Maria Gomes de Melo é, como se pode ver pelos bilhetes de avião comprados pelas secretárias de Jeffrey Epstein ao longo dos anos, uma cidadã com nacionalidade portuguesa. A mulher fez várias viagens desde Paris até Nova Iorque (onde o milionário também tinha casa) e chegou a ir ao Brasil (de onde o marido é natural). Tudo isto era pago pelo homem que morreu na prisão em 2019.
Por exemplo, em 2015, Lesley Groff, a assistente pessoal de Jeffrey Epstein, enviou os bilhetes de avião de Paris-Nova Iorque (ida e volta) para o milionário. Cada um custou 847 dólares (cerca de 717 euros). Nas redes sociais, o casal publicou fotografias dessa viagem, em que ambos se mostram na cidade norte-americana a passear.

Antes e depois de 2015, Maria Gomes de Melo e Valdson Vieira Cotrin fizeram várias viagens entre Paris e Nova Iorque, sempre organizadas pela secretária e com o aval de Jeffrey Epstein, segundo revelam os ficheiros. Mas também houve viagens ao Brasil pagas pelo milionário norte-americano, como aconteceu no início de 2019.
Em declarações ao jornal Telegraph, Valdson Vieira Cotrin revelou que Jeffrey Epstein passava uma semana “de dois em dois meses” em Paris. E que muitas vezes ele própio viajava com a mulher para cozinhar para amigos famosos do empresário: “Podia ser um jantar com Ehud Barak, Bill Gates. Epstein contratava chefes de topo em Nova Iorque ou Paris e depois pedia-me para lhes mostrar o que eu fazia, porque ele gostava [da minha comida]”.

A relação entre o mordomo, a mulher portuguesa e Epstein
Valdson Vieira Cotrin geria o apartamento de Jeffrey Epstein em Paris. Na capital francesa, o milionário tinha uma casa de quase 800 metros quadrados (com oito quartos, ginásio, uma sala de massagens e dois estúdios), localizada no 16.º arrondissement parisiense, um dos mais nobres, nas redondezas do Arco do Triunfo. Em 2022, foi comprada por um milionário búlgaro por 10 milhões de euros.
Apesar de ser Valdson o mordomo e não haver nada que indicie que a mulher trabalhava para o milionário, Maria Gomes da Silva mantinha uma relação próxima com Jeffrey Epstein, como chegou a contar ao jornal britânico Telegraph: “Nunca vimos nada de impróprio com qualquer rapariga menor em mais de 20 anos, nem em Nova Iorque, nem na ilha, nem em Paris”, afirmou a cidadã portuguesa natural da vila de Torre de Moncorvo, no distrito de Bragança, mas que vive em França.
“Monsieur” ou “Patrão”. Era assim que Valdson Vieira Cotrin tratava Jeffrey Epstein. Tal como a mulher, garantiu que nunca viu nada de estranho. “Fui o seu motorista, o seu cozinheiro, o seu empregado doméstico. Fiz tudo em Paris, eu era o único empregado pago a tempo inteiro. Trabalhei para ele desde 2001 até à sua morte. Se alguém pudesse ter visto alguma coisa, era o Valson e mais ninguém”, diz.
O mordomo assegura que se “tivesse visto algo de anormal” teria contactado a polícia. “Não vi nada”, assume, concedendo, no entanto, que Jeffrey Epstein se rodeava de mulheres mais novas. “Ele apenas gostava de se rodear de raparigas, mas não teria necessariamente sexo com elas. Era basicamente para inglês ver”, prossegue, acrescentando que muitas delas “faziam massagens ou cortavam unhas” ao empresário.
Nestas declarações ao Telegraph, o casal também não acredita que Jeffrey Epstein se tenha suicidado na prisão. “Recebemos a notícia de que ele se teria enforcado. Honestamente, ele amava demasiado a vida para a tirar assim”, considera Maria Gomes de Melo. Valdson Vieira Cotrin acredita no mesmo: “Eu não creio que tenha sido suicídio. Ele amava demasiado a vida”.
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