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Por “muito ódio”. Aluno de 14 anos esfaqueia professora em França

Claudette Pascal, professora de arte no colégio La Guicharde, foi atacada depois de o aluno ter agarrado numa faca da cantina. Está “em condição estável”, depois de ter sido operada ao tórax.

Manuel Carvalho
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As 14h da última terça-feira no colégio La Guicharde, em Sanary-sur-Mer, no sudeste francês, marcavam a hora de uma aula do 9.º ano que se viria a transformar numa cena de crime: um dos 22 alunos da disciplina de artes plásticas esfaqueou uma professora à frente da restante turma, noticiou o Le Monde.

O autor confesso do crime é um adolescente de 14 anos que, após o ato, quando já estava sob custódia policial, disse que o cometeu “porque sentia muito ódio”. Foi um ato premeditado. O jovem “pegou numa faca da cantina” da escola com a intenção de magoar a professora, detalhou o procurador de Toulon, Raphaël Balland, que pediu prisão preventiva para o aluno que deverá ser presente a tribunal em breve, conta o mesmo jornal.

O estudante já tinha pensado esfaquear  a professora há mais tempo. Na semana anterior, chegou a levar uma faca para a escola “mas desistiu do plano, com medo de concretizá-lo”, contou o próprio à equipa de investigação. O procurador disse ainda que o jovem tinha “diversas armas brancas no seu quarto” e um histórico familiar alegadamente problemático.

Desta vez, o ódio sobrepôs-se ao medo. Isto porque a professora “registou vários incidentes a respeito do aluno” numa aplicação que permite que os professores comuniquem com os encarregados de educação — uma espécie de caderneta escolar online. “Ele achou injusto”, contou Balland.

Claudette Pascal, de 60 anos, professora naquela escola há 28, esteve em estado crítico mas atualmente já não corre perigo de vida, depois de já ter sido submetida a uma cirurgia ao abdómen e tórax, noticiou o Nice-Matin. A família afirmou estar “mergulhada em angústia e expetativa”, enquanto ainda aguardava por notícias sobre o estado de saúde da mulher, de acordo com o Le Monde.

“Rigorosa, mas gentil”

Por ser a única professora de arte no colégio La Guicharde, Claudette é conhecida por todos os alunos da escola e o seu trabalho é apreciado por todos, relata o Le Parisien. É das poucas professoras que vê todos os alunos da escola passarem pela sua sala de aula. “É muito querida pelos seus alunos e por toda a comunidade escolar. O seu compromisso profissional e a qualidade do seu ensino são reconhecidos tanto pelos seus pares como pelos seus superiores”, afirma a reitoria de Nice — que tutela, entre outras escolas, o colégio La Guicharde —, citada pelo mesmo jornal.

A cultura de exigência da professora também é lembrado por alguns. É o caso de Émilie, mãe de três alunas que já tiveram aulas com Pascal, que diz que a professora pode ter “métodos de ensino antiquados”, mas que não é “nada maldosa” e que “não é uma professora problemática”, cita-a o Le Parisien. Duas alunas da escola dizem que Claudette é “muito rigorosa e chama a atenção por coisas pequenas”.  A professora “não deixa passar impunes atrasos ou faltas de material. É rigorosa, mas gentil”, garantem. Habiba Hamames, presidente da Federação de Pais e Professores salienta que Claudette “talvez pudesse ter recebido mais apoio nos últimos anos em relação à sua abordagem com certos alunos que enfrentavam dificuldades ou discriminação. Isso poderia tê-la protegido e seria também para o bem desse aluno que se sentia ainda mais rejeitado”.

Também o município de Sanary-sur-Mer, através de um comunicado, expressou “total apoio à vítima, à sua família e a toda a comunidade escolar”.  E a reitora de Nice, Natasha Chicott, também não ficou em silêncio: “Os nossos pensamentos estão com a nossa professora de arte, vítima de um horrível ataque com uma faca na sua escola em Sanary-sur-Mer. Oferecemos o nosso total apoio à sua família e a toda a comunidade escolar. O ministro [da Educação] está a caminho do local; estarei lá com ele”, afirmou na rede social X.

https://twitter.com/NatachaChicot/status/2018700138655424603?s=20

Já no colégio La Guicharde, o ministro da Educação francês, Edouard Geffray manifestou-se “muito comovido e também muito irritado”, ao esfaqueamento de Claudette Pascal. “Não se ataca um professor. É inaceitável”, lamentou Geffray, que adiantou a diversos orgãos de comunicação social que a professora saiu do bloco operatório “em condição estável”. Mais tarde, no X, publicou as suas declarações frisando que “1,2 milhões de colegas estão unidos no apoio a esta professora”.

https://twitter.com/EdouardGeffray/status/2018809476296651228

As aulas no colégio La Guicharde foram entretanto suspensas esta quarta-feira e foram criadas unidades de apoio psicológico para alunos e professores. O reinício das atividades curriculares está agendado para esta quinta-feira.